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Full text of "Coleção Os Pensadores - 1ª Edição. Abril Cultural, 1973/1974. [Convertido E Comprimido Para Preto & Branco]"

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OS PENSADORES 


57 
A 
93» 


NICOLAU MAQUIAVEL 


O PRÍNCIPE 


ESCRITOS 
POLITICOS 


Traduções de Lívio XAVIER 


EDITOR: VICTOR CIVITA 


Títulos originais: 


Il Principe. 
Del modo di trattare i popoli della Valdichiana ribellati. 
Dalla Legazione al Duca Valentino. 
Descrizione del modo tenuto dal Duca Valentino nello ammazzare Vitellozzo Vitelli, Oliverotto 
da Fermo. il Signor Pagolo e il Dúca di Gravina Orsini. 
Discorso sopra le cose di Alemagna e sopra ['Imperatore. 
Rapporto di cose della Magna. 
Ritratto delle cose dell"Alemagna. 
Della natura dei francesi. 
Ritratto della cose di Francia. 
Discorso fatto al Magistrato dei Dieci Sopra le cose di Pisa. 
Discorso sulla provisione del danaio. 
Sommario delle cose della citta di Lucca. 


|.º edição — Janeiro 1973 


“O Copyright desta edição, 1973, 
Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo. 
Traduções publicadas sob licença de 
Athena Editora, São Paulo. 


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“Nicolau Maquiavel 


Ao magnífico Lorenzo, filho de Piero de Médicis 


As mais das vezes, costumam aqueles que desejam granjear as gra- 
ças de um príncipe trazer-lhe os objetos que lhes são mais caros, ou 
com os quais o vêem deleitar-se; assim, muitas vezes, eles são presen- 
teados com cavalos, armas; tecidos de ouro, pedras preciosas e outros 
ornamentos dignos de sua grandeza. Desejando eu oferecer a Vossa 
Magnificência um testemunho qualquer de minha obrigação, não 
achei, entre os meus cabedais, coisa que me seja mais cara ou que 
tanto estime quanto o conhecimento das ações dos grandes homens 
apreendido por uma longa experiência das coisas modernas e uma 
continua lição das antigas; as quais, tendo eu, com grande diligência, ' 
longamente cogitado, examinando-as, agora mando a Vossa Magnifi- 
cência, reduzidas a um pequeno volume. 

E conquanto julgue indigna esta obra da presença de Vossa Magni- 
ficência, não confio menos em que, por sua humanidade, deva ser 
aceita, considerado que não lhe posso fazer maior presente que lhe 
dar a faculdade de poder em tempo muito breve aprender tudo aquilo 

“que, em tantos anos e à custa de tantos incômodos e perigos, hei 
conhecido. Não ornei esta obra e nem a enchi de períodos sonoros ou 
de palavras empoladas e floreios ou de qualquer outra lisonja ou 
ornamento extrínseco com que muitos costumam descrever ou ornar 
as próprias obras; porque não quis que coisa alguma seja seu ornato 
e a faça agradável senão a variedade da matéria e a gravidade do 
assunto. Nem quero que se repute presunção o fato de um homem de 
baixo e ínfimo estado discorrer e regular sobre o governo dos prínci- 
pes; pois os que desenham os contornos dos países se colocam na 


o $ MAQUIAVEL 


planície para considerar a natureza dos montes, e para considerar a 
das planícies ascendem aos montes, assim também para conhecer 
bem a natureza dos povos é necessário ser príncipe, e para conhecer 
a dos príncipes é necessário ser do povo. 

Tome, pois, Vossa Magnificência este pequeno presente com a 
intenção com que eu o mando. Se esta obra for diligentemente consi- 
derada e lida, Vossa Magnificência conhecerá o meu extremo desejo 
que alcance aquela grandeza que a Fortuna e outras qualidades lhe 
prometem. E se Vossa Magnificência, do ápice da sua altura, alguma 
vez volver os olhos para baixo, saberá quão sem razão suporto uma 
grande e contínua má sorte. 


CAPÍTULO 1 


De quantas espécies são os principados e de quantos 
modos se adquirem | 


Todos os Estados, todos os 
domínios que tem havido e que 
. hã sobre os homens foram e são 
repúblicas ou principados. Os 
principados ou são hereditários, 
cujo senhor é príncipe pelo san 
gue, por longo tempo, ou são 
novos. Os novos são totalmente 
novos, como Milão com Fran- 
cesco Sforza, ou são como mem- 


bros acrescentados a um Estado 
que um principe adquire por 
herança, como o reino de Nápo- 
les ao rei da Espanha. Estes 
domínios assim adquiridos são, 
ou acostumados à sujeição a um 
principe, ou são livres, e são 
adquiridos com tropas de outrem 
ou próprias, pela fortuna ou pelo 
mérito. 


CAPÍTULO II | 


Dos principados hereditários 


Não tratarei das repúblicas, 
pois em outros lugares falei a res- 
peito .delas!. Referir-me-ei so- 
mente aos principados, e procu- 
rarei discutir e mostrar como 
esses principados hereditários 
podem ser governados e manti- 
dos. Digo, assim, que nesta espé- 
cie de Estados afeiçoados à fami- 
lia de seu principe, são muito 
menores as dificuldades de man- 
tê-los, pois basta somente que 
não seja abandonada a praxe dos 
antecessores, e depois se contem- 
porize com as situações particu- 
lares, de modo que, se tal prín- 


cipe é de engenho ordinário, 


sempre se manterá no seu Esta- 
do, se não houver uma força 
extraordinária-.e excessiva que o 
prive deste; e, mesmo que assim 


Maquiavel refere-se aqui à sua obra “Dis- 
corsi sopra la prima deca di Tito Livio”. 


seja, O readquire, por pior que 
seja o ocupante. 

Temos na Itália, por exemplo, 
o Duque de Ferrara?, o qual 
resistiu ao ataque dos venezianos 
em 1484, e aos do Papa Júlio em 
1510, somente por ser antigo o 
domínio da sua família. Porque o. 
principe natural do país tem 
menores ocasiões e menor neces- 
sidade de ofender. É claro, pois, 
que seja mais querido. Se ex- 
traordinários defeitos não o 
fazem odiado, é razoável que seja 
naturalmente benquisto: da sua 
gente. E na antiguidade e conti- 
nuação do domínio gastam-se a 
memória.e as causas das inova- 
ções, pois uma transformação 
poderá ser sempre acompanhada 
da edificação de outra. 


2 Ver. no índice dos nomes citados o nome 
D'Este. 


CapítTuLO HI 


Dos principados mistos : 


Mas a dificuldade consiste nos 
principados novos. Primeiro, se 
não se trata de principado intei- 
ramente novo, mas sim de mem- 
bro ajuntado a um Estado heredi- 
tário (caso em que este pode 
chamar-se um principado misto), 
as suas variações nascem princi- 
palmente de uma dificuldade 
comum a todos os principados 
novos, a saber, que os homens 
mudam de boa vontade de se- 
nhor, supondo melhorar, e esta 
crença os faz tomar armas contra 
o senhor atual. De fato, enga- 
nam-se e vêem por experiência 
própria haverem piorado. Isso 
-«depende de outra necessidade 
natural e ordinária que faz com 
que um novo principe careça 
ofender os novos súditos com a 
sua tropa e por meio de infindas 


injúrias, que acarreta uma recen- 


te conquista. 
Assim, são teus inimigos todos 


aqueles que se sentem ofendidos 
pelo fato de ocupares o princi- 
pado; e também não podes con- 
servar como amigos aqueles que 
te puseram ali, pois estes não 
podem ser satisfeitos como pen- 
savam. Não poderás usar contra 
eles remédios fortes, obrigado 
que estás para com eles, pois 
mesmo que sejas fortíssimo nos 
exércitos, necessitas do favor dos 
habitantes para entrar numa pro- 
vincia. Por isso, Luis XII, rei de 
França, ocupou Milão rapida- 


“mente e rapidamente a perdeu, 


bastando para isso as forças de 
Ludovico Sforza, pois a popula- 
ção que havia aberto as portas ao 
rei da França, caindo em si do 
seu engano quanto ao bem que 
esperava daquele príncipe, não o 
pôde suportar. É bem verdade . 
que, sendo conquistados segunda 


vez, os países rebelados se per- 


dem com mais dificuldade: o 


16 MAQUIAVEL 


principe, tendo por pretexto a 
rebelião, hesita menos no assegu- 
rar a punição dos revoltosos, 
esclarecer as suspeitas, prover às 
suas próprias fraquezas. Assim, 
para que a França perdesse 
Milão, foi bastante a primeira 
“vez que o duque Ludovico amea- 
çasse as fronteiras, mas a segun- 
da vez foi necessário que toda a 
gente fosse inimiga e que os exér- 
citos franceses fossem aniqui- 
lados ou expulsos da Itália. De- 
corre isso das referidas razões. 


Não obstante, foi-lhe tomada pri- 
meira e segunda vez. As razões 
gerais da primeira estão expos- 
tas: resta discorrer sobre as da 
segunda, e ver que remédios hou- 
vera a França de empregar para 
manter melhor a conquista. 


Estes Estados conquistados e 
anexados a um Estado antigo, se 
são da mesma província e da 
mesma língua, são facilmente 
sujeitos, máxime quando não 
estão acostumados a viver livres. 
Basta, para que se assegure a 
posse desses Estados, fazer desa- 


parecer a linha do príncipe que 


os dominava, pois mantendo-se. 


nas outras coisas a condição 
antiga, e não havendo dispari- 
dade de costumes, os homens 
vivem calmamente. Assim se viu 
na França no caso da Borgonha, 
Bretanha, Gasconha e Norman- 


dia?, e, ainda que haja alguma 
dessemelhança na língua, os cos- 
tumes são idênticos, de sorte que 
esses Estados podem viver juntos 
muito facilmente. O conquista- 
dor, para mantê-los, deve ter 
duas regras: primeiro, fazer ex- 
tinguir o sangue do antigo prínci- 
pe; segundo, não alterar as leis 
nem os impostos. De tal modo, 
num prazo muito breve, ter-se-á 


feito a união ao antigo Estado. 


Mas, quando se conquista uma 
província de língua, costumes e 
leis diferentes, começam então as 
dificuldades, sendo necessária 
uma grande habilidade e boa 


sorte para poder conservá-la. Um 
dos meios mais eficazes é ir o 


príncipe habitá-la. Se se está pre- 


sente, vêem-se nascer as desor- 


dens, e pode-se remediá-las com 
presteza; no caso contrário, só se 
terã notícia -delas quando não 
houver mais remédio. Além 
disso, a província conquistada 
não será espoliada pelos lugar - 
tenentes. Os súditos ficarão satis- 
feitos com o mais fácil recurso ao 


3 A Normandia uniu-se à coroa de França em 
1204; 'a Gasconha em 1453; a Borgonha em 
1477, pela morte de Carlos, o Temerário; a 
Bretanha uniu-se virtualmente à coroa pelo 
casamento de Ana da Bretanha com Carlos 
VIII, pois cabia aquela a sucessão, por morte 
do último representante masculino da linha di- 
reta da casa reinante. Oficialmente, porêm, foi 
anexada à coroa de França por ocasião do 
casamento de Cláudia, filha de Ana e Luís 
XII, com Francisco 1. 


1 


O PRÍNCIPE 17 


principe: assim, terão maiores 
' razões de amá-lo, se é o caso, ou 
de temê-lo. Os ataques externos 
serão mais custosos e o principe 
só muito dificilmente perderá 
essa província. 

" Outro remédio eficaz é organi- 
zar colônias, em um ou dois luga- 
res, as quais serão uma espécie 
de grilhões postos à província, 
pois é necessário fazer isso, ou 
ter lá muita força armada. Com 
as colônias não se gasta muito, e 
sem grande despesa podem ser 
feitas e mantidas. Os únicos 
prejudicados com elas serão 
aqueles a quem se tomam os 
campos e as casas, para dá-los 
aos novos habitantes. Mas os 
prejudicados sendo minoria na 
população do Estado, e dispersos 
e reduzidos à pobreza, não pode- 
rão causar dano ao principe, e os 
outros que não foram prejudi- 
cados deverão por isso aquietar- 
se, por medo de que lhes acon- 
teça o mesmo. Enfim, acho que 
essas colônias não custam muito 
e são fiéis; ofendem menos, é 
também os ofendidos não podem 
ser nocivos ao príncipe, como se 
explicou acima. Deve-se notar 
que os homens devem ser mima- 
dos ou exterminados, pois se se 
vingam de ofensas leves, das gra- 
ves já não podem fazê-lo. Assim, 
a injúria que se faz deve ser tal, 
que não se tema a vingança. 


"Mas conservando, em vez de 
colônias, força armada, gasta-se 
muito mais, e tem de ser despen- 
dida nela toda a receita da 
província. A conquista torna-se, 
pois, perda, e ofende muito mais, 
porque prejudica todo o Estado 
com as mudanças de alojamento 
das tropas. Estes incômodos 
todos os sentem, e todos por fim 
se tornam inimigos que podem 
fazer mal, ainda batidos na pró- 
pria casa. Por todas as razões, 
pois, é inútil conservar força 
armada, ao contrário de manter 
colônias. 

Também numa província dife- 
rente por sua língua, costumes e 
leis, faça-se o príncipe de chefe e 
defensor dos mais fracos, e trate 
de enfraquecer os poderosos da 
própria província, além de guar- 
dar-se de que entre por acaso um 
estrangeiro tão poderoso quanto 
ele. 

Pois acontecerá sempre que os 
habitantes da província, movidos 
pela ambição ou pelo temor, cha- 
mem estrangeiros poderosos. 
Assim, os etólios chamaram à 
Grécia os romanos, que sempre 
foram chamados pelos naturais 
das províncias conquistadas. 

E a ordem das coisas é que 
quando um estrangeiro poderoso 
chegue a uma província, todos 
aqueles que se acham enfraque- 
cidos lhe dêem adesão, movidos 


| PA a | 


18 MAQUIAVEL 


pela inveja do que lhes é senhor. 
Por isso mesmo, não custa traba- 
lho algum lhes alcançar o apoio; 
e de boa vontade farão bloco de- 
pois com o Estado conquistado. 
Há o perigo de ficarem eles 
muito fortes e com demasiada 
autoridade; facilmente então fica- 
.riam árbitros da província, aba- 
tendo os poderosos com as pró- 
prias forças do conquistador. 
Aquele que não se dirigir bem, a 
este respeito, perderá depressa a 
sua conquista, € enquanto não a 
perder terá infindas dificuldades 
e dissabores. 


Os romanos, nas províncias 


que conquistaram, observaram 
boa política a respeito. Fizeram 
colônias, fomentaram os menos 
poderosos sem aumentar a força 
destes, abateram os mais podero- 
sos, e não deixaram que os 
estrangeiros poderosos tomassem 
força. Sirva-me de exemplo a 
província da Grécia. Roma sus- 
tentou os aqueus e os etólios, 
abateu o reino dos macedônios, 
expulsou Antíoco. Mas nem os 
méritos dos primeiros e dos se- 
gundos permitiram-lhes aumen- 
tar os. seus domínios; também 
Filipe? não persuadiu os roma- 
nos de que deviam ser seus ami- 
gos, nem a Antíoco deixaram 


4 Ver no índice dos nomes citados o nome de 
Filipe V, rei da Macedonia. 


conservar domínio algum. Por- 
que os romanos nestes casos fize- 
ram o que todo príncipe prudente 
deve fazer: não só remediar o 
presente, mas prever os casos 
futuros e preveni-los com toda a 
perícia, de forma que se lhes 
possa facilmente levar corretivo, 
e não deixar que se aproximem 
os acontecimentos, pois deste 
modo o remédio não chega a 
tempo, tendo-se tornado incurá- 
vel a moléstia. Da tísica dizem os 
médicos que, a princípio, é fácil 
de curar e difícil de conhecer, 
mas com o correr dos tempos, se 
não foi reconhecida e medicada, 
torna-se fácil de conhecer e dificil 
de curar. Assim se dá com as coi- 
sas do Estado: conhecendo-se os 
males com antecedência, o que 
não é dado senão aos homens 
prudentes, rapidamente são cura- 
dos: mas quando, por se terem 
ignorado, se têm deixado aumen- 
tar, a ponto de serem conhecidos 
de todos, não haverá mais remé- 
dio aqueles males. 

Os romanos, vendo de longe as 
perturbações, sempre as remedia- 
ram e nunca as deixaram seguir O 
seu curso, para evitar guerras, 
pois sabiam que a guerra não se 
evita, mas se é protelada redunda. 
sempre em proveito de outros. 
Assim, empreenderam a guerra 
contra Filipe e Antíoco, na Gré- 
cia, para não ter de fazê-la na Itá- 


O PRÍNCIPE 19 


lia; podiam tê-la evitado, mas 
não o quiseram. Não lhes agra- 
dava fiar-se no tempo para resol- 
ver as questões, como aos sábios 
da nossa época, mas só se louva- 
vam na própria virtude e prudên- 
cia, porque o tempo leva por 
diante todas as coisas, e pode 


mudar o bem em mal e trans- 


formar o mal em bem. 

Mas voltemos à França e exa- 
minemos como procedeu ela em 
situações semelhantes. Falarei de 
Luíisº e não de Carlos*, pois 
aquele conservou por mais tempo 
possessões na Itália, e se viu me- 
lhor a medida dos seus progres- 
sos. Vereis que ele fez o contrário 
do que se deve fazer para conser- 
var a conquista de um Estado 
diferente. O Rei Luis foi levado à 
Itália pela ambição dos venezia- 
nos, que quiseram, por esse meio, 
ganhar o Estado: da Lombardia. 
Não quero censurar o partido to- 
mado pelo rei. Quando tomou pé 
na Itália, e não tendo amigos 
nesta província, e antes pelo 
contrário, pelos precedentes do 
Rei Carlos, sendo-lhe trancadas 
todas as portas, foi ele forçado a 
ter as amizades que podia. E 
seria bem sucedido na decisão 
tomada, se em outros manejos 
não tivesse praticado algum erro. 


5 Luís XII. 
6 Carlos VIII. 


Conquistada pois a Lombardia, o 
rei recuperou a reputação que 
Carlos perdera; Gênova cedeu, 
os florentinos tornaram-se seus 
amigos, o Marquês de Mântua, o 
Duque de Ferrara, Bentivoglio, a 
Senhora de Forli, o Senhor de 
Faenza, de Pescaro, de Rimini, 
de Camerino, de Piombino, os 
luqueses, os pisdes e sieneses, 
todos foram ao encontro da sua 
amizade. Os venezianos puderam 
então considerar a temeridade da 
própria resolução, pois para ad- 
quirir dois tratos de terra, na 
Lombardia, fizeram o rei senhor: 
de dois terços da Itália. Veja-se 
agora quanto era fácil ao rei 
manter na Itália a sua reputação, 
se, tendo observado as regras 
referidas, tivesse assegurado a 
defesa de todos aqueles amigos 
seus, OS quais, sendo numerosos, 
careciam todos de estar com ele. 
Por meio de tais aliados, o Rer 
Luís poderia facilmente assegu- 
rar-se contra aqueles que se ti- 
nham conservado fortes. 

Mas logo que se achou em 
Milão, fez justamente o contrá- 
rio, ajudando o Papa Alexandre 
a ocupar a Romanha. Nem pen- 
sou que, com essa deliberação, se 
enfraquecia a si próprio, pois 
afastava dele os amigos e aqueles 
que se lhe tinham lançado ao 
seio, e fortificava a Igreja, ajun- 


. tando ao poder espiritual, que já 


20 MAQUIAVEL | 


lhe dá tanta autoridade, uma tão 
grande cópia de poder temporal. 
Cometido o primeiro erro, foi 
compelido a continuar prati- 
cando outros, a ponto de, para 
pôr termo à ambição de Alexan- 
dre, e para que este não se tor- 
nasse senhor da Toscana, ser 
obrigado a vir pessoalmente à 
Itália. Não lhe bastou fazer forte 
a Igreja e perder os próprios ami- 
gos; por querer o reino de Nápo- 
les, dividiu-o com o rei da Espa- 
nha”. E de árbitro da Itália como 
dantes, para aí levou um sócio ao 
qual os descontentes e ambicio- 
sos recorressem contra ele pró- 
prio. E, em vez de deixar naquele 
reino um rei que lhe fosse sujeito, 
tirou-o para colocar um que o 
podia expulsar dali. 

O desejo de conquistar é coisa 
verdadeiramente natural e ordi- 
nária e os homens que podem 


fazê-lo serão sempre louvados e' 


não censurados. Mas se não 
podem e querem fazê-lo, de qual- 
quer modo, é que estão em erro, e 
são merecedores de censura. Se a 
França tinha forças para assaltar 
Nápoles, devia fazê-lo; se não 
podia, não devia dividi-la. E se a 
divisão que fez da Lombardia 
com os venezianos mereceu ser 
desculpada, pois com ela pôs pê 


7 Yer no indice dos nomes citados o nome 
Fernando, o Católico. 


| 


na Itália, a divisão de Nápoles - 
merece censura, porque não tem 
a escusa da necessidade. | 
O Rei Luis cometera estes 
cinco erros: tinha abatido os 
menos poderosos, aumentado a 
potência de um poderoso na Itá- 
lia, trazido um estrangeiro pode- 
rosíssimo, não tinha vindo habi- 
tar a Itália e não mandou 
colônias para aí. Estes erros, em 


“vida sua, podiam não prejudicá- 


lo, se não tivesse cometido o 
sexto — o de se apoderar de 
territórios dos venezianos, pois, 
mesmo que não houvesse fortifi- 
cado a Igreja e não houvesse 
intrometido a Espanha nas coisas 
da Itália, era razoável diminui- 
los. Mas, tendo tomado essas 
deliberações, não devia o rei con- 
sentir na ruína deles, pois manti- . 
nham a distância os que queriam 
conquistar a Lombardia. E isso 
porque, enquanto os venezianos 
tivessem força, não teriam con- 
sentido em que outros senão eles 
próprios tivessem o domínio da 
província, e os outros não que- 
riam tirá-la da França para dá-la 
aos venezianos. E se alguém dis- 
sesse: o Rei Luís cedeu a Roma- 
nha a Alexandre e um reino à. 
Espanha, para evitar uma guerra 
— respondo que não se deve con- 
sentir em um mal para evitar 
uma guerra, pois não se evita esta 
e sim apenas se adia, para pró- 


O PRÍNCIPE, 21 


pria desvantagem. Se alguns ale- 
gassem a palavra que o rei deu ao 
papa de empreender aquela con- 
quista em troca da dissolução do 
seu matrimônio e do chapéu 
cardinalício ao arcebispo de 
Ruão, respondo mais adiante 
como, na minha opinião, se deve 


guardar a palavra dos príncipes. 


Assim pois, o Rei Luís perdeu a 
Lombardia por não haver obser- 
vado nenhum dos princípios ob- 
. servados pelos outros que con- 
quistaram províncias e as 
conservaram. Não é milagre isso, 
mas em Nantes, ao arcebispo de 
Ruãoº, quando Valentino 


8 Ver no índice dos nomes citados o nome de 
Amboise (d”). 


nome popular de César Borgia, 
filho do Papa Alexandre — ocu- 
pava a Romanha, dizendo-me ele 
que os italianos não entendiam 
de guerra, expliquei-lhe que os 
franceses não entendiam do Esta- 
do, pois se entendessem não te- 
riam consentido à Igreja tanta 
grandeza. E por experiência viu- 
se que a grandeza, na Itália, da 
Igreja e da Espanha, foi obra da 
França. E a ruína desta foi cau- 
sada por ambas. 

Conclui-se daí uma regra 
geral, que nunca ou muito rara- 
mente falha: quando alguém é 
causa do poder de outrem, arrui- 
na-se, pois aquele poder vem de 
astúcia ou força, e qualquer des- 
tas é suspeita ao novo poderoso. 


CAPÍTULO IV 


Por que razão o reino de Dario, ocupado 
por Alexandre, não se rebelou 
contra os sucessores deste 


Consideradas as dificuldades 
com que se há de contar para 
conservar um Estado recém-con- 
quistado, poderia parecer razão 
de espanto o fato de que, tendo 
Alexandre Magno ficado, em 
poucos anos; senhor da Ásia, € 
morrido logo depois de ocupar 
aqueles Estados, estes não se te- 
nham rebelado como seria razoá- 
vel. Os sucessores de Alexandre, 
contudo, se mantiveram e não 
tiveram para isso outra dificul- 
dade senão a que entre eles sur- 
giu da própria ambição. Replica- 
rei que os principados cuja 
memória se conserva foram go- 
vernados de dois modos diversos: 
ou por um príncipe ajudado por 
ministros que no governo não são 
senão servos que o exercem so- 
mente por graça .e concessão do 
senhor; ou por um príncipe e 
barões, os quais não por graça 


daquele, mas por antiguidade de 
sangue, têm essa qualidade. 

Estes barões possuem o domí- 
nio e súditos próprios, os quais 
os reconhecem como senhores e 
lhes votam natural afeição. Na- 
queles Estados que são governa- 
dos por um príncipe com seus 
servidores, o senhor tem mais 
autoridade, porque em toda a sua 
província não há quem seja reco- 
nhecido como superior a ele. E se 
obedecem a outrem, fazem-no 
por força dos cargos que exerce e 
não lhe dedicam a menor estima. 

Os exemplos destas duas espé- 
cies: de governo são, em nossos 
tempos — o grão-turco e o reina- 
do de França. O governo turco é 
exercido por um senhor que, divi- 
dindo o seu reino em sandjaks, 
dispõe de servidores que muda e 
desloca como bem lhe parece. O 
rei de França está colocado em 


24 MAQUIAVEL 


meio de uma multidão de senho- 
res cujo domínio é tradicional e 
que são, em seus distritos, reco- 
nhecidos e amados por seus súdi- 
tos. São poderosos e o rei não 
pode privá-los de suas regalias, 
sem grave perigo para ele pró- 
prio. Quem considera, pois, estas 
duas situações, encontrará difi- 
culdade em conquistar o Estado 
turco. Sem embargo, uma vez 
vencedor, ser-lhe-ã muito fácil 
.conservá-lo. A causa das dificul- 
dades de ocupá-lo está em que 
não é possível ser chamado por 
principes daquele reino, nem es- 
perar que se possa facilitar a 
empresa com a rebelião daqueles 


que lhes estão ao redor. E isso, 


em virtude das razões já aponta- 
das. É que, sendo todos escravos, 
mais dificilmente podem ser cor- 
rompidos, e, quando se corrom- 
pessem, poucas vantagens se po- 
deriam obter, uma vez que eles 
não poderiam arrastar a massa 
popular, o que se explica também 
pelas razões enunciadas. Con- 
clui-se daí que quem se puser em 
marcha contra a: Turquia precisa 
preocupar-se com o encontrá-la 
unida, convindo-lhe mais confiar 
nas próprias forças do que nas 
desordens dos outros. Mas, ven- 
cida e desorganizada na luta, de 
modo que não lhe fosse possível 


refazer os exércitos, não seria: 


necessário preocupar-se senão 


com o sangue do príncipe. Extin- 
to este, não restaria mais a quem 
temer, pois os outros não têm 
domínio sobre o povo. E, assim 
como o vencedor, antes da vitó- 
ria, nada podia esperar dele, não 
deve temê-lo depois da conquista. 

Acontece o contrário nos rei- 
nos governados como a França. 
É possível entrar-se com facili- 
dade, conseguindo aliança com 
algum barão do reino, pois sem- 


pre se encontram descontentes ou 
gente desejosa de fazer inova- 
ções. Tais elementos poderiam, 
pelos motivos expostos, abrir-te 
caminho naquele reino e facili- 
tar-te a. vitória. Mas, depois, para 
te manteres, aparecem inúmeras 
dificuldades criadas não só pelos 
que oprimiste, como também 
pelos que de início auxiliaram a 
tua empresa. Não é suficiente o 
sangue do príncipe. Permanecem 
aqueles senhores, barões podero- 


sos, que se tornam cabeças de 
novas rebeliões. E, não sendo 
possível nem contentá-los nem 


fazê-los desaparecer, perderás o 
Estado na primeira oportunidade 
que se lhes apresente. 


Agora, se se considerar a natu- 
reza do governo de Dario, encon- 
trar-se-à semelhança com a do 
sultão da Turquia. Se a Alexan- 
dre foi necessário desbaratar o 
inimigo em bloco, depois da vitó- 


O PRÍNCIPE 25 


ria, morto Dario, teve o Estado 
seguro, de acordo com as consi- 
derações que anteriormente ex- 
pendi. E os sucessores de Alexan- 
dre, se se houvessem mantido 
unidos, poderiam gozar ociosos 
aquele reino; não houve aí outros 


tumultos senão os que eles pró- 


prios suscitaram. Quanto aos 
Estados organizados como o da 
França, é impossível conquistá- 
los com tanta facilidade. Expli- 
cam-se dessa forma as frequentes 
rebeliões da Espanha, da França 
e da Grécia quando conquistadas 
pelos romanos. Existiam aí nu- 
- merosos principados, e enquanto 
perdurou a lembrança deles os 
romanos nunca puderam estar 
absolutamente seguros da posse; 
apagada, porém, a memória da- 
queles principados, em vista da 
potência e duração do império, 


surgiu a segurança completa dos 
possuidores. Conseguiram tam- 
bém os romanos, quando mais 
tarde lutaram entre si, arrastar 
parte daquelas províncias, segun- 
do a autoridade que cada um 
havia . conseguido impor. E as 
províncias, pela razão muito sim- 
ples de que fora extinto o sangue 
de seus antigos senhores, reco- 
nheciam apenas os romanos. 
Consideradas, pois, estas coisas 
todas, não se. espantará ninguém 
da facilidade que Alexandre teve 
em consolidar sua vitória na 
Ásia, e das dificuldades com que 


outros esbarraram para conser-' 


var os reinos conquistados, como 
aconteceu a Pirro. São contin- 
gências originadas não do valor 
ou do desvalor do vencedor, mas 
da diversidade dos povos venci- 
dos. 


” 


CAPÍTULO V 


Da maneira de conservar cidades ou principados que, 
antes da ocupação, se regiam por leis próprias 


Quando se conquistam Esta- 
dos habituados a reger-se por leis 
próprias e em liberdade, há três 
modos de manter-se a sua posse: 
primeiro — arruiná-los; segundo 
— 1r habitá-los; terceiro — dei- 
xá-los viver com suas leis, arreca- 


dando um tributo e criando um. 


governo de poucos, que se con- 
servem amigos. Tendo sido esse 
governo criado por aquele princi- 
pe, sabe que não poderá viver 
sem a sua amizade e o seu poder 
e, naturalmente, tudo fará para 
mantê-lo. Por intermédio dos 
seus próprios cidadãos, muito 
mais facilmente se conservará o 
governo duma cidade acostu- 
mada à liberdade, do que de 
qualquer outra forma. Sirva-nos 
de exemplo a história dos espar- 
tanos e dos romanos. Os primei- 
ros criaram em Atenas e Tebas 
um governo oligárquico: perde- 


y 


ram-nas novamente”. Os roma- 
nos, para manter-se na posse de 
Cápua, Cartago e Numância, 
destruíram-nas!º. E não as per- 
deram. Mas quiseram governar a 
Grécia como os espartanos, tor- 
nando-a livre e mantendo-lhe as 
suas leis. Não o conseguiram e 
foram obrigados a destruir mui- 
tas cidades para conservar-se no 
poder. É que, em verdade, não há 
garantia de posse mais segura do 
que a ruína. Quem se torna se- 
nhor de uma cidade tradicional- 
mente livre e não a destrói será 


º Esparta, para assegurar a sua hegemonia 
sobre os Estados da Grécia, teve de restaurar 
as oligarquias, isto é, alimentou as antigas fac- 
ções conservadoras. Assim, em Atenas (404 
a.C.), o partido reacionário conseguiu formar 
um governo provisório composto de trinta 
membros, o qual inaugurou o terror e era 
garantido pela ocupação militar espartana. 
Condições análogas aproximaram Tebas de 
Atenas, aliaram-se as duas. O exército espar- 
tano (378) voltou a Esparta, sem vitória. 

1º Episódio das guerras romanas. 


e | MAQUIAVEL 


destruido por ela. Tais cidades 
têm sempre por bandeira, nas 
rebeliões, a liberdade e suas anti- 
gas leis, que não esquecem 
nunca, nem com o correr do 
tempo, nem por influência dos 
benefícios recebidos. Por muito 
que se faça, quaisquer que sejam 
as precauções tomadas, se não se 
promovem o dissídio e a desagre- 
gação dos habitantes, não dei- 
xam eles de sé lembrar daqueles 
princípios e, em toda oportuni- 
dade, em qualquer situação, a 
eles recorrem, como fez Pisa, 
cem anos depois de estar sob o 
Jugo dos florentinos!!. Mas, 


11 No mesmo ano em que Carlos VIII inva- 
dia a península (1494), Pisa rebelava-se, os 
pisões lançaram ao Arno o “Marzocco” (o es- 
cudo da República). Durou a guerra entre Flo- 
rença e Pisa quinze anos, sendo por fim esta 
obrigada a render-se. Maquiavel teve papel 
importante nas negociações da paz. 


quando as cidades ou as provín- 
cias estão habituadas a viver sob 
o domínio de um príncipe, extinta 
a sua geração — como estejam 
acostumados a obedecer e, ao 
faltar-lhes o principe antigo, não 
atinem em eleger, entre eles mes- 
mos, um novo principe —, não 
sabem viver livres. São, assim, 
pouco afeitos a tomar das armas 
e, nessas coridições, com mais 
facilidade poder-se-á ganhar a es- 
tima do povo e assegurar-se sua 
fidelidade. Nas repúblicas, há 
mais vida, o ódio é mais podero- 
80, maior é o desejo de vingança. 
Não deixam nem podem deixar 
repousar a memória. da antiga 
liberdade. 

Assim, para conservar uma 
república conquistada, o cami- 
nho mais seguro é destruí-la ou 
habitá-la pessoalmente. | 


CaríTULO VI 
Dos principados novos que se conquistam pelas 
armas e-nobremente 


Não deve causar estranheza a 
ninguém o fato de eu citar longos 
exemplos, muitas vezes a respeito 
dos principes e dos Estados, 
durante a exposição que passo a 
fazer dos principados absoluta- 
mente novos. Os homens trilham 
quase sempre estradas já percor- 
ridas. Um homem prudente deve 
assim escolher os caminhos já 
percorridos pelos grandes ho- 


mens e imitá-los; assim, mesmo 


que não seja possivel seguir fiel- 
mente esse caminho, nem pela 
imitação alcançar totalmente as 
virtudes dos grandes, sempre se 
aproveita muita coisa. Deve pro- 
ceder como os seteiros prudentes 
que, querendo atingir um ponto 
muito distante, e conhecendo a 
capacidade do arco, fazem a 
mira em altura superior à do 


ponto visado. Não o fazem, evi- 


dentemente, para que a flecha 
atinja tal altura: valem-se da 
mira elevada apenas para ferir 


com segurança o lugar designado 
muito mais abaixo. 

Nos principados novos, gover- 
nados por príncipes novos, na 
luta pela conservação da posse, 
as dificuldades estão na razão di- 
reta da capacidade de quem os 
conguistou. E porque o fato de 
elevar-se alguém a príncipe pres- 
supõe valor ou boa sorte, eviden- 
temente qualquer destas razões 


tem a propriedade de mitigar 


muitas dificuldades. Todavia, é 
comum observar que muitos que 
foram menos afortunados se 
mantiveram mais tempo no 
poder. Traz muitas facilidades, 
ainda, o fato de o principe novo 
ser obrigado a habitar o Estado 
conquistado por não ter outros: 
domínios. E para exemplo dos - 
que foram príncipes pelo seu 
valor e não por boa sorte, .cito 
como maiores Moisés, Ciro, Rô- 
mulo; Teseu. E se bem que Moi- 
sés não deva ser mencionado por 


30 


ter sido um mero executor das or- 
dens de Deus, deve, contudo, ser 
admirado unicamente pela graça 
que o fazia digno de falar ao 
Criador. Consideremos, porém, 
Ciro e outros que adquiriram e 
fundaram reinos. Haveis de 
achá-los todos admiráveis. E se 
se considerarem os seus atos e or- 
dens particulares, eles não são 
discrepantes daqueles de Moisés, 
que teve tão alto preceptor. E 
examinando-lhes a vida e as 
ações, conclui-se que eles não 
receberam da fortuna mais do 
que a ocasião de poder amoldar 
as- coisas como melhor lhes 
aprouve. Sem aquela ocasião, 
suas qualidades pessoais se te- 
riam apagado, e sem essas virtu- 
des a ocasião lhes teria sido va. 
Portanto, era necessário a Moisés 
encontrar o povo de Israel, no 
Egito, escravizado e oprimido 
pelos egípcios, a fim de que, para 
se libertar da escravidão, 
dispusesse a segui-lo. Convinha 
que Rômulo não encontrasse re- 
fúgio em ' Alba e tivesse sido 
exposto ao nascer, para que se 
tornasse rei de Roma e fundador 
de uma pátria. 

Era necessário que Ciro en- 
contrasse os persas descontentes 
do império dos medas e os medas 
muito efeminados e amolecidos 
por uma longa paz. Teseu não 
teria podido revelar suas virtudes 
se não tivesse encontrado os ate- 


Se 
! 


MAQUIAVEL 


nienses dispersos. Tais oportuni- 
dades, portanto, tornaram felizes 
a esses homens; e foram as suas 
virtudes que lhes deram o conhe- 
cimento daquelas oportunidades. 
Graças a isso, a sua pátria sé 
honrou e se tornou feliz. 

Aqueles que, por suas virtudes, 
semelhantemente a estes, se tor- 
nam príncipes, conquistam o 
principado com dificuldade, mas 
se mantêm facilmente. As dificul- 
dades que encontram na con- 
quista do principado nascem, em 
parte, da nova ordem legal e cos- 
tumes que são forçados a intro- 
duzir para a fundação do seu Es- 
tado e da sua própria segurança. 
Deve-se considerar aqui que não 
há coisa mais difícil, nem de 
êxito mais duvidoso, nem mais , 
perigosa, do que o estabeleci- . 
mento de novas leis. O novo” 
legislador terá por inimigos todos 
aqueles a quem as leis antigas 


beneficiavam, e terá timidos de- 
fensores nos que forem benefi- 
ciados pelo novo estado de coi- 


sas. Essa fraqueza nasce parte do 
medo. dos adversários, parte da 
incredulidade dos homens, que 
não acreditam na verdade das 
coisas novas senão depois de 
uma firme experiência. Daí resul- 
ta que os adversários, quando 
têm ocasião de assaltar, o fazem 
fervorosamente, como sectários, 


e os outros o defendem sem entu- 


O PRÍNCIPE ça 31 


siasmo e periclita a defesa do 
príncipe. 

É necessário, pois, querendo 
expor bem claramente esta parte, 
examinar se esses inovadores 
agem por si próprios, firme- 
mente, ou se dependem de ou- 
trem, isto é, se para conduzir sua 
obra precisam de rogar ou se, 
verdadeiramente, podem forçar. 
No primeiro caso, são sempre 
mal sucedidos e não conseguem 
coisa alguma. Mas, quando não 
dependem de ninguém, contam 
apenas consigo mesmos e podem 
forçar, raramente deixam de al- 
cançar êxito. Destarte todos os 
profetas armados venceram e os 
desarmados fracassaram. Por- 
que, além do que já se disse, a 
natureza dos povos é vária, sendo 
fácil persuadi-los de uma coisa, 
mas sendo dificil firmá-los na 
persuasão. Convém, pois, provi- 
denciar para que, quando não 
acreditarem mais, se possa fazê- 
los crer à força. Moisés, Ciro, 
Teseu e Rômulo não teriam con- 
seguido fazer observar por muito 
tempo suas constituições se esti- 
vessem desarmados. É o que, nos 
tempos que correm, aconteceu a 
Frei Girolamo Savonarola, o 
qual fracassou na. sua tentativa 
de reforma quando o povo come- 
çou a não lhe dar crédito. E ele 
não tinha meios para manter fir- 
mes aqueles que haviam acredi- 
tado, nem para fazer com que os 


rão de 


incrédulos acreditassem. Pessoas 
nessas condições lutam com 
grandes dificuldades para condu- 
zir-se, estando no seu caminho 
todos os perigos que só pela 
coragem podem ser superados. 
Vencidas as dificuldades, come- 
çam a ser venerados, e, extermi- 
nados os que invejavam suas 
qualidades, tornam-se potentes, 
seguros, honrados, felizes. A tão 
altos exemplos quero juntar 


outro menor, mas que tem rela- 
ção com aqueles e bastará para 
todos os semelhantes. É o de Hie- 


- Siracusa. Tornando-se 
de Siracusa, está entre 
da sorte, não tiveram 


mais do que a ocasião. Estando 
OS siracusanos oprimidos, elege- 
ram-no para seu capitão. Nesse 
posto mereceu tornar-se príncipe. 
E foi de tanta virtude, mesmo na 
vida privada, que dele se disse: 
“quod nihil illi deerat regnandum 
praeter regnum!? ”. 

Extinguiu a antiga milícia, or- 
ganizou a nova, deixou as amiza- 
des antigas, conquistou outras, e, 
como tivesse amizades e solda- 
dos seus, pôde, sobre tais alicer- 
ces, edificar as obras que quis, 
tanto que teve muito trabalho 
para conquistar, mas pouco para 
manter-se. 


principe 
os que, 


12 “Que não lhe faltava para ser rei senão um 
remo.” 


.CapíTuLO VII 


Dos principados novos que se conquistam com armas 
e virtudes de outrem | 


Aqueles que somente por for- 
tuna se tornam príncipes pouco 
trabalho têm para isso, é claro, 
mas se mantêm muito penosa- 
mente. Não têm nenhuma dificul- 
dade em alcançar o posto, porque 
para aí voam; surge, porêm, toda 
sorte de dificuldades depois da 
chegada. É o que acontece quan- 
do o Estado foi concedido ao 
principe, ou por dinheiro, ou por 
graça de quem o concede. Assim 
foi na Grécia, nas cidades da 
Jônia e do Hejesponto, onde 
houve príncipes feitos por Dario 
para manterem sua glória e segu- 
rança. É ainda como se faziam 


aqueles imperadores que, de sim- 


ples cidadãos, subiam ao trono 
pela corrupção dos soldados. 


Tais príncipes estão na depen- 
dência exclusiva da vontade e 
boa fortuna de quem lhes conce- 
deu o Estado, isto é, de duas coi- 
sas extremamente volúveis e ins- 
táveis. E não sabem -ou não 


podem manter o principado: não 
sabem porque; se não são ho- 
mens de grande engenho e virtu- 
de, não é razoável que, tendo vi- 
vido sempre em condições 
diferentes, saibam comandar; 
não podem, porque não contam 
com forças que lhes sejam ami- 


“gas e fiéis. Além disso, os Esta- 


dos que surgem de súbito, como 
todas as outras coisas da natu- 
reza que se desenvolvem muito 
depressa, não podem ter raizes 
ou membros proporcionados, e, 
ao primeiro golpe da adversi- 
dade, aniquilam-se; a não ser que 
aqueles príncipes, como já se 
disse, saibam preparar-se para 
conservar aquilo que a sorte lhes 
pôs no regaço, e estabeleçam 
solidamente as bases fundadas 
anteriormente por outros. 

Destes dois meios de se tornar 
príncipe — pelo valor ou pela 
fortuna — quero apresentar dois 
exemplos atuais: Francesco Sfor- 


34 MAQUIAVEL 


za e César Bórgia. Francesco, 
pelos meios devidos, e por grande 
valor, de simples particular se 
tornou duque de Milão e pôde 
manter facilmente aquilo que 
havia conquistado à custa de afa- 
nosos trabalhos. Por outro lado, 
César Bórgia, chamado pelo 
povo Duque Valentino, adquiriu 
o Estado com a fortuna do pai e 
sem esta o perdeu, não obstante 
houvesse feito tudo quanto devia 
fazer um homem prudente e valo- 
roso a fim de que criasse raizes 
nos Estados que as armas € a for- 
tuna de outrem lhe haviam con- 
cedido. 

É que, como já disse acima, 
quem não prepara as bases antes, 
poderá fazer depois esse traba- 
lho, se tem grande capacidade, 
anda que com aborrecimento 
para o arquiteto e perigo para o 
edifício. Se se considerarem, 
então, todos os progressos do 
duque, ver-se-ã que ele traçou 
grandes alicerces para a sua futu- 
ra potência. Não julgo que seja 
supérfluo discorrer a respeito, 
porque eu não saberia regras 
melhores para oferecer a um 
principe novo do que o exemplo 
das ações do duque. E se seu 
modo de agir não lhe aproveitou 
não foi sua culpa e sim por força 
de extremos reveses da sorte. 
Alexandre VI encontrou grandes 
dificuldades imediatas e remotas 


para o engrandecimento do filho. 
Primeiro, não encontrava meio 
de poder torná-lo senhor de 
algum Estado que não fosse Esta- 
do da Igreja, e sabia que, se ten- 
tasse apoderar-se de um destes, o 
duque de Milão e os venezianos 
não lho consentiriam, uma vez 
que Faenza e Rimini estavam já 
sob a proteção dos venezianos. 
Via, além disso, as tropas da Itá- 
lia e especialmente aquelas de 
que se teria podido servir estarem 
em mãos de quem devia temer a 
grandeza do papa; e nelas não 
podia fiar-se, pertencendo todas 
aos Orsini e Colonna e seus 
partidários. Era necessário, por- 
tanto, que se perturbasse aquela 
ordem e fossem desorganizados 
os Estados destes para se tornar 
possível a conquista de um deles. 
Isto não lhe foi dificil, pois os 
venezianos, movidos por outras 
razões, se decidiram a facilitar a 
volta dos franceses à Itália, a que 
não fez oposição, e até tornou 
mais fácil com a dissolução do 
primeiro matrimônio do Rei 
Luís. O rei entrou, portanto, na 
Itália com o auxílio dos venezia- 
nos e consentimento de Alexan- 
dre. Logo que o rei chegou a 
Milão, o papa teve tropa para a 
conquista da Romanha, empresa 
tornada possível só pela fama do 
rei. Tendo o duque conquistado a 
Romanha e batido os Colonna, 


O PRÍNCIPE 35 


querendo manter aquela e prosse- 
guir, encontrava dois impedimen- 
tos: um, as suas tropas que não 
lhe pareciam fiéis, e o outro, a 
vontade da França. Temia o 
duque lhe faltassem as tropas dos 
Orsini, das quais se valera, e não 
só o impedissem de conquistar 
como lhe arrancassem a terra já 
conquistada, e, além disso, que o 
rei não lhe fizesse o mesmo. Dos 
Orsini confirmaram-se as suas 
suspeitas quando, depois de ter 
entrado em Faenza, assaltou Bo- 
lonha, e notou a sua frieza naque- 
le assalto. Relativamente as in- 
tenções do rei, conheceu-as 
quando, conquistado o ducado de 
Urbino, assaltou a Toscana: o rei 
fez com que desistisse dessa 
empresa. Por isso o duque delibe- 
rou não depender mais das armas 
e fortuna de outrem. E a primeira 
coisa que fez foi enfraquecer as 
facções dos Orsini e Colonna em 
Roma. De todos os aderentes 
destes, que fossem gentis-ho- 
mens, procurou o apoio, tornan- 
do-os gentis-homens seus e lhes 
dando grandes pensões em di 
nheiro, e honrou-os, - segundo 
suas qualidades, com postos de 
comando e de governo, de modo 
que, em poucos meses, a afeição 
que nutriam pelos partidos se 
extinguiu totalmente, passando 
toda para o duque. Depois, espe- 
rou a ocasião de extinguir os che- 


fes dos Orsini, estando já disper- 
sos os da casa de Colonna. Não 
tardou a se apresentar tal oportu- 
nidade e o duque soube bem 
aproveitar-se dela. Com efeito, os 
Orsini, tendo-se apercebido tarde 
demais que o poder do duque e o 
da Igreja trariam a sua ruína, 
realizaram um conselho em Ma- 
gione, no Perugino. Daí surgiram 
a rebelião de Urbino e os tumul- 
tos da Romanha, com inúmeros 
perigos para o duque, que a todos 
superou com o auxilio dos fran- 
ceses. Tendo readquirido com 
isso sua reputação, e não se fian- 
do mais da França nem de outros 
agentes externos, para não ter de 
acrescer-lhes as forças, recorreu 
à astúcia. E tão bem soube dissi- 
mular as suas intenções que os 
Orsini se reconciliaram com ele, 
por intermédio do Signor Pago- 
lo'%. Para assegurar-se melhor 
deste, o duque não omitiu nenhu- 
ma prova de amizade, dando-lhe 
dinheiro, roupas < cavalos; 'tanto 
assim que a ingenuidade dos Or- 
sini levou-os a Sinigaglia, à dis- 
crição do-duque. Extintos, pois 
esses chefes, e reduzidos os seus 
correligionários a amigos do 
duque, havia este conseguido 
muito bons alicerces para o seu 
poder, conquistando toda a Ro- 


13 Ver no indice dos nomes citados o nome 
Orsini. 


JE MAQUIAVEL 


manha com o ducado de Urbino, 


parecendo-lhe, além disso, ter 
ganho a amizade da Romanha e 
todos aqueles povós, que haviam 
começado a gozar de prosperi- 
dade. | 
Como esta parte da ação do 
- duque é digna de registro e de 
imitação, não quero silenciar a 
respeito. Logo que se apoderou 
da Romanha, tendo-a encon- 
trado, em geral, sujeita a fracos 
senhores, que mais espoliavam 
do que governavam os seus súdi- 
tos, dando-lhes apenas motivo de 
desunião (tanto que aquela pro- 
víncia estava cheia de latrocínios, 
de tumultos e. de toda sorte de 
violências), julgou o duque que 
era necessário, para torná-la pa- 
ciífica e obediente ao braço régio, 
dar-lhe bom governo. E ali colo- 
cou, então, Ramiro de Orco, 
homem cruel e expedito, ao qual 
outorgou plenos poderes; Este, 
em pouco tempo, conseguiu fazer 
com que a Romanha se tornasse 
pacífica e unida, tendo alcançado 
ele mesmo grande reputação. O 
duque julgou depois que já não 
era necessária tanta autoridade, 
pois temia que se tornasse odio- 
sa. E constituiu um juizo civil no 
centro da província, com um pre- 
sidente ilustre e benquisto, e onde 
cada cidade estava representada. 
Sabendo que os rigores passados 
haviam criado ódios contra ele 


próprio, para apagá-los do ânimo 
daqueles povos e conquistá-los a 
todos, definitivamente, em tudo, 
quis demonstrar que, se haviam 
sido cometidas crueldades, não 
procediam dele e sim da dureza 
de caráter do ministro. E, em 
vista disso, tendo ocasião, man- 
dou exibillo certa manhã, em 
Cesena, em praça pública, corta- 
do em dois pedaços, tendo ao 
lado um pedaço de pau e uma 
faca ensangúentada. A feroci- 
dade desse espetáculo fez com 
que o povo ficasse a um tempo 
satisfeito e espantado. 

Voltemos, porém, ao ponto de 
partida. Encontrando-se o duque 
bastante poderoso e a coberto, 
em parte, de perigos presentes, 
por já terem tropas suas extin- 
guido em grande parte as forças 
vizinhas que o poderiam incomo- 
dar, restava-lhe, querendo prosse- 
guir nas conquistas, o temor ao 
rei da França. Sábia que os seus 
progressos não seriam suporta- 
dos pelo rei, o qual se apercebera 
tarde do seu erro. Começou, por 
isso, a procurar amizades novas € 
a tergiversar com a França, na 
incursão que os franceses leva- 
ram a efeito no reino de Nápoles 
contra os espanhóis que assedia- 
vam Gaeta. Queria assegurar-se 
contra a França, o que lhe teria 
sido fácil conseguir se Alexandre 
vivesse. Esta foi a sua política 


O PRÍNCIPE 


quanto às coisas presentes. Mas, 
-com relação ao futuro, tinha a 
temer, primeiro, que o novo papa 
lhe fosse hostil e procurasse 
tirar-lhe o que. Alexandre lhe 
dera. Pensou agir de quatro 
modos: primeiro — extinguir a 
linha de todos aqueles senhores 
que despojara, para evitar protes- 
tos de intervenção do papa; se- 
gundo — conquistar todos os 
gentis-homens de Roma, como 
foi dito, para poder, com seu 
auxílio, enfrentar o papa; terceiro 
— aumentar o mais possível a 
própria influência no Sacro Colé- 
gio; quarto conquistar a 
maior soma de poder antes da 
morte do papa, a fim de poder 
resistir por si mesmo a um Ppri- 
meiro ataque. Dessas quatro coi- 
sas, já realizara três, por ocasião 
da morte de Alexandre. A quarta 
estava quase terminada. Dos se- 
nhores espoliados matou quantos 
pôde alcançar, e foram pouquis- 
simos os que se salvaram; havia 
alcançado o apoio dos gentis-ho- 
mens romanos e, no Sacro Colé- 
gio, tinha formado um grande 
partido. Quanto à nova conquis- 
ta, havia designado tornar-se se- 
nhor da Toscana e já possuia 
Perúgia e Piombino e tomara a si 
a proteção de Pisa. E logo que 
não o preocupasse mais o temor 
da França (por terem sido já 
expulsos os franceses do reino de 


37. 


- Nápoles pelos espanhóis, de 
modo que a ambos era necessário 
procurar sua amizade), o duque 
se precipitaria sobre Pisa. Depois 
disso, Luca e Siena cederiam 
logo, em parte movidas pelo ódio 
aos florentinos, em parte pelo 
medo. Os florentinos, então, não 
teriam recurso algum. Se tivesse 
conseguido isso (o que se daria 
no ano mesmo em que Alexandre 
morreu), conquistava o duque 
tanta força e reputação que por si 
mesmo se teria mantido e não 
dependeria mais da fortuna e da 
força de outrem e sim da sua pró- 
pria força e capacidade. Mas 
Alexandre morreu cinco anos de- 
pois que César desembainhara a 
espada. Deixou-o apenas com o 
Estado: da Romanha consoli- 
dado, e todos os outros no ar, sob 
a pressão de dois poderosíssimos 
exércitos inimigos, e doente de 
morte. Havia, porém, no duque 
tão grande energia e valor, bem 
sabendo ele que os homens se 
conquistam ou se exterminam, € 
eram tão sólidos os alicerces 
construídos para o seu poderio, 
que, se não fora a pressão daque- 
les exércitos, ou se ele estivesse 
são, teria vencido qualquer difi- 
culdade. De que as bases que pre- 
parara eram boas teve as provas: 
a Romanha esperou-o fielmente 
mais de um mês; em Roma, 


ainda que meio morto, esteve a 


38 MAQUIAVEL 


salvo; e se bem que os Baglioni,. 


os Vitell e os Orsini para aí 
tivessem acorrido, não puderam 
organizar partido contra ele; e se 
não póde fazer com que fosse 
eleito papa'um partidário seu, 
pôde pelo menos impedir que o 
fosse um inimigo. Se não esti- 
vesse doente quando Alexandre 
morreu, tudo lhe teria sido fácil. 
Disse-me ele, quando da eleição 
de Júlio II, que pensara em tudo 
que podia acontecer com a morte 
do pai e para tudo encontrara 
remédio. Só não previra, naquela 
ocasião, que ele próprio estivesse 
para morrer. 

"Nas ações do duque, das quais 
escolhi as que expus acima, não 
encontro motivo de censura; pa- 
rece-me, pelo contrário, que se 
deve propó-lo como exemplo a 
todos os que por fortuna e com 
as armas de outrem ascendérem 
ao poder. Pois, sendo ele de 
ânimo forte e de alta ambição, 
não podia governar de outra 
forma. Aos seus desígnios se 
opuseram apenas a brevidade da 
vida de Alexandre e a sua própria 
moléstia. Portanto, se julgas ne- 
cessário, num principado novo, 
assegurar-te contra os inimigos, 
conquistar amigos, vencer ou 
pela força ou pela astúcia, fazer- 
te amado e temido do povo, ser 
seguido e respeitado pelos solda- 
dos, extinguir os que podem ou 


devem ofender, renovar as anti- 
gas instituições por novas leis, 
ser severo € grato, magnânimo e 
liberal, dissolver a milícia infiel, 
criar uma nova, manter amizades 
dos reis e dos príncipes, de modo 
que te sejam solícitos no benefi- 
cio e tementes de ofender-te, repi- 
to que não encontrarás melhores 
exemplos que nas ações do 
duque. Só é possivel acusá-lo 
quanto à criação de Júlio ponti- 
fice, a qual escolha foi má, pois, 
como se disse, não podendo fazer 
papa a quem queria, podia evitar 
que o fosse quem não quisesse. 
Não deveria ele ter consentido ja- 
mais no papado de um dos car- 
deais a quem tivesse ofendido ou 
que, feito pontífice, tivesse de 
temê-lo. Pois os homens ofendem 
ou por medo ou por ódio. Aqué- 
les a quem ele ofendera eram, 
entre outros, os cardeais de San 
Pietro ad Vincula, Colonna, San 
Giorgio, Ascânio!*. Todos os 
outros, se se tornassem papas, ti- 
nham por que temê-lo, exceto o 
de Ruão e os espanhóis; estes por 
força de aliança e obrigação, 
aquele pela força do rei de Fran- 
ça. O duque devia, portanto, 
fazer com que fosse eleito papa 
um espanhol; não o podendo, 
devia consentir em que o papa 


14 Ver no índice dos nomes citados os nomes 
Júlio II, Colonna (Giovanni), Riario di Savona 
(Raffaele) e Sforza (Ascânio). 


k 


O PRÍNCIPE 39 


fosse o cardeal de Ruão e não de 
San Pietro ad Vincula. Engana-se 
quem acreditar que nas grandes 
personagens os novos benefícios 


fazem esquecer as antigas injú- 
rias. O duque errou, pois, nessa 
eleição, e foi ele mesmo o causa- 
dor de sua ruína definitiva. 


CapíruLO VIII 


Dos que alcançaram o principado pelo crime 


Hã duas maneiras de tornar-se 
príncipe e que não se podem atri- 
buir totalmente à fortuna ou ao 
mérito. Não me parece bem, por- 
tanto, deixar de falar nestes 
casos, se bem que deles se pudes- 
se falar mais detidamente onde se 
trata das repúblicas. Estas ma- 
neiras são: chegar ao principado 
pela maldade, por vias celeradas, 
contrárias a todas as leis huma- 
nas e divinas; e tornar-se príncipe 
por mercê do favor de seus 
conterrâneos. Para nos referir- 
mos ao primeiro destes modos, 
apresentarei dois exemplos, um 
antigo e outro moderno, sem 
entrar, contudo, no mérito desta 
parte, pois julgo que bastaria a 
alguém imitá-los se estivesse em 
condição de devê-lo fazer. 

Agátocles Siciliano tornou-se 
rei de Siracusa, sendo não só de 
impura mas também de condição 
abjeta. Filho de um oleiro, teve 
sempre vida criminosa na sua 
mocidade. Acompanhava as suas 


maldades de tanto vigor de 
ânimo e de corpo que, ingres- 
sando na milícia, chegou a ser 
pretor de Siracusa, por força 
daquela maldade. Neste posto, 
deliberou tornar-se príncipe e 
manter, pela violência e sem 
favor de outros, aquele poder que 
lhe fora concedido por acordo 
entre todos. 

Acerca deste seu desígnio, en- 
tendeu-se com Amilcar, cartagi- 
nês, que estava com seus exérci- 
tos na Sicília, e, certa manha, 
reuniu o povo e o Senado de Sira- 
cusa, como se ele tivesse de 
consultá-lo sobre os negócios pú- 
blicos. E a um sinal combinado 
fez que seus soldados matassem 
todos os senadores e os homens 
mais ricos da cidade. Mortos 
estes, apoderou-se do governo 
daquela cidade e o conservou 
sem nenhuma hostilidade por 
parte dos cidadãos. E apesar de 
os cartagineses haverem rompido 
com ele duas vezes e, por fim, 


42 MAQUIAVEL 


assediado a cidade, pôde não só 
defendê-la, como, deixando parte 
de sua gente para garanti-la con- 
tra os inimigos, com outra parte 
assaltou a África; em breve 
tempo libertou Siracusa do assé- 
dio e reduziu os cartagineses a 
uma condição miserável. Foram 
estes coagidos a entrar em acor- 
do com Agátocles, deixando-lhe 
a Sicília e contentando-se com a 
posse da África. Consideradas, 
pois, suas ações e méritos, não se 
encontrará coisa, ou, senão, 
muito pouca, que se possa atri- 
buir à fortuna. Como acima se 
disse, não por favor de quem 
quer que fosse, mas passando por 
todos os postos conquistados na 
milícia através de inúmeros dis- 
sabores e perigos é que alcançou 
o principado que manteve depois, 
à força de tantas decisões auda- 
zes e chejas-de perigo. Ainda que 
não. se possa considerar ação 
meritória a matança de seus 
concidadãos, trair os amigos, não 
ter fé, não ter piedade nem reli- 
gião, com isso pode-se conquistar 
o mando, mas não a glória: Mas, 
considerada a habilidade de Agá- 
tocles no entrar e sair dos peri- 
gos, e sua fortaleza de ânimo no 
suportar € superar as coisas ad- 
versas, não há por que se deva 
jJulgá-lo inferior a qualquer dos 
mais ilustres capitães. Todavia, a 
sua bárbara crueldade e desuma- 


nidade e os seus inúmeros crimes 
não permitem seja celebrado 
entre os mais ilustres homens da 
História. Não se pode, pois, atri- 
buir à fortuna ou ao valor aquilo 
que ele conseguiu sem uma e sem 
outro. 

Em nossos tempos, sob o rei- 
nado de Alexandre VI, Oliverotto 
da Fermo, que ficara órfão al- 
guns anos antes, fora criado por 
um tio materno, chamado Gio- 
vanni Fogliani. Nos primeiros 
tempos de sua juventude, dedi- 
cou-se à vida militar, sob a dire- 
ção de Paulo Vitelli, a fim de que, 
afeito aquela disciplina, alcan- 
çasse algum alto posto na mili- 
cia. Morto Paulo, esteve sob o 
comando de Vitellozzo, seu 
irmão. E dentro de pouco tempo, 
como fosse engenhoso, forte e 
valoroso, tornou-se o primeiro 
homem de sua corporação. Pare- 
ceu-lhe, porém, coisa abjeta con- 
tinuar a servir com outros, e, 
auxiliado por alguns cidadãos de 
Fermo, que preferiram a servidão 
à liberdade de sua pátria, e com a 
ajuda de Vitellozzo, quis ocupar 
aquela cidade. E escreveu a Gio- 
vanni Fogliani dizendo que, 
como estivera muitos anos fora 
de casa, desejava ir visitá-lo.e à 
sua cidade para conhecer o seu 
patrimônio; e como não traba- 
lhara. senão para conseguir hon- 
ras, a fim de que seus concida- 


O PRÍNCIPE 43 


dãos vissem que não perdera o 
tempo em vão, queria ir em gran- 
de pompa e acompanhado de 
cem cavaleiros seus amigos e 
servidores. Rogava ao tio que se 
servisse de ordenar aos cidadãos 
de Fermo que o recebessem com 
homenagens; isso representaria 
uma honra para o tio que o tinha 
educado. Giovanni não deixou de 
atender na menor coisa ao seu 
sobrinho. Fê-lo receber com 
grandes festas, alojou-o e à sua 
comitiva na própria casa. Passa- 
dos alguns dias, estando tudo 
pronto para que ordenasse o 
necessário à sua futura perfídia, 
organizou um banquete solenis- 
simo, para o qual convidou Gio- 
vanni Fogliani e todos os homens 
de maior destaque da cidade de 
Fermo. Terminado o banquete e 
os divertimentos da praxe, Olive- 
rotto, propositadamente, encetou 
uma conversa a respeito de as- 
suntos graves, da grandeza do 
Papa Alexandre e de César, seu 
filho, e dos seus empreendi- 
mentos. 

Tendo Giovanni e os outros 
expendido também considerações 
a respeito, ele, a um dado mo- 
mento, levantou-se e disse que 
aquilo era coisa que se devia dis- 
cutir em lugar mais reservado, 
dirigindo-se a seguir para um 
aposento ao lado. Todos os ou- 
tros o seguiram. Logo que se 


assentaram, saíram de esconde- 
rjos soldados que mataram Gio- 
vanni e todos os outros. Depois 
desse homicídio coletivo, Olive-. 
rotto montou a cavalo e percor- 
reu a cidade e assediou o supre- 
mo magistrado em seu palácio. 
Aterrorizados, foram obrigados a 
obedecê-lo e a formar um gover- 
no do qual ele era o chefe. E, 
mortos todos os que por descon- 
tentes poderiam prejudicá-lo, re- 
forçou-se por novas leis civis e 
militares, de modo que, durante o 
ano em que governou a proviín- 
cia, não só conseguira assegu- 
rar-se da cidade de Fermo, mas 
também tornar-se temido por 
todos os seus vizinhos. E seria 
difícil tomar-lhe a cidade, como 
aconteceu com Agatocles, se não 
se tivesse deixado enganar por 
César Bórgia, quando este, em 
Sinigaglia, como: se disse antes, 
aprisionou os Orsini e os Vitelli. 
Assim, um ano depois de haver 
cometido o parricídio, foi estran- 
gulado juntamente com Vitel- 
lozzo, que fora o mestre de suas 
virtudes e ignomínias. 

Poderia alguém surpreender-se 
pelo fato de que Agátocles e 
semelhantes, depois de tantas 
traições e crueldades, pudessem 
viver tranquilamente e a salvo em 
sua pátria, e defender-se dos ini- 
migos externos e de que os cida- 
dãos não conspirassem contra 


44 


eles considerando-se tanto 
mais que muitos outros não pu- 
deram, por. sua crueldade, con- 
servar o mando, nem nos tempos 


n 


de paz, nem nos tempos duvido-. 


sos de guerra. Creio que isto seja 
consequência de serem as cruel- 
dades mal ou bem praticadas. 
Bem usadas se podem chamar 
aquelas (se é que se pode dizer 


bem do mal) que são feitas, de. 


uma só vez, pela necessidade de 
prover alguém à própria seguran- 
ça, e depois são postas à mar- 
gem, transformando-se o mais 
possível em vantagem para os sú- 
ditos. Mal usadas são as que, 
ainda que a princípio sejam pou- 
cas, em vez de extinguirem-se, 
crescem com o tempo. Os que 
observam a primeira destas li- 


nhas de conduta podem, com a. 


ajuda de Deus'e dos homens, 
encontrar remédio às suas conse- 
quências, como aconteceu com 
Agátocles. Aos outros é impos- 
sível manter-sé. É de notar-se, 
aqui, que, ao -apoderar-se dum 
Estado, o conquistador deve de- 
terminar as injúrias que precisa 


MAQUIAVEL 


levar a efeito, e executá-las todas 
de uma só vez, para não ter que 
renová-las dia a dia. Deste modo, 
poderá incutir confiança nos ho- 
mens e conquistar-lhes o apoio 
beneficiando-os. Quem age por 
outra forma, ou por timidez ou 
por força de maus conselhos, tem 
sempre necessidade de estar com 
a faca na mão e não poderá 
nunca confiar em seus súditos, 
porque estes, por sua vez, não se 
podem fiar nele, mercê das suas 
recentes e contínuas injúrias. As 
injúrias devem ser feitas todas de 
uma vez, a fim de que, tomando- 
se-lhes menos o gosto, ofendam 
menos. E os benefícios devem ser 
realizados pouco a pouco, para 
que sejam mais bem saboreados. 
Sobretudo, um príncipe deve 
viver com seus súditos de modo 
que nenhum acidente, bom ou 
mau; o faça variar, porque, 
vindo, com tempos adversos, as 
necessidades, não terás tempo de 
fazer o mal; e o bem que fazes 
não te beneficia, pois julga-se for- 
çado, e ninguém te agradecerá a 
sua prática. à 


CAPÍTULO IX 


Do principado civil 


Mas, analisando outro caso, 
quando um cidadão, não por 
suas crueldades ou outra qual- 
quer intolerável violência, e sim 
pelo favor dos concidadãos, se 
torna príncipe de sua pátria — o 


que se pode chamar principado 


civil (e para chegar a isso não é 
necessário grandes méritos nem 
muita sorte, mas antes uma astú- 
cia feliz), digo que se chega a esse 
principado ou pelo favor do povo 
ou pelo favor dos poderosos. É 
que em todas as cidades se 
encontram estas duas tendências 
diversas e isto nasce do fato de 
que o povo não deseja ser gover- 
nado nem oprimido pelos gran- 
des, e estes desejam governar e 
oprimir o povo. Destes dois ape- 
tites diferentes nasce nas cidades 
um destes três efeitos: princi- 
pado, liberdade, desordem. 

O principado é estabelecido 
pelo povo ou pelos grandes, se- 
gundo a oportunidade que tiver 
uma destas partes; percebendo os 


grandes que não podem resistir 
ao povo, começam a dar reputa- 
ção a um dos seus elementos e o 
fazem principe, para poder, sob 
sua sombra, satisfazer seus apeti- 
tes. O povo também, vendo que 
não pode resistir aos grandes, dá 
reputação a um cidadão e o elege 
principe para estar defendido 
com a sua autoridade. O que 
ascende ao principado com a 
ajuda dos poderosos se mantém 
com mais dificuldade do que 
aquele que é eleito pelo próprio 
povo; encontra-se aquele. com 
muita gente ao redor, que lhe pa- 
rece sua igual, e por isso não a 
pode comandar nem manejar 
como entender. Mas o que alcan- 
ça o principado pelo favor popu- 
lar encontra-se sozinho e, ao 
redor, ou não tem ninguém, ou 
muito poucos que não estejam 
preparados para obedecê-lo. 
Além disso, não se pode honesta- 
mente satisfazer aos grandes sem 
injúria para os outros, mas O 


46 MAQUIAVEL 


povo pode ser satisfeito. Porque 
o objetivo do povo é mais hones- 
to do que o dos poderosos; estes 
querem oprimir e aquele não ser 
oprimido. Contra a hostilidade 
do povo o príncipe não se pode 
assegurar nunca, porque são mui- 
tos; com relação aos grandes, é 
possível porque são poucos. O 
pior que um principe pode espe- 
rar do povo hostil é ser abando- 
nado por ele. Mas, da inimizade 
dos grandes, não deve temer só 
que o abandonem, como também 
que o ataquem, pois têm estes 
maior alcance de vistas e maior 
astúcia, e têm sempre tempo de 
salvar-se, procurando  aproxi- 
mar-se dos prováveis vitoriosos. 
Precisa ainda o principe de viver 
sempre com o povo, mas pode 
prescindir perfeitamente dos 
grandes, pois pode fazer e desfa- 
zer, cada dia, e dar-lhes ou 
fazer-lhes perder influência, à sua 
vontade. 

E, para esclarecer melhor esta 
parte, direi dos dois grupos prin- 
cipais em que se podem classi- 
ficar os grandes: os que proce- 
dem de tal modo que se ligam em 
tudo à tua fortuna, ou os que 
agem diversamente. Aqueles que 
se obrigam para contigo e não 
são rapaces devem ser respei- 
tados e amados. Os que não se 
obrigam daquela forma devem 


ser examinados sob dois aspec-: 


tos; se agem assim por pusilani- 
midade e defeito natural de cará- 
ter, deverás servir-te deles, 
especialmente se podem dar-te 
bons conselhos, porque em tem- 
pos felizes isso te honrará e nos 
adversos nada terás que temer. 
Mas, quando não se obrigam 
para contigo, deliberadamente e 
pór ambição, é sinal de que pen- 
sam mais em si próprios do que 
em ti. O príncipe deve, então, 
manter-se em guarda e temê-los 
como se fossem inimigos desco- 
bertos, porque sempre, na adver- 
sidade, ajudarão a arruinar-te. 
Quem se torna príncipe me- 
diante o favor do povo deve man- 
ter-se seu amigo, o que é muito 
fácil, uma vez que este deseja 
apenas não ser oprimido. Mas 
quem se tornar príncipe contra a 
opinião popular, por favor dos - 


grandes, deve, antes de mais 
nada, procurar conquistar o 
povo. 


Ser-lhe-ã fácil isso, uma vez 
que se tenha ocupado em prote- 
gê-lo. E como os homens, quando 
recebem beneficios de quem só 
esperavam mal, se obrigam mais 
para com o benfeitor, torna-se o 
povo logo mais seu amigo do que 
se o príncipe houvesse sido leva- 
do ao poder por favor seu. Isso 
pode ser conseguido pelo prin- 
cipe de muitas maneiras, das 
quais não se pode traçar uma 


O PRÍNCIPE 47 


regra certa porque elas variam 
conforme as circunstâncias. Dei- 
xà-la-ei de parte, por isso. Con- 
cluirei somente que é necessário 
a um príncipe que o povo lhe 
vote amizade; do contrário, fra- 
cassará nas adversidades. Nábis, 
príncipe dos espartanos, supor- 
tou o longo assédio de toda a 
Grécia e de um exército. romano 


fendeu a pátria e o Estado. Bas- 
tou-lhe apenas, quando o perigo 
sobreveio, assegurar-se de pou- 
cos; não lhe bastaria isso, se o 
povo fosse seu inimigo. E a quem 
estiver contra esta minha opl- 
nião, baseado naquele velho pro- 
vérbio que diz que quem se apóia 
no povo tem alicerces de barro, 
direi que isso é verdade quando 
um cidadão acredita que o povo 
o liberte quando estiver, por 
acaso, oprimido pelos inimigos 
ou pelos magistrados. Nesse 
caso, são frequentes os enganos, 
como os Gracos em Roma e 
Messer! * Giorgio Scali em Flo- 
rença. Tratando-se, porém, dum 
principe que saiba comandar e 
seja homem de coragem, que não 
se abata nas adversidades, não se 
esqueça das outras precauções e 
tenha com seu próprio valor -e 
conduta incutido confiança no 


15 Título que se dava a senhores, prelados e 
Juristas até o século XVI. (N. do E.) 


povo, jamais será enganado por 
este e verá que reforçou os seus 
alicerces. 

Principados dessa espécie cor- 
rem perigo quando estão a pique 
de mudar de um governo civil 
para um absoluto; porque esses 
príncipes ou governam por si 
próprios ou por intermédio de 


“magistrados. 
poderosíssimo, e contra eles de-. 


Neste último caso, a sua esta- 
bilidade é precária e incerta, por- 


' que dependem completamente da 


vontade dos cidadãos prepostos. 
nas magistraturas, os quais, mã- 
xime em tempos adversos, podem 
lhe arrebatar'o Estado com gran- 
de facilidade, movendo-lhe guer- 
ra ou não lhe prestando obediên- 
cia. E o príncipe já não poderá, 
nos perigos, reconquistar a auto- 
ridade absoluta, porque os cida- 
daos e os súditos, habituados a 


' seguir as ordens dos magistrados, 


não estão, naquela emergência, 
para obedecer à sua. E o prínci- 
pe, nos tempos incertos, quase 
não'terá gente em que se possa 
fiar, não podendo basear-se no 
que observa em ocasiões nor- 
mais, quando os cidadãos têm 
necessidade do Estado. Então, 
todos correm ao seu encontro, 
todos prometem, e não há quem 
não queira morrer por ele, quan- 
do a morte, está longe; mas na 
adversidade, quando o Estado 
necessita dos cidadãos, encon- 


48 MAQUIAVEL 


tram-se poucos. E essa expe- 
riência é tanto mais perigosa 
quando é certo que não é possível 
fazê-la senão uma vez. Conclui- 
se dai que um príncipe prudente 


deve cogitar da maneira de fa- 
zer-se sempre necessário aos seus 
súditos e de precisarem estes do 
Estado; depois, ser-lhe-ão sempre 
fiéis. 


CAPÍTULO X 


Como se devem medir as forças 
de todos os principados 


Convém fazer, ao se examina- 
rem as qualidades destes princi- 
pados, uma outra consideração: 
“se um príncipe possui tanta força 
em seu Estado que se possa man- 
ter por si mesmo em caso de 
necessidade, ou se precisa do 
auxílio de terceiros. Para bem 
esclarecer esta parte, direi que 
Julgo capazes de se manter por si 
os príncipes que podem, em vista 
de ter abundância de homens ou 
de dinheiro, formar um exército 
forte e fazer frente a qualquer 


assaltante, e que também julgo. 


terem sempre necessidade de ou- 
trem os que não podem enfrentar 
o inimigo em campo aberto, pre- 
cisando de refugiar-se por detrás 
dos muros da cidade para poder 
defendê-la. Já se falou do pri- 
meiro caso, e mais adiante ajun- 
taremos o que é necessário. No 
segundo caso, não se pode fazer 
mais do que exortar esses prínci- 
pes a fortificar e municiar o pró- 


prio Estado sem se preocupar 
com o resto. E quem estiver bem 
fortificado e se tenha conduzido 


com relação aos governados 
como acima.se expôs — e se 
falará ainda — sempre será ata- 


cado com hesitação. Os homens 
são sempre contrários aos em- 
preendimentos onde exista difi- 
culdade; e não se pode ver facili- 
dade no assalto a quem possui 
um Estado forte e não é odiado 
pelo povo. 
As cidades da Alemanha são 
extremamente livres, têm pouco 


território e obedecem ao impera- 


dor quandô querem, e não temem 
nem a ele nem a qualquer outro 
poderoso que lhes esteja - ao 
redor, pois estão fortificadas de 
forma que obriga a refletir que 
expugná-las deve ser tarefa abor- 
recida e dificil. Todas possuem 
ao redor valas e muros adequa- 
dos, possuem boa artilharia e têm. 
sempre nos celeiros públicos o 


50 MAQUIAVEL 


que comer e beber e combustível 
para um ano. Além disso, para 
que a plebe nunca sofra fome, 
têm sempre, em comum, por um 
ano, trabalho para lhe dar naque- 
las atividades que sejam o nervo 
e a vida da cidade e indústrias 
das quais a plebe se sustente. 
Mais ainda: estimam grande- 
mente os exercícios militares que 
são regidos por boas leis. 

Assim, um príncipe que tenha 
uma cidade forte e não se torne 
odiado não pode ser atacado, e, 
mesmo que o fosse, o atacante 
regressaria de cabeça baixa. Por- 
que .as coisas do mundo são 
assim tão variadas que seria 
impossível que alguém permane- 
cesse ociosamente um ano a asse- 
diá-lo. A quem replicasse que, se 
O povo tem suas propriedades 
fora da cidade e as visse arder, 
não haveria paciência capaz de 
resistir, e que o longo assédio e o 
próprio egoismo dos súditos fa- 
riam com que se esquêcessem do 
príncipe, responderia eu que um 
príncipe corajoso e forte superará 
sempre todas aquelas dificulda- 


des, ora dando aos súditos a 


esperança de que o mal não se 
prolongará, ora incutindo-lhes o 
temor da crueldade do inimigo, e 
assegurando-se com destreza dos 
que lhe parecessem muito teme- 
rários. Além disso, é razoável 
considerar que o inimigo deverá 
incendiar e arruinar o país logo 
depois de sua chegada, quando o 
ânimo do povo está ainda aque- 
cido e decidido à defesa; por isso, 
o príncipe deve ter tanto menos 
dúvida, porque depois de alguns 
dias os ânimos se arrefecem, os 
danos já são uma realidade e não 
há mais remédio; então o povo 
vem unir-se mais ao príncipe, 
parecendo-lhe que este lhe deve 
uma obrigação, pois arderam as 
casas e arruinaram-se as proprie- 
dades em benefício dele. E a 
natureza dos homens faz com 
que se obriguem tanto - pelos 
benefícios feitos como pelos rece- 
bidos. Em conclusão, consideran- 
do-se bem tudo, não será dificil a 
um príncipe prudente assegurar- 
se do seu povo, durante um 
cerco, quer antes, quer depois 
deste, uma vez que não lhe faltem 
viveres nem meios de defesa. 


CapíTULO XI 


Os principados eclesiásticos 


Resta-nos somente, agora, 
falar dos principados eclesiás- 
ticos. Diante destes, surge toda 
sorte de dificuldades, antes de 
que se possuam, porque são 
conquistados ou pelo mérito ou 
por fortuna. Mantêm-se, porém, 
sem qualquer das duas, porque 
são sustentados pela rotina da 
religião. As suas instituições tor- 
nam-se tão fortes e de tal natu- 
reza que sustentam os seus prin- 
cipes no poder, vivam e 
procedam eles como bem enten- 
derem. Só estes possuem Estados 
e não os defendem; só estes pos- 
suem súditos que não governam. 
E os seus Estados, apesar de 
indefesos, não lhes são arrebata- 
dos; os súditos, embora não 
sejam governados, não cuidam 
de alijar o príncipe nem o podem 
fazer. Somente esses principados, 
portanto, São, por natureza, segu- 
ros e felizes. E sendo eles regidos 
por poderes superiores, aos quais 
a razão humana não atinge, dei- 


xarei de falar a respeito; estabele- 
cidos e mantidos por Deus tais 
Estados, seria de homem presun- 
çoso e temerário agir de outra 
forma. Contudo, se alguém me 


perguntasse dos motivos por que . 
“a Igreja alcançou tanta grandeza 


no poder temporal, diria que, 
antes de Alexandre, os potenta- 
dos italianos (e não somente 
potentados, mas qualquer barão 
ou senhor, apesar de insignifi- 
cante) pouca importância davam 
ao poder temporal da Igreja. E 
agora até um rei de França o re- 
ceia e foi expulso da Itália pelo 
papa, que conseguiu ainda arruil- 
nar OS venezianos, o que apesar 
de conhecido não é inoportuno 
relembrar. . 

Antes que Carlos, rei da Fran- 
ça, invadisse a Itália, esta provín- 
cia estava sob o império do'papa, 
venezianos, rei de Nápoles, 
duque de Milão e florentinos. 
Estes. governos deviam ter dois 
cuidados principais: um — que o 


52 MAQUIAVEL 


- 


estrangeiro não entrasse na Itália 
com tropas; outro — que ne- 
nhum deles estendesse os seus 
domínios. Aqueles que mais se 
deviam vigiar eram o papa e os 
venezianos. E para deter a estes 
era necessária a união de todos 
os outros, como aconteceu na de- 
fesa de Ferrara; e para pôr em 
xeque o poder do papa, haveriam 
de servir os barões de Roma, os 
quais, por estarem divididos em 
duas facções — Orsini e Colon- 
na —, viviam em constante 
disputa. E estando sempre de 
armas na mão, aos olhos do pró- 
prio pontífice, tornavam o papa- 
do fraco e inseguro. E se bem que 
às vezes surgisse um papa animo- 
so, como foi Xisto, a sua fortuna 
e o seu saber não bastavam para 
livrá-lo dessa dificuldade. A bre- 
vidade dos pontificados é a razão 
disso, pois nos dez anos que, em 
média, um papa reinava, conse- 
guia, embora à custa de grande 
trabalho, rebaixar uma das fac- 
ções. Não obstante, se um deles 
havia conseguido quase que ex- 
tinguir os Colonna, por exemplo, 
seguia-se um outro papa, inimigo 
dos Orsini, que favorecia a volta 
dos Colonna, e não tinha tempo 
também de destruir os Orsini. 
Por isso o poder temporal do 
papa foi pouco estimado na Itá- 
lia. Surgiu depois Alexandre VI, 
o qual, de todos os pontífices que 


já existiram, demonstrou como 
um papa se podia fazer valer, 
pelo dinheiro e pela força, e, 
valendo-se do Duque Valentino 
como instrumento, e quando da 
vinda dos franceses, fez tudo 
quanto já referi acima, a respeito 
da ação do duque. É apesar de o 
seu intento não ser o de tornar a 
Igreja poderosa, tudo quanto o 
duque realizou foi pela grandeza 
desta, a qual, depois da morte de 
Alexandre e morto também o 
duque, foi a herdeira dos traba- 
lhos que este realizara. Veio de- 
pois o Papa Júlio e encontrou a 
Igreja forte, na posse de toda a 
Romanha, sendo que, pelas in- 
vestidas de Alexandre, haviam 


sido extintos os barões de Roma 
e anuladas as facções referidas. 
Encontrou ainda o caminho aber- 
to para acumular dinheiro, o que 


nunca fora feito antes de Alexan- 
dre. Julio não só prosseguiu em 
tais trabalhos, como ainda os 
acresceu. E pensou em conquis- 
tar Bolonha, liquidar os venezia- 


nos e expulsar os franceses da 
Itália. Alcançou êxito em todas 
essas empresas, e é tão mais 
digno de louvor quanto se sabe 


que fez tudo isso com a preocu- 
pação de engrandecer a Igreja e 
não um determinado indivíduo. 
Manteve ainda os dois partidos 
dos Orsini e dos Colonna, nas 


O PRÍNCIPE 53 


mesmas condições em que os 
encontrou; e apesar de que entre 
eles houvesse alguns chefes capa- 
zes de provocar alterações; nada 
fizeram; duas coisas os mantive- 
ram inativos: o poder da Igreja, 
que os abatia, e o fato de não 


terem eles partidários no Sacro ' 


Colégio, pois os cardeais são ori- 
gem dos tumultos entre as fac- 
ções. Não haverá paz entre estas 
se tiverem cardeais, porque estes, 
tanto em Roma como fora da 


cidade, fomentam os partidos e 


“os barões são forçados a defen- 


dé-los. Assim, da ambição dos 
prelados, nascem as discórdias e 
os tumultos entre os barões. Sua 
Santidade, o Papa Leão, encon- 
trou, pois, o pontificado podero- 
síssimo. E espera-se que, se al- 
guns tornaram o papado 
poderoso pelas armas, o atual 
pontífice, pela sua bondade e inú- 
meras outras virtudes, o torne 
ainda mais forte e venerando. 


CaPpíTULO XII 


Dos gêneros de milícia e dos soldados mercenários 


Tendo eu falado com porme- 
nor de todas as causas da boa ou 
má sorte dos principados, e con- 
siderado as causas da sua boa ou 
má sorte, demonstrando os meios 
por que se puderam conquistar e 
manter, resta-me agora falar a 
respeito dos meios ofensivos e 
defensivos que neles se podem 
achar necessários.  Dissemos 
acima que é necessário a um 
príncipe estabelecer sólidos fun- 
damentos; sem isso, é certa a sua 
ruína. E as principais bases que 
os Estados têm, sejam novos, ve- 
lhos ou mistos, são boas leis e 
boas armas. E como não podem 
existir boas leis onde não hã 
armas boas, e onde há boas 
armas convém que existam boas 
leis, referir-me-ei apenas às 
armas. Direi, pois, que as forças 
com que um príncipe mantém o 
seu Estado são próprias ou mer- 
cenárias, auxiliares ou mistas. As 
mercenárias e auxiliares são inú- 
teis e perigosas. Se alguém tiver o 


seu Estado apoiado em tal classe 
de forças, não estará nunca segu- 
ro; não são unidas aos príncipes, 
são ambiciosas, indisciplinadas, 
infiéis, insolentes para com os 
amigos, mas covardes perante os 
inimigos, não temem a Deus, 
nem dão fé aos homens, e o prin- 
cipe só adia a própria ruína na 
medida em que adia o ataque. 
Assim, o Estado é espoliado por 
elas na paz, e, na guerra, pelos 
inimigos. A razão disso é que 
não têm outro amor nem outra 
força que as mantenha em 
campo, senão uma pequena paga, 
o que não basta para fazer com 
que queiram morrer por ti. Que- 
rem muito ser teus soldados 
enquanto não fazes a guerra, 
mas, se esta vier, fogem ou se 
despedem. Não me será muito 
difícil explicá-lo, pois a atual 
ruína da Itália não é causada por 
outra coisa senão porque durante 
muitos anos esteve apoiada em 
armas mercenárias. Estas chega- 


56 MAQUIAVEL 


ram a fazer algo em benefício de 
alguns e pareciam valorosas 
quando combatiam umas às ou- 
tras, mas, chegado o estrangeiro, 
logo mostraram ' o que eram. 
Facilimo foi, por isso, a Carlos, 
rei de França, conquistar a giz a 
Kália inteira! º; dizia a verdade 
quem dizia que a culpa toda era 


nossa, mas não a que pensava e 


sim a de que foram causa os 
erros expostos acima. E como 
“eram culpados os príncipes, 
foram eles que sofreram a pena. 
Quero, contudo, demonstrar 
mais claramente a má qualidade 
destas tropas. Os capitães merce- 
nários ou são grandes militares 
ou não são nada; se o forem, não 
te poderás fiar neles, porque aspi- 
rarão sempre à própria glória, ou 
abatendo a ti, que és o seu 
patrão, ou oprimindo a outrem 
contra a tua vontade. Se não 
forem grandes capitães, arrui- 
nar-te-ão por isso mesmo. E se 
alguém responder que, merce- 
nário ou não, quem estiver com a 
força agirá sempre da mesma 
forma, replicarei que as tropas 
devem ser usadas por um priín- 
cipe ou por uma república. O 


8 Commines, cronista francês, refere que ao 
Papa Alexandre VI se atribuía o dito segundo 
o qual “os franceses ao invadir a Itália toma- 
ram do giz para marcar os: seus acampamen- 
tos, e não de espadas para combater”, que- 
rendo significar a falta de resistência dos 
Estados italianos. ' 


príncipe em pessoa é quem deve 
constituir-se capitão, a república 
deve mandar para esse posto um 
de seus cidadãos e, quando for 
mfeliz na escolha, deve iogo 
substituí-lo. E, se se revelar um 
homem de valor no seu posto, 
deve a república assegurar-se, 
mediante leis, contra o Capitão, 
para que não exorbite ele das 
suas funções. À experiência ensi- 


na que os príncipes, agindo por si ' 


mesmos, e as repúblicas armadas 
alcançam prandes progressos, ao 
passo que as armas mercenárias 
só causam danos. Mais dificil- 
mente um cidadão de uma repú- 
blica que tenha tropa própria 
alcança o poder absoluto do que 
nó caso da república apoiada em 
tropa mercenária. Roma e Espar- 
ta estiveram durante muitos sécu- 


los armadas e livres. Os suíços ' 


são armadíssimos e libérrimos. 
Exemplo das forças mercenárias 
antigas são os cartagineses, que 
quase foram abatidos pelos mer- 
cenários, quando terminou a pri- 
meira guerra com os: romanos, 
conquanto os exércitos cartagi- 
neses tivessem por chefes cida- 
daãos de Cartago. Filipe da Mace- 
dônia foi feito pelos tebanos 
capitão da sua gente, depois da 
morte de Epaminondas; e depois 
da vitória tirou-lhes a liberdade. 
Os milaneses, morto o Duque 
Filipe, assalariaram Francesco 


O PRÍNCIPE 57 


Sforza para que atacasse os vene- 
zianos; e, vencido o inimigo em 
Caravaggio, Sforza juntou-se aos 
inimigos para oprimir os milane- 
ses, seus patrões. Já Muzio Sfor- 
za, seu pai, servindo à Rainha 
Joana de Nápoles, deixou-a, em 
certo momento, sem exército. 
Para não perder o reino, foi ela 
obrigada a lançar-se aos braços 
do rei de Aragão. E se os vene- 
zianos é florentinos, pelo contrá- 
rio, alargaram seu império com 
tropas mercenárias, seus capitães 


não se tornaram príncipes e os 


defenderam sempre, tem-se que 
os florentinos, neste caso, foram 
favorecidos pela sorte, pois dos 
capitães de valor a quem podiam 
temer, alguns não venceram, ou- 
tros tiveram de lutar contra ti- 
vais, outros ainda dirigiram 
a ambição em outros rumos. O 
que não venceu foi Giovanni 
Aucut! ?, do qual, por não ter 
vencido, não se pôde conhecer a 
fidelidade, mas ninguém deixará 
de reconhecer que, se vencesse, 
os florentinos estariam à sua 
mercê. Sforza teve sempre contra 
si os partidários de Braccio, 
vigiando-se eles mutuamente. 
Francesco voltou sua ambição 
para a Lombardia; Braccio, con- 
tra a Igreja e o reino de Nápoles. 


17 Ver no indice dos nomes citados o nome 
Hawkwood (Sir John). 


Vejamos, porém, o que aconte- 
ceu há pouco tempo. Os floren- 
tinos fizeram Paulo Vitell seu 
capitão, homem muito prudente e 
que, de simples particular, alcan- 
çara altíssima reputação. Se este 
conquistasse Pisa, não haverá 
quem negue que ele teria opri- 
mido os florentinos; porque, se 
tivesse ficado servindo aos seus 
inimigos, aqueles não teriam re- 
médio contra isso; e, se o manti- 
vessem, teriam de obedecer-lhe. 
Se considerarmos os progressos 
dos venezianos, ver-se-á que ope- 
raram segura e gloriosamente, 


enquanto eles mesmos fizeram a 


guerra, o que se deu antes de a 
sua atenção voltar-se para as 
conquistas em terra firme. Aí, 
com o auxílio dos gentis-homens 
e com a plebe armada, operaram 
valorosamente, mas, quando co-: 
meçaram a combater em terra, 
deixaram essa excelente regra e 
seguiram os costumes de guerra 
da Itália. E no princípio de sua 
ação em terra, por. não terem 
muito Estado e por terem grande 
reputação, não tinham muito que 
temer de seus capitães. Am- 
pliando os seus domínios sob a 
direção de Carmignola, tiveram a 
prova desse erro. Pois que, ten- 
do-o como grande capitão, quan- 
do venceram sob o seu comando 
o duque de Milão, e vendo depois 
que estava arrefecendo nas coisas 


58 MAQUIAVEL 


de guerra, julgaram que sob o seu 
comando não mais poderiam ter 
vitórias, pois lhe faltava a vonta- 
de de vencer; e como não pudes- 


sem pô-lo em disponibilidade, 


para não perder o que haviam 
conquistado, tiveram de matá-lo 


para assegurar-se contra ele. Ti-: 
veram depois, por capitães, Bar- : 


tolomeu de Bérgamo, Roberto de 
Sao Severino, Conde de Piti- 
gliano e outros que tais; quanto a 
estes, só tinham que temer as 
suas derrotas, não suas conquis- 
tas, como aconteceu depois em 
Vailá, onde, em um só dia, perde- 
“ram o que, em oitocentos anos, à 
custa de tantos trabalhos, haviam 
conquistado. Essas tropas dão 
apenas lentas, tardias e precárias 
conquistas, mas rápidas e espan- 
tosas perdas. E como citei estes 
exemplos da Itália, que foi gover- 
nada muitos anos com armas 
mercenárias, continuarei a discu- 
tir o assunto sob um aspecto 
mais geral, a fim de que, conhe- 
cendo-se as suas origens e o seu 
desenvolvimento, seja possível 
corrigir melhor o erro de usar 
essas tropas. Deveis saber então 
que, começando nestes últimos 
tempos o império a ser repelido 
da Itália, e tendo o papa maior 
autoridade no poder temporal, o 
país foi retalhado em mais Esta- 
dos; porque muitas das maiores 
cidades tomaram armas contra a 


nobreza que as tinha subjugado, 
ajudada pelo imperador. Ao 
passo que a Igreja favorecia as 
cidades para aumentar o seu 
poder temporal. Assim, em mui- 
tas cidades, simples particulares 
se tornaram príncipes. O resul- 
tado é que, tendo a Itália ficado, 
quase toda, em poder da Igreja e 
de algumas repúblicas, e os pa- 
dres e os cidadãos destas não 
estando habituados a manejar 
armas, começaram a aliciar mer- 
cenários estrangeiros para o ser- 
viço militar. O primeiro que 
granjeou fama no comando dessa 
espécie de tropa foi Alberico da 
Conio, romanholo. Braccio e 
Sforza, que, em seus tempos, 
foram árbitros da Itália, foram 
saídos, como muitos, da escola 
daquele. Depois vieram todos os 
outros que têm comandado estas . 
milícias até nossos tempos. E 
como consequência disso, a Itália 
foi invadida por Carlos, depre- 
dada pór Luís, atacada por Fer- 
nando e infamada pelos suíços. A 
primeira coisa que fizeram os 
condottieri foi procurar anular a 
importância da infantaria, para 
realçar a importância própria. 
Agiram assim porque, não tendo 
Estado próprio e dependendo 
sempre da sua profissão, se tives- 
sem pouca infantaria, não conse- 
guiriam fama, e se muita, não 
poderiam sustentá-la. Reduzi- 


O PRÍNCIPE 59 


ram-se portanto quase exclusiva- 
mente à cavalaria, pois, com 
pequeno número de cavaleiros, 
achavam apoio e honras, sem 
grandes encargos. Isso chegou a 
- tal ponto que, num exército de 
vinte mil homens, não havia dois 
mil infantes. 

Empregavam, ademais, os ca- 
pitães todos os meios para afas- 
tar, de si e dos soldados, o medo 
e o trabalho, poupando-se nos 


combates e fazendo-se prender 
uns aos outros sem resgate. Não 
atacavam as cidades de noite e os 
que defendiam as cidades não 
atacavam os sitiantes, e nem que- 
riam combater no inverno. Tudo 
isso lhes era permitido pelo seu 
código militar, que, como se 
disse, tinha o objetivo de evitar 
trabalhos e perigos. E assim 
escravizaram e infamaram a Itá- 
lia. 


CarpíruLo XIII 


“Das tropas auxiliares, mistas e nativas 


As tropas auxiliares, que não. 


são mais do que armas inúteis, 
são as que manda em teu auxílio 
algum poderoso, como fez em 
tempos não muito remotos o 
Papa Júlio; tendo ele tido, na 
expedição contra Ferrara, triste 
prova dos exércitos mercenários, 
voltou-se para as tropas auxilia- 
res, combinando com Fernando, 
rei de Espanha, que os infantes e 
cavaleiros deste fossem ajudá-lo. 
Tais tropas podem ser úteis e 
boas por si próprias, mas quase 
sempre acarretam prejuízos ao 
que as solicita, pois, se perderem, 
estará anulado, se vencerem, es- 
tará seu prisioneiro. E, muito em- 
bora a história antiga esteja cheia 
destes exemplos, eu não quero 
sair deste, ainda recente, do Papa 
Júlio II, cuja decisão de abando- 
nar-se nas mãos de um estran- 
geiro, só pela vontade de con- 
quistar Ferrara, não se pode 
considerar uma boa deliberação. 


Mas a boa fortuna do papa origi- 
nou um terceiro acontecimento, a 
fim de que ele não colhesse os 
frutos da sua má escolha; é que 
tendo sido as forças auxiliares 
desbaratadas em Ravena, e sur- 
gindo os suíços, que expulsaram 
os vencedores, excedendo qual- 
quer. expectativa do papa e de 
outros, não ficou ele preso pelos 
inimigos, que haviam fugido, 
nem pelos seus aliados, tendo 
vencido com outras forças que 
não as próprias. Os florentinos, 
que estavam desarmados, leva- 
ram dez mil franceses a Pisa, 
para expugná-la: e nisso encon- 
traram mais perigo do que em 
quaisquer de seus próprios traba- 
lhos, em todos os tempos. O 
imperador de Constantinopla, 
para opor-se aos seus vizinhos, 
pôs dez mil turcos na Grécia, os 
quais, terminada a guerra, não 
mais quiseram partir, o que foi o 
começo da servidão da Grécia 


62 MAQUIAVEL 


aos infiéis! 8. Valha-se, portanto, 
destas tropas quem não quiser 
vencer, porque são muito mais 
perigosas do que as mercenárias. 

Com aquelas, a ruína é certa; 
são unidas e votadas inteira- 
mente à obediência a outros. 
Quanto as forças mercenárias, 
depois da vitória, precisam de 
mais tempo e de melhor oportu- 
nidade de prejudicar-te, pois não 
constituem um corpo perfeita- 
mente unido e, além disso, foram 
organizadas e são pagas por ti; 
nestas, se constituíres chefe a um 
terceiro, não poderá este ter 
desde logo tanta autoridade que 
te possa ofender gravemente. Em 
resumo, nas tropas mercenárias, 
o que é perigoso é a covardia; 
nas auxiliares, 0 valor. 

Os príncipes prudentes repeli- 
ram sempre tais forças, para 
valer-se das suas próprias, prefe- 
rindo antes perder com estas a 
vencer com auxílio das outras, 
considerando falsa a vitória con- 
quistada com forças alheias. Não 
deixarei nunca de ter em mente o 
exemplo de César Bórgia e suas 
ações. Este duque entrou na 
Romanha à custa de armas auxi- 
liares, conduzindo tropas france- 
sas, com as quais tomou Ímola e 


18 O Imperador João Cantacuzene, em guerra 
contra a facção dos Paleólogos, akou-se, em 
1346, com o Sultão Orchan. Finda a guerra, os 
turcos estabeleceram-se em Gallipoli. 


Forli. Depois, como essas tropas 
não lhe inspirassem confiança, 
voltou-se às mercemárias, que, 
Julgou, eram menos perigosas. E 
tomou a seu serviço os Orsini e 
Vitelli. Quando, tendo usado as 
destes últimos, julgou-as dúbias e 
infiéis, extinguiu-as, dedicando-se 
às que eram verdadeiramente 
suas. Pode-se daí concluir facil- 
mente a diferença entre umas e 
outras, considerada a transfor- 
mação na fama do duque, de 
quando tinha apenas os france- 
ses, para quando empregava os 
Orsini e Vitelli, e quando afinal 
ficou com soldados seus e sob 
seu próprio comando. Ver-se-á 
que sua fama foi aumentando 
sempre e nunca foi tão estimado 
como quando se viu que ele era 
senhor absoluto de suas tropas. 
Eu não queria senão citar exem- 
plos italianos ou recentes; apesar 
disso, não quero deixar de falar 
de Hierão Siracusano, já acima 
referido. Este, como disse, inves- 
tido das funções de chefe dos 
exércitos siracusanos, percebeu 
logo que a milícia mercenária 


não era boa, por serem os chefes 


semelhantes aos nossos, italia- 
nos. Parecendo-lhe que não podia 
mantê-los nem desfazer-se deles, 
fé-los cortar em pedaços. Assim, 
pôde fazer guerra, depois, com 
tropas próprias. Quero ainda re- 
cordar uma passagem do Antigo 


O PRÍNCIPE 63 


Testamento, referente a este as- 
sunto. Oferecendo-se Davi a 
Saul, para ir combater contra 
Golias, grande provocador filis- 
teu, Saul, para animá-lo, quis que 
ele fosse com a armadura real. 
Davi, logo que a pós sobre si, 
repeliu-a, dizendo que não pode- 
ria usar bem da sua própria 
força, pois queria encontrar-se 
com o inimigo valendo-se apenas 
da funda e da faca para comba- 
tê-lo. Enfim, as armas de outrem 
ou te caem pelas costas, ou 
pesam sobre ti, ou ainda te sufo- 
cam. Carlos VII, pai do Rei Luís 
XI, tendo, com a sua boa sorte e 
valor, livrado a França do jugo 
dos ingleses, conheceu a necessi- 
dade de se armar com forças que 
fossem suas, realmente, e tornou 
obrigatório, no seu reino, o servi- 
ço militar. O Rei Luís extinguiu, 
depois, a arma de infantaria e 
começou a ter suíços a soldo. 
Esse erro, seguido de outros, foi, 
como se vê agora, o motivo dos 
perigos daquele reino. Tendo 
dado reputação aos suíços, avil- 
tou as próprias tropas, porque 
desapareceu a infantaria e a sua 
cavalaria foi subordinada à tropa 
estrangeira, e, acostumando-se 
elã a militar com suíços, não lhe 
parece possível vencer sem eles, 


Da nao bastarem os franceses 


contra Os suíços, e sem Os suíços, 
contra outros, não conseguiram 


vencer. Os exércitos de França, 
pois, têm sido mistos, compostos 
de mercenários e soldados pró- 
prios. São eles muito melhores 
que as simples tropas auxiliares 
ou mercenárias e muito inferiores 
aos exércitos próprios. 

Basta o exemplo dado, porque 
o reino de França seria inven- 
cível se se tivesse desenvolvido 
ou pelo menos conservado o 
regulamento militar de Carlos. 
Mas a pouca prudência dos ho- 
mens não descobre o veneno que 
está escondido nas coisas que 
bem lhes parecem ao princípio, 
conforme disse acima, a respeito 
das febres éticas. 

Portanto, aquele que, num 
principado, não conhecer os 
males na sua origem não é verda- 
deiramente sábio, o que é dado a 
poucos. Se se considerar o come- 
ço da decadência do Império 
Romano, achar-se-á que foi moti- 
vada somente por ter começado a 
ter a soldo mercenários godos. 
Desde então começaram a decli- 
nar as forças do império e todo o: 
valor dele lhes era levado à 
conta. Concluo, pois, que, sem 
possuir armas próprias, nenhum 
principado está seguro," antes, 
está à mercê da sorte, não exis- 
tindo virtude que o defenda nas 
adversidades. Foi sempre opinião 
e sentença dos homens sábios — 
“quod nihil sit tam infirmum aut 


64 MAQUIAVEL 


instabile quam fama potential 
non sua vi nixa!'º” E as forças 
próprias são aquelas compostas 
de súditos ou de cidadãos, ou de 
servos teus; todas as outras são 
mercenárias ou auxiliares. E o 


18 “Nada é tão instável quanto a fama de 
poderio de um príncipe quando não apoiada 
na própria força.” 


modo de regulamentar os exérci- 
tos próprios será fácil de encon- 
trar-se se se analisarem os regula- 
mentos dos quatro a quem me 
referi, e se se considerar como 


Filipe, pai de Alexandre Magno, 


- e muitas repúblicas e principes se 


armaram e regeram: e é a essas 
ordens que me reporto inteira- 
mente, durante esta exposição. 


CapítuLo XIV 


Dos deveres do principe para .com as suas tropas 


Deve, pois, um príncipe não 
ter outro objetivo nem outro 
pensamento, nem ter qualquer 
outra coisa como prática a não 
ser a guerra, O seu regulamento e 
sua disciplina, porque essa é a 
única arte que se espera de quem 
comanda. É ela de tanto poder 
que não só mantém aqueles que 
nasceram príncipes, mas muitas 
vezes faz com que cidadãos de 
condição particular ascendam 
aquela qualidade. Ao contrário, 
vê-se que perderam os seus Esta- 
dos os príncipes. que se preocu- 
param mais com os luxos da vida 
do que com as armas. À primeira 
causa que te fará perder o gover- 
no é descurar desta arte e a razão 
de poderes conquistá-lo é o pro- 
fessá-la. Francesco Sforza, de 
simples particular tornou-se 
duque de Milão, pelo fato de ter- 


Nie armado; ao passo que os seus 


filhos, por fugir aos deveres das 
armas, de duques passaram a 
simples cidadãos. Porque, entre 


at 


as outras razões que te acarretam 
males; o estar desarmado te obri- 
ga a ser submisso, e isso é uma 
das infâmias de que um príncipe 
se deve guardar, como adiante se 
dirá. Não há proporção alguma 
entre um príncipe armado e um 
desarmado, e não é razoável que 
quem estã armado obedeça com 
gosto a quem não está, e que o 
principe desarmado viva seguro 
entre servidores em armas. Ha- 
vendo desdém, por parte de um, e 
suspeita, de outro lado, não é 
possivel que ajam de acordo. Um 
príncipe que não entenda de mili- 
cia, além de outras infelicidades, 
como se disse, não pode ser esti- 


'“mado pelos seus soldados nem 


ter confiança neles. 

Um príncipe, deve, pois, não 
deixar nunca de se preocupar 
coma arte da guerra e praticá-la 
na paz ainda mais mesmo que na 
guerra, e isto pode ser conse- 
guido por duas formas: pela ação 
ou apenas pelo pensamento. 


66 MAQUIAVEL 


Quanto à ação, além de manter 
os soldados disciplinados e cons- 


tantemente em exercício, deve: 


estar sempre em grandes caça- 
das, onde deverá habituar o 
corpo aos incômodos naturais da 
vida em campanha e aprender a 
natureza dos lugares, saber como 
surgem os montes, como afun- 
dam os vales, como Jjazem as 
planícies, e saber da natureza dos 
rios e dos pântanos, empregando 
nesse trabalho os melhores cuida- 
dos. Esses conhecimentos são 
úteis sob dois aspectos princi- 
pais: primeiro, aprende o prin- 
cipe a conhecer bem o seu país € 
ficará conhecendo melhor os seus 
meios de defesa; segundo, pelo 
conhecimento e prática daqueles 
sítios, conhecerá facilmente qual- 
quer outro, novo, que lhe seja 
necessário especular, pois que os 
montes, os vales, as planícies, os 
rios € OS pântanos que existem na 
Toscana, por exemplo, apresen- 
tam certas semelhanças com os 
de outras províncias. Assim, pelo 
conhecimento da geografia de 
uma província, pode-se facil- 
mente chegar ao conhecimento 
de outra. E o príncipe que falha 
nesse particular falha na primeira 


qualidade que deve ter um capi- 


tão, porque é esta que ensina a 
entrar em contato com o inimigo, 
acampar, conduzir os exércitos, 
traçar os planos de batalha, e 


assediar ou acampar com vanta- 
gem. Filopêmenes, principe dos 
aqueus, entre as outrás qualida- 
des que lhe deram os escritores, 
tinha esta de, nos tempos de paz, 
não deixar de pensar nunca em 
coisas de guerra. Quando pas- 
seava no campo, com os amigos, 
parava às vezes e os interrogava: 
“Se OS inimigos estivessem sobre 
aquele monte, e nós estivéssemos 
aqui, com nossos exércitos, quem 
teria maiores vantagens? Como 
se poderia ir ao seu encontro, 
observando a nossa formação? 
Se nós quiséssemos retirar, como 
deveríamos fazer? Se eles se reti- 
rassem, como fariamos para se- 
gui-los?” Enfim, formulava todas 
as hipóteses que podem ocorrer 
em campanha, ouvia-lhes a opi- 
nião, dava a sua, corroborava-as 
com razões e exemplos, de modo 
que, mercê dessas contínuas cogi- 
tações, quando estava à frente 
dos exércitos, nunca surgia um 
acidente que ele já não tivesse 
previsto e para o qual, portanto, 
não tivesse remédio. 

Agora, quanto ao exercício do 
pensamento, o príncipe deve ler 
histórias de países e considerar 
as ações dos grandes homens, 
observar como se conduziram 
nas guerras, examinar as razões 
de suas vitórias e derrotas, para 
poder fugir destas e imitar aque- 
las; sobretudo, deve fazer como 


O PRÍNCIPE 67 


teriam feito em tempos idos cer- 
tos grandes homens, que imita- 
vam os que antes deles haviam 
sido glorificados por suas ações, 
como consta que Alexandre 
Magno imitava a Aquiles, César 
a Alexandre, Cipião a Ciro. E 
quem ler a vida de Ciro, escrita 
por Xenofonte, reconhecerá, de- 
pois, na vida de Cipião, quanto 
lhe foi valiosa aquela imitação e 


quanto se assemelhava ele, na 
abstinência, afabilidade, humani- 
dade, liberalidade, ao que Xeno- 
fonte disse de Ciro. Um príncipe 
sábio deve observar estas coisas e 
nunca ficar ocioso nos tempos de 
paz; deve, sim, inteligentemente, 
ir formando cabedal de que se 
possa valer nas adversidades, 
para estar sempre preparado a 
resistir-lhes. 


CapíTULO XV 


Das razões por que os homens e, especialmente, 


os principes são louvados ou vituperados 


Resta examinar agora como 
deve um principe comportar-se 
com os seus súditos e seus ami- 
gos. Como sei que muita gente já 
escreveu a respeito desta matéria, 
duvido que não seja considerado 
presunçoso propondo-me exami- 
ná-la também, tanto mais quanto, 
ao tratar deste assunto, não me 
afastarei grandemente dos princi- 
pios estabelecidos pelos outros. 
“Todavia, como é meu intento 
escrever coisa útil para os que se 
interessarem, pareceu-me mais 
conveniente procurar a verdade 
pelo efeito das coisas, do que 
pelo que delas se possa imaginar. 
E muita gente imaginou repú- 
blicas e principados que nunca se 
viram nem jamais foram reco- 
nhecidos como verdadeiros. Vai 
“tanta diferença entre o como se 
vive e o modo por que se deveria 
viver, que quem se preocupar 
- com O que se deveria fazer em 
vez do que se faz aprende antes a 


ruína própria, do que o modo de 
se preservar; e um. homem que 
quiser fazer profissão de bondade 
é natural que se arruíne entre tan- 
tos que são maus. 

Assim, é necessário a um prín- 
cipe, para se manter, que aprenda 
a poder ser mau e que se valha ou 
deixe de valer-se disso segundo a 
necessidade. 

Deixando de parte, pois, as 
coisas ignoradas relativamente 
aos príncipes e falando a respeito 
das que são reais, digo que todos 
os homens, máxime os príncipes, 


-por. estarem mais no alto, se 


fazem notar através das qualida- 
des que lhes acarretam reprova- 
ção ou louvor. Isto é, alguns são 
tidos como liberais, outros como 
miseráveis (usando o termo tos- 
cano misero, porque avaro, em 
nossa língua, é ainda aquele que 
deseja possuir pela rapinagem, e 
miseri chamamos aos que se abs- 
têm muito de usar o que pos- 


70 MAQUIAVEL 


suem); alguns são tidos como 
pródigos, outros como rapaces; 
alguns são cruéis e outros piedo- 
sos; perjuros ou leais; efemina- 
dos e pusilânimes ou truculentos 
e animosos; humanitários ou so- 
berbos; lascivos ou castos; estú- 
pidos ou astutos; enérgicos ou 
indecisos; graves ou levianos; 
religiosos ou incrédulos, e assim 
por diante. E eu sei que cada qual 
reconhecerá que seria muito de 
louvar que um príncipe pos- 
suísse, entre todas as qualidades 
referidas, as que são tidas como 
boas; mas a condição humana é 
tal, que não consente a posse 
completa de todas elas, nem ao 
menos a sua prática consistente; 
é necessário que o príncipe seja 


tão prudente que saiba evitar os 
defeitos que lhe arrebatariam o 
governo € praticar as qualidades 
próprias para lhe assegurar a 
posse deste, se lhe é possível; 
mas, não podendo, com menor 
preocupação, pode-se deixar que 
as coisas sigam seu curso natu- 
ral. E ainda não lhe importe 
incorrer na fama de ter certos 
defeitos, defeitos estes sem os 
quais dificilmente poderia salvar 
O governo, pois que, se se consi- 
derar bem tudo, encontrar-se-ão 
coisas que parecem virtudes e 
que, se fossem praticadas, lhe 
acarretariam a ruína, e outras 
que poderão parecer vícios € que, 
sendo seguidas, trazem a segu- 
rança e o bem-estar do gover- 
nante. 


CapíTULO XVI 


Da liberalidade e da parcimônia 


Começando, portanto, pela 
primeira das qualidades enume- 
radas, direi em que condições o 
ser julgado liberal é um bem. A 
liberalidade usada para que 
gozes da fama de liberal não é 
uma virtude; se é ela praticada 
virtuosamente e como devido, 
será ignorada e não te livrarás da 
mã fama do seu contrário. 
Assim, se se quiser manter entre 
os homens a fama de liberal, é 
necessário não omitir nenhuma 
demonstração de suntuosidade, 
de tal-ríodo que, nessas condi- 
ções, consumirá sempre um prín- 
cipe, em semelhantes obras, 
todas as suas rendas. E, no fim, 
se quiser manter aquela fama, 
precisará de gravar O povo ex- 
traordinariamente, proceder 
cruelmente no fisco e fazer tudo o 
que se pode fazer para ter dinhei- 
ro. Isso começará a torná-lo 
odioso aos olhos dos súditos, e 
uma vez empobrecido cairá na 
desestima dos outros; de forma 


que, tendo a sua liberalidade 
acarretado prejuízo a muitos e 
beneficiado a outros, começa o 
principe a sentir os primeiros 
reveses e periga em qualquer 
circunstância que ócorra. Perce- 
bendo isso, e querendo retrair-se, 
o- príncipe é logo tachado de 
avaro. Assim, pois, não podendo 
usar dessa virtude sem dano pró- 
prio, de modo que seja conheci- 
da, deve ele, se é prudente, des- 
prezar a pecha de avarento, 
porque, com o tempo, poderá 
demonstrar que é cada vez mais 
liberal, pois o povo verá que a 
parcimônia do príncipe faz com 
que a sua receita. lhe baste, 
podendo ele defender-se de quem 
lhe move guerra, e também lan- 
çar-se em empreendimentos sem 
gravar o povo, e assim está sendo: 
liberal para todos aqueles de 
quem nada tira, os quais são inú- 
meros, e miserável para aqueles a 
quem não dá nada, que são muito 
poucos. Em nossos tempos, não 


ED) MAQUIAVEL 


vimos que fizessem grandes coi- 
sas senão os que foram conside- 
rados miseráveis; Os outros arrui- 
naram-se. O Papa Júlio II, como 
se houvesse servido da fama de 
liberal para chegar ao papado, 
não pensou depois em mantê-la, e 
isso para poder fazer guerra con- 
tra o rei de França; entrou em 
muitas campanhas sem onerar os 
“seus com qualquer taxa extraor- 
dinária, porque, para atender às 
despesas supérfluas, bastou-lhe a 
sua grande parcimônia. O atual 
rei da Espanha, se fosse conside- 
rado liberal, não teria começado 
nem vencido tantos empreendi- 
mentos. 

Portanto, um príncipe deve 
gastar pouco para não ser obri- 
gado a roubar seus súditos; para 
poder defender-se; para não se 
empobrecer, tornando-se despre- 
zivel; para não ser forçado a tor- 
nar-se rapace; e pouco cuidado 
lhe dê a pecha de miserável; pois 
esse é um dos defeitos que lhe 
dão a possibilidade de bem rei- 
nar. E se alguém disser que 
César, com sua liberalidade, as- 
cendeu ao império, e muitos 
outros, por serem considerados 
liberais, alcançaram altos postos, 
résponderei que ou já és príncipe 
ou estás no caminho de o ser. No 
primeiro caso, esta liberalidade é 
prejudicial; no segundo caso, é 
necessário ser considerado libe- 


ral. E César era um dos que que- 
riam alcançar o poder em Roma, 
mas se, depois que o alcançou, 
tivesse vivido mais tempo e pros- 
seguido naquelas despesas e não 
as tivesse reduzido, teria des- 
truído o império. Se alguém repli- 
casse que houve muitos príncipes 
que fizeram grandes coisas com 
os seus exércitos e têm fama de 
liberais, responderia eu que ou o 
principe gasta o que é seu, ou dos 
seus súditos, ou o que é de 
outrem. No primeiro caso deve 
ser sóbrio, no outro, não deve ' 
esquecer nenhuma liberalidade. E 
ao príncipe que marcha com seus 
exércitos e que vive à custa de 
presas de guerra, de saques e de 
reféns, e maneja o que é dos 
outros, é necessária essa liberali- 
dade, porque de outra forma não 
seria seguido pelos seus soldados. 
E é possível seres muito mais 
pródigo com aquilo que te não 
pertence nem aos teus súditos, 
como fizeram Ciro, César e Ale- 
xandre, pois gastar o que é de ou- 


trem não rebaixa, pelo contrário, 


eleva a reputação. Gastar o que é 
seu mesmo, isso sim, é nocivo. E 
não há coisa que se destrua por si 
própria como a liberalidade, pois 
com seu uso continuado vais per- 
dendo a faculdade de usá-la e te 
tornas ou pobre e necessitado, 
ou, para fugir da pobreza, rapace 
e odioso. E dentre as:coisas de 


O PRÍNCIPE 


que um príncipe se deve guardar. 
estão o ser necessitado ou odioso. 
E a liberalidade conduz a uma ou 
a outra coisa. Assim, pois, é mais 
prudente ter fama de miserável, o 


que acarreta má fama sem ódio, 
do que, para conseguir a fama de 
liberal, ser obrigado a incorrer 
também na de rapace, o que 
constitui uma infâmia odiosa.' 


CapíruLo XVII 


Da crueldade e da piedade — se é melhor 
ser amado ou temido 


Continuando na exposição das 
qualidades acima referidas, tenho 
a dizer que cada príncipe deve 
desejar ser tido como piedoso e 
não como cruel: apesar disso, 
deve cuidar de empregar conve- 
nientemente essa piedade. César 
Bórgia era considerado cruel, e, 
contudo, sua crueldade havia 
reerguido a Romanha e conse- 
guido uni-la e conduzi-la à paz e 
à fé. O que, bem considerado, 
mostrará que ele foi muito mais 
piedoso do que o povo florentino, 
o qual, para evitar a pecha de 
cruel, deixou que Pistóia fosse 
destruída?2º. Não deve, portanto, 
importar ao príncipe a qualifica- 
ção de cruel para manter os seus 
súditos unidos e com fé, porque, 
com raras exceções, é ele mais 


2º Florença fomentava a discórdia entre as 


facções rivais de Pistóia (Panciatichi e Cancel- 
leri). Em 1502, uma série de motins determi- 


nou a ocupação da cidade pelo governo 
florentino. 


piedoso do que aqueles que por 
muita clemência deixam aconte- 
cer desordens, das quais podem 
nascer assassínios ou rapinagem. 
É que estas consequências preju- 
dicam todo um povo, € as execu- 
ções que provêm do príncipe 
ofendem apenas um indivíduo. E, 
entre todos os príncipes; os novos 
são os que menos podem fugir à 
fama de cruéis, pois os Estados 
novos são cheios de perigo. Diz 
Virgílio, pela boca de Dido: 

Res dura, et regni novitas me 
talia cogunt Moliri, et late fines 
custode tueri? 1. 

Não deve ser, portanto, cré- 
dulo o principe, nem precipitado, 
e não deve amedrontar-se a si 
próprio, e proceder equilibrada- 
mente, com prudência e humani- 
dade, de modo que a confiança 


21 “A dura condição das coisas e o fato 
mesmo de ser recente o meu reinado obrigam- 
me ao rigor e a fortificar as fronteiras.” 


76 | MAQUIAVEL 


demasiada não o torne incauto e 
a desconfiança excessiva não Oo 
faça intolerável. 

Nasce dai esta questão debati- 


da: se será melhor ser amado que 


temido ou vice-versa. Respon- 
der-se-à que se desejaria ser uma 
e outra coisa; mas como é dificil 
reunir ao mesmo tempo as quali- 
dades que dão aqueles resultados, 
é muito mais seguro ser temido 
que amado, quando se tenha que 
falhar numa das duas. É que os 
homens geralmente são ingratos, 
volúveis, simuladores, covardes e 
ambiciosos de dinheiro, e, en- 
quanto lhes fizeres bem, todos 
estão contigo, oferecem-te san- 
gue, bens, vida, filhos, como 
disse acima, desde que a necessi- 
dade esteja longe de ti. Mas, 
quando ela se avizinha, voltam-se 
para outra parte. E o príncipe, se 
confiou plenamente em palavras 
e não tomou outras precauções, 
estã arruinado. Pois as amizades 
conquistadas por interesse, e.não 
por grandeza e nobreza de cará- 
ter, são compradas, mas não se 
pode contar com elas no momen- 
to necessário. E os homens hesi- 
tam menos em ofender aos que se 
fazem amar do que aos que se 
fazem temer, porque o amor é 
mantido por um vínculo de obri- 
gação, o qual, devido a serem os 
homens pérfidos, é rompido sem- 
pre que lhes aprouver, ao passo 


que o temor que se infunde é ali- 
mentado pelo receio de castigo, 
que é um sentimento que não se 
abandona nunca. Deve, portanto, 
o príncipe fazer-se temer de ma- 
neira que, se não se fizer amado, 
pelo menos evite o ódio, pois é 
fácil ser ao mesmo tempo temido 
e não odiado, o que sucederá 
uma vez que se abstenha de se 
apoderar dos bens e das mulheres 
dos seus cidadãos e dos seus sú- 
ditos, e, mesmo sendo obrigado a 
derramar o sangue de alguém, 
poderá fazê-lo quando houver 
Justificativa conveniente e causa 
manifesta. Deve, sobretudo, abs- 
ter-se de se aproveitar dos bens 
dos outros, porque os homens 
esquecem mais depressa a morte 
do pai do que a perda de seu - 
patrimônio. Além disso, não fal- 
tam nunca ocasiões para pilhar o 
que é dos outros, e aquele que co- 
meça a viver de rapinagem sem- 
pre as encontra, o que já não su- 
cede quanto às ocasiões de 
derramar sangue. 

Mas quando o principe está 
em campanha e tem sob seu 
comando grande cópia de solda- 
dos, então é absolutamente ne- 
cessário não se importar com a 
fama de cruel, porque, sem ela, 
não se conseguirá nunca manter 
um exército unido e disposto a 
qualquer ação. Entre as admirá- 
veis ações de Aníbal, enumera-se 


O PRÍNCIPE 77 


esta: tendo um exército muito 


numeroso, composto de homens 
de todas as idades e nacionali- 
dades, e militando em terras 
alheias, não surgiu nunca desin- 
teligência alguma no seu seio, 
nem com relação ao príncipe, 
tanto nos bons como nos tempos 
adversos. Isso não se pode atri- 
buir senão à sua desumana cruel- 
dade, a qual, juntamente com 
infinitas virtudes, o tornou sem- 
pre venerando e terrível no con- 
ceito de seus soldados. E estas 
virtudes, por si sós, não basta- 
riam para produzir aquele efeito, 
se não fora aquela desumana 
crueldade. E entre escritores 
pouco comedidos, alguns se con- 
tentam com admirar e louvar esta 
sua qualidade, outros atribuem a 
ela todos os triunfos que conquis- 
tou. E para provar que as outras 
virtudes, por si sós, não basta- 
riam, pode-se tomar como exem- 
plo Cipião, homem excepcional, 
não somente nos seus tempos, 
mas também na memória dos 
fatos que a história conserva, 
cujos exércitos se revoltaram 
quando na Espanha; e este fato 
tem a explicação na sua dema- 
siada bondade, que havia conce- 
dido aos soldados mais liberdade 


- Outros. 


do que a que convinha à disci- 
plina militar. Foi, por isso, ad- 
moestado severamente no Senado 


por Fábio! Máximo, que O cha-. 


mou “dê “corruptor da milícia 
romana. Os locrenses, tendo sido 
barbaramente abatidos por um 
legado de Cipião, não foram vin- 
gados pelo chefe romano, nem a 
insolência daquele legado foi cas- 
tigada, fatos esses que nasciam 
do caráter bondoso de Cipião. E, 
querendo alguém desculpá-lo no 
Senado, disse haver muitos ho- 
mens que sabiam mais não errar 
do que corrigir os erros dos 
Esse traço de caráter 
teria, côm o tempo, destruído a 
fama e a glória de Cipião se ele 
tivesse continuado no comando, 
mas, vivendo sob a direção do 
Senado, esta sua qualidade preju- 
dicial não somente foi anulada, 
mas se lhe tornou benéfica. 

Concluo, pois (voltando ao 
assunto sobre se é melhor ser te- 
mido ou amado), que um prin- 
cipe sábio, amando os homens 
como eles querem e sendo por 
eles temido como ele quer, deve 
basear-se sobre o que é seu e não 
sobre o que é dos outros. Enfim, 
deve somente procurar evitar ser 
odiado, como foi dito. 


CapítruLo XVIII 


De que forma os principes devem 
guardar a fé 


Quanto seja louvável a um 


principe. manter a fé e viver com - 


integridade, não com astúcia, 
todos o compreendem; contudo, 
observa-se, pela experiência, em 
nossos tempos, que houve prínci- 
pes que fizeram grandes coisas, 
mas em pouca conta tiveram a 
palavra dada, e souberam, pela 
astúcia, transtornar a cabeça dos 
homens, superando, enfim, os 
que foram leais. 

Deveis saber, portanto, que 
existem duas formas de se com- 
bater: uma, pelas leis, outra, pela 
força. A primeira é própria do 
homem; a segunda, dos animais. 
Como, porém, muitas vezes a pri- 
meira não seja suficiente, é preci- 
so recorrer à segunda. Ao prin- 
cipe torna-se necessário, porém, 
saber empregar  conveniente- 
mente o animal e o homem. Isto 
foi ensinado à socapa aos prínci- 
pes, pelos antigos escritores, que 


relatam o que aconteceu com 
Aquiles e outros .príncipes anti- 
gos, entregues aos cuidados do 
centauro Quiron, que os educou. 
É que isso (ter um preceptor me- 
tade animal e metade homem) 
significã que o príncipe sabe 
empregar uma e outra natureza. 
E uma sem a outra é a origem da 
instabilidade. Sendo, portanto, 
um príncipe obrigado a bem ser- 
vir-se da natureza da besta, deve 
dela tirar as qualidades da raposa 
e do leão, pois este não tem defe- 
sa alguma contra os laços, e a 
raposa, contra os lobos. Precisa, 
pois, ser raposa para conhecer os 
laços e leão para aterrorizar os 
lobos. Os que se fizerem unica- 
mente de leóes não serão bem 
sucedidos. Por isso, um príncipe 
prudente não pode nem deve 
guardar a palavra dada quando 
isso se lhe torne prejudicial e 
quando as causas que o determi- 


80 dae MAQUIAVEL 


naram cessem de existir. Se os 
homens todos fossem bons, este 
preceito seria mau. Mas, dado 
que são pérfidos e que não a 
observariam a teu respeito, tam- 
bém não és obrigado a cumpri-la 
para com eles. Jamais faltaram 
aos principes razões para dissi- 
mular quebra da fé jurada. Disto 
poder-se-iam dar inúmeros exem- 
plos modernos, mostrando quan- 
tas convenções e quantas pro- 
messas se tornaram irritas e vas 
pela infidelidade dos príncipes. E, 
dentre estes, o que melhor soube 
valer-se das qualidades da raposa 
saiu-se melhor. Mas é necessário 
disfarçar muito bem esta quali 
dade e ser bom simulador e dissi- 
mulador. E tão simples são os 
homens, e obedecem tanto às 
necessidades presentes, que aque- 
le que engana sempre encontrará 
quem se deixe enganar. Não 
quero deixar de falar pelo menos 
de um dos exemplos novos. Ale- 
xandre VI não pensou e não fez 
outra coisa Senão enganar os 
homens, terído sempre encon- 
trado ocasião para assim proce- 
der. Jamais existiu homem que 
possuísse maior segurança em 
asseverar, e que afirmasse com 
Juramentos mais solenes o que, 
depois, não observaria. No en- 
tanto, os enganos sempre lhe cor- 
reram à medida dos seus desejos, 


pois ele conhecia muito bem este 
lado da natureza humana??2. , 
Contudo, o príncipe não preci- 
sa possuir todas as qualidades 
acima citadas, bastando que apa- 
rente possuí-las. Antes, teria eu a 
audácia de afirmar que, possuin- 
do-as e usando-as todas, essas 
qualidades seriam prejudiciais, 
ao passo que, aparentando pos- 
suí-las, são benéficas; por exem- 
plo: de um lado, parecer ser efeti- 
vamente piedoso, fiel, humano, 
integro, religioso, e de outro, ter 
o ânimo de, sendo obrigado pelas 
circunstâncias a não o ser, tor- 
nar-se o contrário. E há de se 
entender o seguinte: que um priín- 
cipe, e especialmente um príncipe 
novo, não pode observar todas as 


Coisas a que são obrigados os ho- 


mens considerados bons, sendo 
frequentemente forçado, para 
manter O governo, a agir contra a 
caridade, a fé, a humanidade, a 
religião. É necessário, por isso, 
que possua ânimo disposto a vol- 
tar-se para a direção a que os 
ventos e as variações da sorte o 
impelirem, e, como disse mais 
acima, não partir do bem, mas, 
podendo, saber entrar para o 
mal, se a isso estiver obrigado. O 


22 Dizia-se de Alexandre VI que ele nunca 
fazia o que dizia, ao passo que César Bórgia 
nunca dizia O que ia fazer. 


O PRÍNCIPE 81 


príncipe deve, no entanto, ter 
muito cuidado em não deixar 
escapar da boca expressões que 
não revelem as cinco qualidades 
acima mencionadas, devendo 
aparentar, à vista e ao ouvido, ser 
todo piedade, fé, integridade, hu- 
manidade, religião. Não há quali- 
dade de que mais se careça do 
que esta última. É que os ho- 
mens, em geral, julgam mais 
pelos olhos do que pelas mãos, 
pois todos podem ver, mas pou- 
cos são os que sabem sentir. 
Todos vêem o que tu pareces, 
mas poucos o que és realmente, e 
estes poucos não têm a audácia 
de contrariar a opinião dos que 
têm por si a majestade do Estado. 
Nas ações de todos os homens, 
máxime dos príncipes, onde não 
há tribunal para que recorrer, o 


que importa é o êxito bom ou 
mau. Procure, pois, um príncipe, 
vencer e conservar o Estado. Os 
meios que empregar serão sem- 
pre Julgados honrosos e louvados 
por todos, porque o vulgo é leva- 
do pelas aparências e pelos resul- 
tados dos fatos consumados, e o 
mundo é constituído pelo vulgo, e 
não haverá lugar para a minoria 
se a maioria não tem onde se 
apoiar. Um príncipe de nossos 
tempos, cujo nome não convém 
declarar, prega incessantemente a 
paz e a fé, sendo, no entanto, ini- 
migo acérrimo de uma e de 


outra?* E qualquêr delas, se ele 


efetivamente a observasse, ter- 
lhe-ia arrebatado, mais de uma 
vez, a reputação ou o Estado. 


23 Alusão a Fernando, o Católico. 


CAPÍTULO XIX 


De como se deve evitar o ser 
desprezado e odiado 


Uma vez que me referi às mais 
importantes das qualidades 
acima mencionadas, das outras 
quero falar ligeiramente, de um 
modo geral. O príncipe procure 
evitar, como foi dito anterior- 
mente, o que o torne odioso ou 
desprezível e, sempre que assim 
agir, terá cumprido o seu dever € 
não encontrará nenhum perigo 
nos outros defeitos. O que princi- 
palmente o torna odioso, como 
disse acima, é o ser rapace e 
usurpador dos bens e das mulhe- 
res dos seus súditos. Desde que 
não se tirem aos homens os bens 
e a honra, vivem estes satisfeitos 
e só se deverá combater a ambi- 
ção de poucos, a qual se pode 
sofrear de muitos modos e com 
facilidade. Fá-lo desprezível o ser 
considerado volúvel, leviano, efe- 
minado, pusilânime, irresoluto. E 
essas são coisas que devem ser 
evitadas pelo príncipe como o 


nauta evita um rochedo. Deve ele 
procurar que em suas ações se 
reconheça grandeza, coragem, 
gravidade e fortaleza, e quanto às 
ações privadas de seus súditos 
deve fazer com que à sua sen- 
tença seja irrevogável, conduzin- 
do-se de tal forma que a ninguém 
passe pela mente enganá-lo ou 
fazê-lo mudar de idéia. 

O príncipe que conseguir for- 
mar tal opinião de si adquire 
grande reputação; e contra quem 
é reputado dificilmente se cons- 
pira e dificilmente é atacado 
enquanto for tido como excelente 
e reverenciado pelos seus. Um 
príncipe deve ter duas razões de 
receio: uma de ordem interna, 
por parte de seus súditos, outra 
de ordem externa, por parte dos 
poderosos de fora. Defender-se-á 
destes com boas armas e com 
bons aliados; e se tiver armas 


“terá sempre bons amigos. As coi- 


84 MAQUIAVEL 


"sas internas, por sua vez, estarão 
sempre estabilizadas se estabili- 
zadas estiverem as de fora, salvo 


se aquelas já não estiverem per- 


turbadas por uma conspiração. 
Mesmo quando as de fora se agi- 
tassem, se o príncipe tivesse 
agido e vivido como escrevi, e 


não desalentasse, resistiria sem- 


pre a qualquer ataque, como nar- 
rei acima, relativamênte ao es- 
partano Nábis. A respeito dos 
súditos, porém, quando as ques- 
tões externas estão em calma 
deve sempre recear que conspi- 
rem secretamente, perigo de que 
o príncipe-se afasta se não se tor- 
nou odiado ou desprezado, e se 
tiver feito com que o povo esteja 
satisfeito com ele: e isso é neces- 
sário conseguir pelas formas a 
que acima se fez.longa referência. 
Ora, um dos remédios mais efica- 
zes que um príncipe possui con- 
tra as conspirações é não se tor- 
nar odiado pela população, pois 
quem conspira julga sempre que 
vai satisfazer os desejos do povo 
com a morte dó principe; se jul- 
gar, porém, que com isso ofende- 
rã o povo, não terá coragem de 
tomar tal partido, porque as difi- 
culdades com que os conspira- 
dores teriam que lutar seriam 
infinitas. Vê-se, pela experiência, 
que muitas têm sido as conspira- 
ções, mas que poucas delas tive- 
ram êxito, pois quem conspira 


não pode estar só, nem pode ter 
como companheiros senão aque- 
les que estiverem desgostosos. E 
logo que revelas as tuas intenções 
a um descontente, dar-lhe-ás mo- 
tivo de contentamento, pois ele 
pode esperar qualquer vantagem 
de traição do segredo, e de forma 
que, vendo deste lado só ganhos 
certos, e, de outro, só vendo dúvi- 
das e muitos perigos, somente um 
amigo, como raros, ou um inimi- 
go implacável do principe se 
conservará fiel à conspiração. 
Em suma, direi que, por parte do 
conspirador, não há senão medo, 
inveja e a suspeita da punição, 
que o atormenta; por parte do 
principe existe a majestade do 
principado, as leis, a defesa dos 
amigos e do Estado, que o res- 
guardam: tanto que, acrescen- 
tando a tudo isso a estima popu- 
lar, é impossível que exista 
alguêm tão temerário que se aba- 
lance a conspirar. Ordinaria-. 
mente, o que um conspirador re- 
ceia antes de levar a efeito o mal 
deverá recear também depois, 
tendo o povo por inimigo, depois 
do fato consumado, e não poderá 
por isso esperar qualquer refúgio. 

Poderia eu citar numerosos 
exemplos desta matéria: limitar- 
me-ei, porém, a um só, que nos 
foi legado pela recordação de 
nossos pais. Tendo sido assassi- 
nado pelos Canneschi o senhor 


O PRÍNCIPE 85 


de Bolonha, Messer Aníbal Ben- 
tivoglio, avó: do atual Messer 
Aníbal, não ficando da família 
senão Messer Giovanni, criança 
de colo, O povo, logo depois do 
homicídio, sublevou-se & matou 
todos os Canneschi. Isso foi devi- 
do à benevolência popular com a 


qual a casa dos Bentivoglio con- 


tava naquela época, benquerença 
essa tão grande que, não tendo 
restado em Bolonha um só mem- 


bro daquela família, que pudesse, . 


morto Aníbal, governar o Esta- 
do, e havendo indício de que 
havia em Florença um jovem 
pertencente aquela família, e tido, 
até então, como filho de um fer- 
reiro, os bolonheses ali foram 
procurá-lo e lhe entregaram o 
governo da cidade, que foi gover- 
nada por ele até que Messer Gio- 


vanni alcançasse idade suficiente 


para reinar. 

Concluo, portanto, afirmando 
que a um príncipe pouco devem 
importar as conspirações se é 
amado pelo povo, mas quando 
este é seu inimigo e o odeia, deve 
temer tudo e a todos. Os Estados 
bem organizados e os príncipes 
prudentes preocuparam-se sem- 
pre em não reduzir os grandes ao 
desespero e satisfázer e contentar 
o povo, porque essa é uma das 


questões mais importantes que . 


um principe deve ter em mente. 
Em nossos tempos, entre es rei- 


nos bem organizados e governa- 
dos, deve-se enumerar o de Fran- 
ça. Encontram-se nele numerosas 
boas instituições, das quais de- 
pendem a liberdade e a segurança 
do rei. A primeira delas é o Par- 
lamento e a autoridade que pos- 
sui, pois o homem que organizou 
aquele reino, conhecendo, de um 
lado, a ambição e a insolência 
dos poderosos, e julgando neces- 
sário pór-lhes um freio à boca 
para corrigilos, e, de outro, 
conhecendo o ódio do povo con- 
tra os grandes, motivado pelo 
medo, e querendo protegê-los, 
não permitiu que essa tarefa 
ficasse a cargo do rei, para 
desculpá-lo da acusação dos 
grandes quando favorecesse o 
povo, e do povo quando favore- 
cesse os poderosos. Por isso 
constituiu um terceiro juízo que 
fosse aquele que, sem responsabi- 
lidade do rei, deprimisse os gran- 
des e favorecesse: os menores. 
Essa organização não podia ser 
melhor nem mais prudente, nem 
se pode negar que seja a melhor 
causa de segurança do rei e do 
reino. Pode-se daí tirar notável 
instituição; os príncipes devem 
encarregar a outrem da imposi- 
ção de penas; os atos de graça, 
pelo contrário, só a eles mesmos, 
em pessoa, devem estar afetos. 
Concluo novamente que um prín- 
cipe deve estimar os grandes, 


86 MAQUIAVEL 


mas não se tornar odiado pelo 
povo. 


Poderia parecer a muitos, con- 


siderando-se a vida e morte de 
certos imperadores romanos, que 
constituíssem exemplos contrá- 
rios a esta minha opinião, sendo 
que alguns deles, apesar de terem 
vivido sempre exemplarmente e 
demonstrado possuir grandes vir- 
tudes, perderam o poder, ou 
foram mortos pelos seus, que 
contra ele conspiraram. Dese- 
jando responder a estas objeções, 
narrarei as causas da sua ruína, 
que são diferentes das que aduzi, 
procurando tomar  particular- 
mente em consideração aquelas 
que parecem notáveis a quem lé 
as ações daqueles tempos. Bas- 
ta-me citar todos os imperadores 
que se sucederam no governo, 
desde o filósofo Marco Aurélio 
até Maximino, os quais foram 
Marco, seu filho Cômodo, Perti- 
nax, Juliano, Severo, o filho deste 
— Antonino, Caracala, Macrino, 
Heliogábalo, Alexandre e Maxi- 
mino. - Deve-se primeiramente 
atentar em que, enquanto nos ou- 
tros principados é necessário 
lutar apenas contra a ambição 
dos grandes e a insolência do 
povo, os imperadores romanos ti- 
nham pela frente uma terceira 
dificuldade, que era a de ter que 
suportar a crueldade e a rapaci- 
dade dos soldados. Esta dificul- 


dade era tão grande que se tor- 
nou a causa da ruína de muitos, 
pois é difícil satisfazer a um 
tempo aos soldados e ao povo, 
pois que este, amante da paz, 
amava, consequentemente, os 
principes modestos, e os soldados 
estimavam o príncipe que pos- 
suísse ânimo guerreiro e que 
fosse insolente, cruel e rapace. 
Queriam que ele usasse dessas 
qualidades contra o povo para 


"poder ganhar soldo dobrado e 


dar largas à sua rapacidade e 
crueldade. Isso fez com que os 
imperadores que, por natureza ou 
por habilidade, não tinham repu- 
tação suficiente para refrear os 
soldados nem o povo sempre se 
arruinassem. E a maior parte 
deles, especialmente os novos que 
conquistavam o principado, ao 
conhecerem a dificuldade desses 
dois elementos, procuravam sa- 
tisfazer aos soldados, não dando 


- importância às ofensas ao povo; 


era necessário tomar esse parti- 
do, pois, não -sendo possivel aos 
principes deixar de ser odiados 
por alguém, deviam eles esfor- 
çar-se antes de mais nada por 
não ser odiados pela maioria. E 
quando não o podem conseguir, 
devem procurar, com muita habi- 
lidade, fugir ao ódio das maiorias 
mais poderosas. Por isso; os 
imperadores que, por serem 
novos, precisavam de favores 


O PRÍNCIPE 87 


extraordinários, aderiram aos 
soldados antes de aderir ao povo, 
o que se lhes tornava útil ou não, 
conforme esse principe soubesse 
manter à reputação entre eles. 
Por estas causas referidas é que 
Marco, Pertinax e Alexandre, ho- 
mens de vida modesta, amantes 
da justiça, inimigos da crueldade, 
humanos e benignos, todos, com 
exceção de Marco, tiveram triste 
fim. Só este viveu e morreu 
honradíssimo porque chegou ao 
poder jure hereditario? * e não lhe 
era necessário fazer reconhecer o 
seu poder, nem pelo povo, nem 
pelos soldados. Ademais, sendo 
portador de muitas virtudes, que 
o tornavam venerando, enquanto 
viveu, sempre manteve a ambos, 
povo e exército, em ordem, nos 
seus justos termos, e nunca foi 


odiado nem desprezado. Perti-- 


nax, porém, foi feito imperador 
contra a vontade dos soldados, 
os quais, tendo sido habituados a 
viver licenciosamente sob o do- 
mínio de Cômodo, não puderam 
suportar a vida honesta que Per- 
tinax tencionava impor-lhes. Por 
isso, tendo ele despertado ódio, e 
tendo-se ao ódio juntado o des- 
prezo, pelo fato de ser velho, Per- 
tinax arruinou-se logo nos princi- 
pios de sua administração. E é de 
notar-se aqui que o ódio se 


24 Por direito hereditário. 


adquire quer pelas boas, quer 
pelas más ações. Por isso, um 


príncipe, querendo manter o Es- 


tado como disse mais acima, é 
frequentemente obrigado a não 
ser bom, porque quando aquela 
maioria, povo, soldados ou gran- 
des que sejam, de que tu julgas 
ter necessidade para te manteres 
no poder, é corrompida, convém: 
que sigas o seu pendor para satis- 
fazê-la, e, nesse caso, as boas 
ações são prejudiciais. Mas fale- 
mos de Alexandre, que foi tão 
bondoso que entre os louvores 
que se lhe atribuem está o de não 
ter, durante os catorze anos que 
manteve o império, mandado . 
executar quem quer que fosse 
sem prévio julgamento. Apesar 
disso, sendo considerado efemi- 
nado e homem que se deixava 
dominar pela mãe e tendo por 
isso caído no desprezo, o exército 
conspirou e ele foi assassinado. 
Falando, agora, de outro lado, 
das qualidades de Cômodo, Seve- 
ro, Antonino, Caracala e Maxi- 
minó, vereis que foram extrema- 
mente cruéis e rapaces. Para 
satisfazer os soldados, não deixa- 
ram de cometer nenhuma daque- 
las injúrias que se pudessem 
cometer contra o povo, e todos, 
excetuando-se Severo, tiveram 
triste fim. É que Severo foi tão 
valoroso que, mantendo a amiza- 
de dos soldados, embora opri- 


88 MAQUIAVEL 


mindo o povo, pôde sempre rei- 
nar com felicidade, porque 
aquelas suas virtudes o tornavam 
tão admirável no conceito dos 
soldados e do povo, que este fica- 
va, de certa forma, atônito, e 
aqueles, reverentes e satisfeitos. 
Conhecendo Severo a ignávia do 
Imperador Juliano, persuadiu o 
exército, do qual era capitão na 
Ilíria, de que era oportuno ir a 
Roma, para vingar a morte de 
Pertinax, assassinado pelos pre- 
torianos, e, sob esse pretexto, sem 
aparentar que aspirava ao poder, 
conduziu o seu exército contra 
Roma, e chegou à Itália antes 
mesmo da notícia da sua partida. 
Chegado a Roma, foi ele, pela 
pressão do medo, eleito impera- 
dor pelo Senado, e assassinado 
Juliano. Depois disso, restavam 
ainda duas dificuldades a Severo 
para se assenhorear de todo o 
Estado: uma, na Ásia, onde Pes- 
cênio Negro, chefe dos exércitos 
“asiáticos, se proclamara impera- 


dor; e outra no Ocidente, onde 
Albino também queria súbir ao 
império. E como julgasse peri-' 


goso declarar-se inimigo dos 
dois, deliberou atacar Pescênio 
Negro e enganar Albino. A este 
escreveu que, tendo sido eleito 
imperador pelo Senado, queria 
“dividir com ele aquela honra; 
mandou-lhe o título de César e, 
por deliberação do Senado; tor- 


nou-o seu colega. Albino julgou 
que tais coisas fossem verdade, 
mas Severo, depois de ter vencido 
e morto Pescênio Negro e pacifi- 
cado o Oriente, voltou a Roma e 
se queixou no Senado de que 
Albino, esquecido dos benefícios 
dele recebidos, tentara matá-lo 
traiçoeiramente e, por isso, era 
obrigado a ir punir a ingratidão. 
Depois, foi ao seu encontro, nas 
Gálias, e lhe tirou o governo e a 
vida. Quem examinar cuidadosa- 
mente as ações deste homem aca- 
bará por julgá-lo um ferocissimo 
leão e uma astutíssima raposa e 
verá que foi temido e reveren- 
ciado por todos e não odiado 
pelo exército, e não se admirará 
se ele — homem novo — pôde 
manter tão grande poder; é que a 
sua alta reputação o defendeu 
sempre daquele ódio que o povo 
lhe poderia ter votado, em virtu- 
de das suas rapinagens. E Anto- 
nino, seu filho, foi também 
homem que tinha excelente pro- 
ceder, que o tornava maravilhoso 
no conceito do povo e benquisto 
pelos soldados, porque era mili- 
tar, suportava otimamente qual- 
quer fadiga e desprezava os man- 
jares delicados e quaisquer 
outros elementos de conforto: 
isso era o suficiente para fazer 


' Com que se tornasse estimado por 


todos os exércitos. Não obstante, 
sua ferocidade e crueldade foram 


| 
| 


O PRÍNCIPE 89 


tão grandes e inauditas, que man- 
dou matar grande número de 
particulares e assim sacrificou 
grande parte do povo de Roma e 
todo o de Alexandria, de tal 
modo que se tornou muitíssimo 
odiado por todos e começou a ser 
temido também por aqueles que 
com ele privaram e, afinal, foi 
assassnado por um centurião, 
em meio de seu exército. É de 
notar-se neste ponto que tais 
assassínios, deliberados por ho- 


mens obstinados, são impossíveis 


de evitar pelos príncipes, pois que 
todo aquele que não temer a 
morte poderá executá-los. Não 
deve, porém, o principe temori- 
“zar-se, porque são muito raros. 
Deve apenas guardar-se de não 
injuriar gravemente alguma das 
pessoas de que se serve e que ele 
tem junto a si, a serviço do seu 
principado, como fez' Antonino. 
Havia este assassinado indigna- 
mente um irmão daquele centu- 
rião, € ainda ameaçava este todo 
dia; mas, apesar disso, conser- 
vou-o na.sua guarda, O que vinha 
a ser coisa-temerária e capaz de 
arruiná-lo, como aconteceu. 
Passemos agora a Cômodo, a 
quem teria sido fácil manter o 
poder, por tê-lo alcançado jure 
hereditário, sendo filho de 


Marco, e lhe bastava apenas se- 
guir as pegadas do pai para con- 
tentar o exército e o povo. Mas, 


como era de índole cruel e bes- 
tial, para poder usar da sua rapa- 
cidade contra o povo, pôs-se a 
favorecer os soldados e os tornou 
licenciosos; por outra parte, não 
se preocupando com a dignidade, 
descendo frequentemente às are- 
nas para combater com os gla- 
diadores e fazendo outras coisas 
vis, pouco dignas da majestade. 
imperial, tornou-se desprezível 
no conceito dos soldados. Ten- 
do-se tornado, dessa forma, odia- 
do por uns e desprezado por 
outros, conspirou-se contra ele e 
foi assassinado. Resta-nos narrar 
as qualidades de Maximino. Este 
foi homem extraordinariamente 
belicoso, e, estando os exércitos 
enfastiados com a passividade de 
Alexandre, de que falei acima, 
morto este, elegeram-no para o 
governo. Maximino, porém, não 
reinou por muito tempo, porque 
duas coisas o tornaram odiado e 
desprezado:. primeiro, ser de 
baixa extração, pois já fora pas- 
tor na Trácia (fato que era conhe- 
cido por todos e o rebaixava 
muito no conceito de toda a 
gente); segundo, tendo, quando 
da sua elevação ao império, adia- 
do a sua ida a Roma para entrar 
na posse da dignidade imperial, 
dera de si fama de ser muito 
cruel, pois, por intermédio dos 
seus prefeitos, em Roma e em 
toda a parte, perpetrara numero- 


90 MAQUIAVEL 


sas perversidades. Assim, movi- 
do todo o mundo pelo desprezo 
de sua baixa ascendência e cheio 
de ódio pelo temor da sua feroci- 
dade, surgiram as conspirações. 
Revoltou-se primeiramente a 
África; depois, o Senado e todo o 
povo romano, e, mais tarde, toda 
a Itália esteve contra ele. Juntou- 
se a esse movimento o seu pró- 
prio exército, o qual estava em 
campanha, sitiando Aquiléia, e, 
tendo encontrado dificuldade 
para isso, enraivecido pela cruel- 
dade do príncipe, suprimiu-o, 
pois o viu cercado de inimigos € 
já não o temia. 

Não quero falar de Heliogá- 
balo, nem de Macrino, nem de 
Juliano, os quais, por terem sido 
inteiramente menosprezados, ex- 
tinguiram-se logo; não quero 
falar destes, dizia, e sin passar à 
conclusão deste assunto. Assim, 
digo que os príncipes dos nossos 
tempos no seu governo não têm 
esta dificuldade de dar satisfa- 
ções exorbitantes aos soldados, 
pois, não obstante se deva ter 
para com aqueles certa conside- 
ração, rapidamente resolve-se a 
situação, por não ter nenhum 
desses príncipes um exército que 
se tenha desenvolvido com os 
governos e administrações das 
províncias, como era nos exérci- 
tos do Império: Romano. E, se 
naquela época era necessário sa- 


tisfazer mais aos soldados do que 
ao povo, agora é mais necessário 
a todos os príncipes — exceto ao 
grão-turco e ao sultão do Egito 
— satisfazer mais ao povo do 
que ao exército, porque este é 
menos poderoso do que aquele. 
Excetuo o grão-turco pelo fato de 
conservar este em torno de si 


doze mil infantes e quinze mil 
soldados de cavalaria, sendo que 
disso dependem a segurança e o 
poder do seu reino. É necessário, 


portanto, que, em lugar de qual- 
quer outra consideração para 
com outrem, aquele seja amigo 
dos exércitos. A mesma coisa su- 
cede ao reino do sultão do Egito; 


estando tudo nas mãos dos solda- 
dos, convém também a ele man- 
tê-los como seus amigos, sem se 
preocupar com o povo. 


E deve-se notar que este reina- 
do do sultão é diferente de todos 
os outros principados porque é 
semelhante ao papado, o qual 
não se pode classificar nem como 
principado hereditário, nem 
como principado novo, posto que 
não são os filhos do príncipe an- 
tigo que se tornam herdeiros e 
ficam senhores, mas sim aqueles 
que são elevados a esse posto por 
aqueles que têm autoridade. E, 
como isso seja uma antiga imsti- 
tuição, não se pode chamar de 
principado novo; e também por- 


! 


O PRÍNCIPE 91 


que naqueles não existem as difi- 
culdades existentes nestes, pois, 
embora o principe seja novo, a 
organização do Estado é velha. E 
os govêrnantes são obrigados a 
recebê-lo como se fossem senho- 
res hereditários. 

Voltemos, porém, ao nosso 
assunto. Direi que quem conside- 
rar o que acima referi verá como 
o ódio ou o desprezo foram cau- 
sas da ruína dos imperadores 
mencionados e conhecerá tam- 
bém os motivos por que, parte 
daqueles procedendo de uma 
forma, e outros, de maneira con- 
trária, alguns deles terminaram 
bem e outros tiveram triste fim; e 
também por que a Pertinax e Ale- 
xandre, por serem principes 


novos, foi inútil e danoso querer 
imitar Marco, que no principado 
estava jure hereditario. Igual- 
mente, por que a Caracala, Có- 
modo e Maximino foi pernicioso 
imitar a Severo, por não terem 
possuído tanta virtude que bas- 
tasse para que pudessem seguir- 
lhe o caminho. Um príncipe 
novo, num principado novo, não 
pode, portanto, imitar as ações 
de Marco, nem da mesma forma, 
é necessário imitar as de Severo. 
Deve, sim, aproveitar de Severo 
as qualidades que forem necessá- 
rias para fundar o seu Estado, e, 
de Marco, aproveitar as que 
sejam gloriosas e convenham 
para manter um Estado que já es- 
teja estabelecido e firme. 


CAPÍTULO XX 


e 


Se as fortalezas e muitas outras coisas que dia a dia 
são feitas pelo principe são úteis ou não 


Alguns príncipes, para manter 
seguramente o Estado, desarma- 
ram os seus súditos, outros divi- 
diram as cidades conquistadas 
conservando facções para com- 
bater-se mutuamente, outros ali- 
mentaram inimizades contra si 
mesmos, outros dedicaram-se à 
conquista do apoio daqueles que 
lhes eram suspeitos no início de 
seu governo, alguns outros edifi- 
caram fortalezas, outros, ainda, 
as arruinaram. E, se bem que 


todas estas coisas não se possam. 


julgar em definitivo se não se 
examinarem as particularidades 
dos Estados onde se tivesse que 
tomar qualquer destas delibera- 
ções, falarei contudo de um 
ponto de vista' geral, compatível 
com a própria matéria. 

Nunca um príncipe novo de- 
sarmou os seus súditos, antes, 
sempre que os encontrou desar- 
mados, armou-os. Essas armas 


ficarão tuas e se tornarão fiéis 
aqueles que te eram suspeitos, . 
mantêm-se fiéis aqueles que já o 
eram, e de súditos se trans- 
formam em teus auxiliares. E 
como não se pode armar a todos 
os súditos, uma vez que benefi- 
cies aqueles a quem armas, podes 


“agir mais seguramente com rela- 


ção aos outros. A diferença de 
tratamento para com aqueles 
obriga-os para contigo, € os ou- 
tros desculpar-te-ão julgando ne- 
cessário que maior recompensa 
tenham os que estão expostos a 
maiores perigos e estão mais liga- 
dos a ti por efeito mesmo dessas 
obrigações. 

Desarmando-os, principias por 
ofendê-los, mostrando que duvi- 
das deles, seja porque és covarde, 
seja porque não confias neles. 
Qualquer destas opiniões criará 
ódio contra ti. E como não podes 
ficar desarmado, convém que te 


94 | MAQUIAVEL 


voltes para a milícia mercenária, 
cujas qualidades acima referi. 
Mesmo que fosse boa, não pode 
ter tanta força suficiente para te 
defender dos inimigos poderosos, 
e dos súditos suspeitos. Como 
disse, um novo príncipe, num 
principado novo, sempre organi- 
zou a força armada. Destes 
exemplos a história está cheia. 
Mas quando um príncipe con- 
quista um novo Estado que seja 
anexado aos domínios, então é 
necessário desarmar aquele Esta- 
do, exceto aqueles que tenham 
colaborado contigo para que o 
conquistasses, e mesmo a estes é 
necessário, com o tempo, tornar 
apáticos e amolecidos, de modo 
que todas as armas desse Estado 
estejam com teus próprios solda- 
dos, que viviam junto de ti no Es- 
tado antigo. 

Os nossos antepassados e 
aqueles que eram tidos como pru- 
dentes, costumavam dizer que 
Pistóia tinha de ser mantida pela 
divisão dos partidos, e Pisa pelas 
fortalezas, e assim agiam de 
maneira diversa nas cidades con- 
quistadas para poder conservá- 
las mais facilmente. Essa era a 
política mais sábia provavel- 
mente, naqueles tempos em que a 
Itália estava de certo modo equi- 
librada, mas não creio que possa 
servir hoje como preceito; não 
acredito que as divisões trouxes- 


sem qualquer bem; antes, pelo 


- contrário, acontece que, quando 


o inimigo se avizinha, as cidades 
divididas perdem-se logo, porque 
a parte mais fraca aderirá às for- 
ças externas e a outra não se 
poderá manter. Os venezianos, 
obedecendo, como creio, as ra- 
zoes mencionadas, costumavam 
fomentar as facções guelfas e 
gibelinas nas cidades que esta- 
vam sob o seu domínio. E, se 
bem que não os deixassem chegar 
atê à luta, alimentavam essas 
discordâncias, para que, ocupa- 
dos os cidadãos naquelas suas 
diferenças, não se unissem contra 
eles. Isso, como se viu, não lhes 
deu bons resultados, porque, 
tendo os venezianos sido desba- 
ratados em Vailáã, algumas da- 
quelas cidades tomaram ânimo e 
lhes arrebataram todos os territó- 
rios. Tal política revela, portanto, 
fraqueza do principe, porque 
num principado poderoso jamais 
se permitirão semelhantes divi- 
soes; elas são proveitosas apenas 
nos tempos de paz, podendo-se 
mediante esse sistema governar 
os súditos mais facilmente. Em 
vindo a guerra, porém, percebe-se 
a sua falácia. Os príncipes se tor- 
nam grandes, sem dúvida, quan- 
do superam as dificuldades e a 
oposição que se lhes movem. 
Assim, a fortuna, máxime quan- 


do quer engrandecer a um novo 
! 


O PRÍNCIPE 95 


príncipe, o qual tem mais necessi- 
dade de conquistar reputação do 
que um hereditário, suscita-lhe 
inimigos que o guerrejam a fim 
de que tenha ele a oportunidade 
de vencê-los e subir mais, valen- 
do-se daquela escada que os pró- 
prios inimigos lhe estendem. 
Muitos julgam, por isso, que um 
príncipe sábio, quando tiver oca- 
sião, deve fomentar com astúcia 
certas inimizades contra ele 
mesmo, a fim de que pela vitória 
sobre os inimigos mais se possa 
engrandecer. Os príncipes, e prin- 
cipalmente os recentes, têm en- 
contrado mais fé e maiores utili- 
dades nos homens que no início 
do seu governo lhes eram suspei- 
tos, do que naqueles que, naquela 
ocasião, lhes haviam inspirado 
confiança. Pandolfo Petrucci, se- 
nhor de Siena, dirigia o Estado 
mais com o auxílio daqueles de 
quem suspeitara do que daqueles 
em que tivera confiança. Mas de 
tal matéria não é possível estabe- 
lecer regras gerais, pois variam 
muito as circunstâncias de cada 
caso. Direi apenas que os ho- 
mens que foram hostis à funda- 
ção de um novo governo, para 
manter-se, carecem eles mesmos 
de apoio, e o príncipe sempre 
poderá conquistá-los com grande 
facilidade. Eles, por sua vez, são 
forçados a servilo com tanto 
maior lealdade quanto reconhe- 


çam a necessidade de anular, 
pelas ações, aquela péssima opi-, 
nião que tinha o príncipe a seu 
respeito. Assim, a este aproveil- 
tam mais os serviços dos antigos 
adversários do que os daqueles 
que, por ter demasiada seguran- 
ça, negligenciam os interesses do 
príncipe. 

Agora, como a matéria mesma 
o proporciona, não quero deixar 
de lembrar aos príncipes que te- 
nham tomado recentemente a 
direção de um Estado, mediante 
o favor da população, que consi- 
derem bem que razão os terá le- 
vado a favorecê-los: e se ela não 
for afeição natural para com eles, 
e sim o descontentamento cóm o 
antigo governo, ao principe só 
muito dificilmente será possível 
conservar a amizade daqueles, 
pois será impossivel satisfazê-los. 
E considerando bem, com os 
exemplos que há das coisas anti-. 
gas e modernas, relativamente à 
razão deste fato, ver-se-á que ao 
principe é muito mais fácil con- 
quistar a amizade daqueles ho- 
mens que estavam contentes com 
o regime antigo, sendo, portanto, 
seus inimigos, do que a daqueles 
que, por descontentes, fizeram-se 
seus amigos €e aliados, ajudando- 
o na conquista do Estado. 

Tem sido hábito dos príncipes, 
para poder manter mais segura- 
mente o seu Estado, edificar for- 


96 MAQUIAVEL 


talezas que sejam o bridão e o 
freio dos que tivessem a intenção 
de atacá-lo, e possuir um refúgio 
seguro no caso de sofrer um ata- 
que inesperado. Louvo este modo 
de agir, porque é usado desde os 
tempos remotos; apesar disso, 
Messer Niccolo Vitell, em nos- 
sos tempos, viu-se na contin- 
gência de destruir duas fortalezas 
na Cidade do Castelo para poder 
manter aquele Estado. Guido 
Ubaldo, duque de Urbino, recon- 
quistando o seu domínio, de onde 
fora expulso por César Bórgia, 
destruiu, desde os alicerces, todas 
as fortificações daquela provin- 
cia, e julgou que sem elas seria 
mais difícil perder o Estado no- 
vamente. Os Bentivoglio, regres- 
sando a Bolonha, tiveram o 
mesmo procedimento. As fortale- 
zas, portanto, são úteis ou não 
segundo as circunstâncias, e se 
fazem bem, por um lado, arruí- 
nam-te por outro. Pode-se expli- 
car este fato da seguinte maneira: 
o príncipe que tiver mais medo 
do seu povo do que dos estran- 
geiros deve construir fortifica- 
ções, mas aquele que tiver mais 
temor dos estranhos do que do 
povo não deve preocupar-se com 
isso. O castelo de Milão, - edifi- 
cado por Francesco Sforza, foi e 
será maior motivo de perturba- 
ções para a casa dos Sforza do 


que outra coisa naquele Estado. 
Mas ainda a melhor fortaleza que 
possa existir é o não ser odiado 
pelo povo, pois que, se tiveres 
fortificações e fores odiado por 
ele, elas não poderão salvar-te, 
pois não faltam nunca aos povos 
rebelados principes estrangeiros 
que desejem ajudá-los. Em nos- 
sos tempos, observa-se que as 
fortalezas não deram proveito a 
nenhum principe, a não ser à 
Condessa de Forli, quando mor- 
reu o Conde Girolamo?*º, seu 
esposo, porque graças às fortale- 
zas ê que pôde escapar à fúria 
popular e esperar socorros de 
Milão, conservando assim o seu 
Estado. E a época era tal que os 
de fora não podiam socorrer o 
povo. Sem embargo, também à 
Condessa de Forh as fortalezas 
pouco adiantaram, quando César 
Bórgia lhe assaltou o Estado e o 
povo, inimigo daquela, formou 
ao lado do conquistador. Portan- 
to, quer nessa ocasião, quer 
antes, teria sido mais seguro para 
ela não ser odiada pelo povo do 
que possuir fortalezas. Conside- 
rando-se, pois, todas estas coisas, 
louvarei os que construírem for- 
talezas e também os que não as 
construírem, e lamentarei aqueles 


25 Ver no índice dos nomes citados o nome 
Senhora de Forli 


O PRÍNCIPE 97 


que, fiando-se em tais meios de o fato de serem odiados pelo 
defesa, não se preocuparem com povo. 


“CAPÍTULO XXI 


O que a um principe convém realizar 
para ser estimado 


Nada faz estimar tanto um 
principe como os grandes em- 
preendimentos e o dar de si raros 
exemplos. “Temos, nos nossos 
tempos, Fernando de Aragão, 
atualmente rei de Espanha. A 
“este príncipe pode-se chamar 
quase que de novo, porque de um 
rei fraco se tornou, pela fama .e 
pela glória, o primeiro rei cristão; 
e se considerardes as suas ações, 
vereis que são todas altíssimas, 
havendo algumas  extraordi- 
nárias. No começo de seu reina- 
do, assaltou Granada, e esse 
empreendimento constituiu a 
base de seu Estado. Primeiro, 
agiu despreocupadamente e com 
a certeza de que não seria impe- 
dido: os barões de Castela, com a 
atenção presa na guerra referida, 
não cogitavam de fazer inova- 
ções. Fernando conquistava, 
então, naquele meio, reputação e 
autoridade sobre eles, que disso 


não se apercebiam. Com dinheiro 
da Igreja e do povo, pôde manter 
exércitos e, por uma longa guer- 
ra, assentar as bases do seu pró- 
prio renome como militar. Além 


“disso, para poder lançar-se em 


maiores empresas, servindo-se 
sempre da religião, dedicou-se a 
uma piedosa crueldade expul- 
sando e livrando seu reino dos 
marranos, exemplo extremo de 
piedade. Sob essa mesma capa de 
religião, assaltou a África; levou 
a efeito a expedição da Itália; 
mais tarde, assaltou a França, e 
assim sempre fez e urdiu grandes 
coisas, que mantiveram sempre 
em suspenso e cheios de admira- 
ção os ânimos de seus súditos, 
empolgados pela espera do suces- 
so final desses feitos. E nasceram 
estas suas ações de tal modo que, 
entre uma e outra, nunca deu 
tempo aos homens de poder agir 
contra ele. É ainda muito conve- 


100 MAQUIAVEL 


niente a “um principe dar raros 
exemplos quanto ao seu governo 
(semelhante aqueles que se nar- 
ram de Messer Bernabo de 
Milão); quando alguém tenha 
realizado qualquer coisa de ex- 
traordinário, de bem ou de mal 
na vida civil, para premiá-lo ou 
punilo o príncipe deve agir de 
modo tal que dê margem a largos 
comentários. E, sobretudo, deve 
um príncipe trabalhar no sentido 
de, em cada ação, conquistar 
fama de grande homem. É ainda 
estimado um príncipe quando 
sabe ser verdadeiro amigo e ver- 
dadeiro inimigo, isto é, quando, 
sem qualquer preocupação, age 
abertamente em favor de alguém 
contra um terceiro. Esse partido 
será sempre mais útil do que o 
conservar-se neutro, porque se 
dois poderosos vizinhos teus se 
puserem a brigar, ou são de qua- 
lidade que, vencendo um deles, 
tenhas que temer o vencedor, ou 
não. Em qualquer caso ser-te-á 
sempre mais útil descobrir-te e 
fazer guerra de fato, porque no 
- primeiro caso, se não te descobri- 
res, serás sempre presa de quem 
vencer, com grande prazer da- 
quele que foi vencido, e não tens 
razão nem coisa alguma em tua 
defesa, nem quem te acolha. 
Quem vence não quer amigos 
suspeitos e que não ajudem nas 
adversidades; quem perde não te 


aceitará porque não quiseste, de 
armas na mão, correr a mesma 
sorte. Foi Antíoco para a Grécia 
a chamado dos etólios para ex- 
pulsar. os romanos. Antioco en- 
viou embaixadores aos aqueus, 
que eram aliados dos romanos, 
para concitá-los a se manterem 
neutros; por outro lado, os roma- 
nos tratavam de persuadi-los 
para que tomassem armas contra 
aquele. Esta matéria veio a discu- 
tir-se no concílio dos aqueus, 
onde o delegado de Antíoco tra- 
tava de fazer com que se manti- 
vessem neutros, ao que o dele- 
gado dos romanos respondeu: 
Quod autem isti dicunt non inter- 
ponendi vos bello, nihil magis 
alienum rebus vestris est; sine 
gratia, sine dignitate, praemium 
victoris eritis2 8”. E acontecerá 
sempre que aquele que não é teu 
amigo pedir-te-à que sejas neutro 
e aquele que é teu amigo pedirá 
que tomes de armas abertamente. 
E os príncipes irresolutos, para se 
afastarem destes perigos, seguem, 
as mais das vezes, aquela linha 
neutra, e quase sempre são mal 
sucedidos. Mas quando corajosa- 
mente tomas partido franco por 
um dos contendores, se aquele 
com quem te ligaste vencer, 


28 “Quanto à opinião de que não deveis inter- 
vir na guerra, nada é mais nocivo aos vossos 
próprios interesses, pois sem compensação e 
ingloriamente. sereis presa do vencedor.” 


O PRÍNCIPE 


ainda que seja poderoso e que fi- 
ques à sua mercê, terá ele obriga- 
ções para contigo e é compelido 
a ter amizade por ti; e os homens 
não são nunca tão maus que 
queiram oprimir a quem devem 
ser gratos. Ademais, as vitórias 
não são nunca tão completas que 
o vencedor não tenha que levar 
em conta outras considerações, 
principalmente de justiça. 

Mas, se aquele a quem ajudas 
perder, serás socorrido por, ele 
quando puder, e, nesse caso, fica- 
rás ligado a uma fortuna que 
pode ressurgir. No segundo caso, 
quando os combatentes são tais 
que não tenhas de te arrecear da 
vitória de qualquer, a tua aliança 
com um deles é tanto mais pru- 
dente quanto assim provocarás a 
ruína de um com o auxílio de 
quem o deveria salvar, se fosse 
sábio, e vencendo tu, o teu aliado 
ficará à tua discrição € é impos- 
sivel que não vença com a tua 
ajuda. 

Note-se agora que um príncipe 


deve ter o cuidado de nao fazer 


aliança com um que seja mais 
poderoso, senão quando a neces- 
sidade o compelir, como se expôs 
acima, pois que, vencendo, ficará 
prisioneiro do aliado; e os prínci- 
pes devem evitar o mais que pos- 
sam a situação de estar à mercê 
de outrem. Os venezianos alia- 
ram-se à França contra o duque 


101 


de Milão, e podiam deixar de efe- 
tuar tal união; e desse fato resul- 
tou a ruína deles. Mas quando 
não se pode deixar de fazer alian- 
ça, como aconteceu com os flo- 
rentinos quando o papa e a Espa- 
nha foram assaltar a Lombardia 
pelas armas, então o príncipe 
deve aderir, pelas razões acima. 
Não pense nunca nenhum gover- 
no poder tomar decisões absolu- 
tamente certas; pense antes em 
ter que tomá-las sempre incertas, 
pois isto está na ordem das coi- 
sas, que nunca deixa, quando se 
procura evitar algum inconve- 
niente, de incorrer em outro. A 
prudência está justamente em 
saber conhecer a natureza dos 
inconvenientes e adotar o menos 
prejudicial como sendo bom. 
Deve ainda um principe mos- 
trar-se amante .das virtudes e 
honrar os que se revelam grandes 
numa arte qualquer. Além disso, 
deve animar os seus cidadãos a 
exercer livremente as suas ativi- 
dades, no comércio, na agricul- 
tura e em qualquer outro terreno, 


de modo que o agricultor não 


deixe de enriquecer as suas pro- 


priedades pelo temor de que lhe 
sejam arrebatadas e o comer- 
ciante não deixe de desenvolver o 
seu negócio por medo de impos- 
tos. Pelo contrário, deve instituir 
prêmios para os que quiserem 


102 MAQUIAVEL 


realizar tais coisas e para todos 
os que, por qualquer maneira, 
pensarem em ampliar a sua cida- 
de ou o seu Estado. Além disso, 
deve, nas épocas propícias do 
ano, proporcionar ao povo festas 
e espetáculos. E como todas as 
cidades estão divididas em artes 


ou corporações de ofício, deve 
ocupar-se muito destas, indo ao 
seu encontro algumas vezes: dar 
provas de afabilidade e munifi- 
cência, mantendo sempre inte- 
gral, contudo, a majestade da sua 
dignidade, a qual não deve faltar 
em nada. 


CapítruLO XXII 


Dos ministros dos principes 


Não é de pequena importância 
para um principe a escolha dos 
seus ministros, os quais são bons 
ou não segundo a prudência 
daquele. E a primeira conjetura 
que se faz, a respeito das qualida- 
des de inteligência de um priínci- 
pe, repousa na observação dos 


homens que ele tem ao seu redor. 


Quando estes são competentes e 
fiéis, pode-se reputá-lo sábio, 
porque soube reconhecer as qua- 
lidades daqueles e mantê-los fiéis. 
Mas quando não são assim, po- 
de-se ajuizar sempre mal do 
senhor, porque o primeiro erro 
que cometeu está nessa escolha. 
Não houve ninguém que, conhe- 
cendo a Messer Antônio da Ve- 
nafro como ministro de Pandolfo 
Petrucci, senhor de Siena, não 
Julgasse a este um homem de 
muito valor pelo fato de ter esco- 
lhido Venafro para seu ministro. 
E como há três espécies de cabe- 
ças — uma, que entende as coi- 


sas por si mesma, outra que sabe 
discernir o que os outros enten- 
dem, e, finalmente, uma que não 
entende nem por si nem sabe 
ajuizar do trabalho dos outros (a 
primeira é excelente, a segunda 
muito boa e a terceira inútil) —, 
estavam todos de acordo, neces- 
sariamente, que,.se Pandolfo não 
estava no primeiro caso, estava 
pelo menos no segundo. Umia vez 
que se tem capacidade para co- 
nhecer o bem e o mal que outrem 
diga ou pratique, ainda que não 
tenha iniciativa própria, reconhe- 
cem-se as boas e más qualidades 
do ministro, exaltando as primet- 
ras e corrigindo as segundas. O 
ministro, assim, não pode ter 
esperança de enganar o principe 
e se conserva bom. 

Mas, para que um príncipe 
possa conhecer bem o ministro, 
há este modo que não falha 
nunca: quando vires que o minis- 
tro pensa mais em si próprio do 


104 MAQUIAVEL 


que em ti, e que em todas as suas 
ações procura tirar proveito pes- 
soal, podes ter a certeza de que 
ele não é bom, e nunca poderás 
fiar-te nele; e aquele que tem em 
mãos os negócios de Estado não 
deve pensar nunca em si próprio, 
mas sempre no príncipe, e nunca 
“lembrar-lhe coisas que estejam 
fora da esfera do Estado. 

Por outra parte, o principe, 
para assegurar-se do ministro, 
deve pensar nele, honrando-o, 


fazendo-o rico, obrigando-o para 
consigo, fazendo-o participar de 
honrarias e cargos, de modo que 
as muitas honrarias não lhe 
façam desejar outras, as muitas 
riquezas não lhe façam desejar 
maiores, € os muitos cargos não 
lhe façam temer mutações. Quan- 
do, pois, os ministros, e os prínci- 
pes com relação a estes, são 
assim, podem confiar uns nos 
outros; de outra forma, o fim será 
sempre mau para uns e outros. 


CAPÍTULO XXI 


De como se devem evitar os aduladores 


Não quero deixar de tratar de 
um capítulo importante sobre um 
erro do qual os principes só com 


dificuldade se defendem, se não. 


são muito prudentes ou não 
fazem boa escolha. Refiro-me 
aos aduladores de que as cortes 
estão cheias; porque os homens 
se comprazem tanto nas coisas 
próprias e de tal modo se enga- 
nam nestas, que é com dificul- 
dade que se defendem dessa 
peste; querendo-se evitá-la, há o 
perigo de se ser desconsiderado, 
pois não há outro modo de guar- 
dar-se da adulação, senão fazer 
com que os homens entendam 
não fazer-te ofensa por dizer a 
verdade;, mas, quando todos 
podem dizer-te a verdade, faltar- 
te-ão ao respeito. Um principe 
prudente deve, portanto, condu- 
zir-se de uma terceira maneira, 
escolhendo no seu Estado ho- 
mens sábios, e só a estes deve dar 
o direito de falar-lhe a verdade a 


respeito, porém, apenas das coi- 
sas que ele lhes perguntar. Deve 
consultá-los a respeito de tudo e 
ouvir-lhes a opinião e deliberar 
depois como bem entender e com 
conselhos daqueles, conduzir-se 
de tal modo que eles percebam 
que com quanto mais liberdade 
falarem, mais facilmente as suas 
opiniões serão seguidas. Proce- 
dendo doutro modo, o principe 
ou é precipitado pelos aduladores 
ou varia muitas vezes de parecer; 
daí se origina a falta de confian- 
ça. Quero, a este propósito, adu- 
zir um exemplo modemo: o 
Bispo Lucas, homem de Maximi- 
liano, o atual imperador, falando 
de Sua Majestade, disse que este 
não se aconselhava com pessoa 
alguma, mas também nunca se 
fiava unicamente no seu próprio 
juízo; isso se explica: pelo fato de 


ele não seguir nunca o conselho 


acima, pois o imperador, sendo 
homem discreto, não comunica 


106 


os seus desígnios a ninguém € a 
ninguém pede parecer. Mas, na 
ocasião de pôr em prática as suas 
decisões, os desígnios começam a 
ser conhecidos e manifestos, e, 
pois, a ser contraditos pelos que 
lhe estão em torno, e compreen- 
de-se então facilmente que o 
imperador se afasta do que tenha 
resolvido. Daí resulta que as coi- 
sas que faz num dia destrói no 
outro, e que não se saiba nunca o 
que ele quer, e ninguém pode pre- 
ver as suas deliberações. 

Um príncipe deve, portanto, 
aconselhar-se sempre, mas quan- 
do ele entender e não quando os 
outros quiserem; antes, deve tirar 
a vontade a todos de aconselhar 
alguma coisa sem que ele solicite. 
Todavia, deve perguntar muito e 
ouvir pacientemente a verdade 
acerca das coisas perguntadas. 
Até, achando que alguém, por 
qualquer temor, não lhe diga a 
verdade, não deve o principe dei- 
xar de mostrar o seu desprazer. 
Muitos entendem que os princi- 
pes que granjearam fama de pru- 
dentes devem-no não à sua natu- 


MAQUIAVEL 


reza, mas aos bons conselhos dos 
que lhes estão ao redor. É; um 
erro manifesto, porque é regra 
geral, que não falha nunca: um 
principe que não seja prudente 
por si mesmo não pode ser bem 
aconselhado, se por acaso não 
acatar o juizo de um só, muito 
sábio, que entenda de tudo. Este 
caso podia acontecer, mas dura- 
ria pouco; porque aquele que 
governasse de fato em breve 
tempo lhe tomaria o Estado. Mas 
aconselhando-se com mais de 
um, um principe que não seja 
sábio não terá nunca unidade de 
conselhos e nem saberá por si 
mesmo harmonizá-los. Cada um 
dos conselheiros pensará como 
quiser e ele não saberá corrigi-los 
nem ajuizar a respeito. E não 
pode ser de outra maneira, pois 
os homens sair-te-ão sempre 
maus, se por necessidade não se 
fizerem bons. O que se conclui 
daí é que os bons conselhos, de 
onde quer que provenham, nas- 
cem da prudência do príncipe e 
não a prudência do príncipe dos 
bons conselhos. 


CAPÍTULO XXIV 


Por que os príncipes de Itália 
perderam seus Estados 


Se forem observadas prudente- 
mente as coisas referidas, o prin- 
cipe novo parecerá de ascen- 
dência antiga e se tornará assim 
mais seguro e firme no Estado, 
do que se ele de fato aí estivesse 
há muito tempo. Um principe 
recente é muito mais vigiado em 
suas ações do que um hereditá- 
rio, e quando essas ações revelam 
virtude, atraem muito mais aos 
homens e os obrigam muito mais 
do que a antiguidade do sangue. 
É que os homens são muito mais 
sujeitos às coisas presentes do 
que às passadas e, quando encon- 
tram o bem naquelas, alegram-se 
e nada mais procuram, antes, 
tomarão a defesa do príncipe se 
este não falhar nas outras coisas 
às suas promessas. E ele dessa 
forma terá a dupla glória de ter 
fundado um principado novo e de 
o ter ornado e fortalecido com 


boas leis, boas armas e bons 


exemplos, assim como um antigo 
principe terá a dupla vergonha, 
por ter, nascendo príncipe, perdi- 
do o Estado pela sua pouca 
prudência. 


E, se se considerarem aqueles 
senhores que, em nossos tempos, 


na Itália, perderam seus Estados, 
como o rei de Nápoles, duque de 
Milão e outros, encontrar-se-ã 


neles, primeiro, um defeito 
comum quanto às armas, pelas 
razões já mencionadas; depois se 
verá que alguns deles ou foram 
hostilizados pelo povo ou, no 
caso contrário, não souberam 
neutralizar os grandes, porque 
sem estes defeitos não se perdem 
Estados tão fortes que possam 
pôr um exército em campo. 


Filipe da Macedônia, não o 
pai de Alexandre, mas o que foi 
vencido por Tito Quinto, não 
tinha domínios muito extensos, 


108 MAQUIAVEL 


em comparação à grandeza dos 
romanos e da Grécia, que o 
assaltaram: apesar disso, por ser 
um bom militar e homem que 
sabia não se tornar malquisto do 
povo e assegurar-se dos podero- 
sos, fez a guerra muitos anos 
contra aqueles, e se, afinal, per- 
deu algumas cidades, ficou-lhe 
contudo o reino. 

Assim, esses nossos príncipes 
que possuíram, por muitos anos, 
seus principados, para depois 
perdê-los, não acusem a sorte, 
mas sim a sua própria ignávia: 
porque não tendo nunca nas boas 
épocas pensado em que os tem- 
pos poderiam mudar (e é comum 
nos homens não se preocupar, na 
bonança, com as tempestades), 


quando vieram tempos adversos, 
pensaram em fugir e não em 
defender-se e esperaram qué as 
populações fatigadas da inso- 
lência dos vencedores os chamas- 
sem novamente. Esse recurso é 
bom, mas quando os outros fa- 
lham; é bem mau, porém, deixar 
os outros remédios em troca 
desse. 

Não desejarias cair só por cre- 
res que encontrarias quem te 


levantasse. Isso ou não acontece, 


ou, se acontecer, não te dará 
segurança, porque é fraco meio 
de defesa o que não depende de 
ti. E somente são bons, certos e 
duradouros os meios de defesa 
que dependem de ti mesmo e do 
teu valor. 


CAPÍTULO XXV 


De quanto pode a fortuna nas coisas humanas 
e de que modo se deve resistir-lhe 


Não me é desconhecido que 
muitos têm tido e têm a opinião 
de que as coisas do mundo são 
governadas pela fortuna é por 


Deus, de sorte que a prudência ' 


dos homens não pode corrigi-las, 
e mesmo não lhes traz remédio 
algum. Por isso, poder-se-ia jul- 
gar que não deve alguém incomo- 
dar-se muito com elas, mas dei- 
xar-se governar pela sorte. Esta 
opinião é grandemente aceita nos 
nossos tempos pela grande varia- 
ção das coisas, o que se vê todo 
dia, fora de toda conjetura huma- 
na. Às vezes, pensando nisso, me 
tenho inclinado a aceitá-la. Não 
obstante, e porque o nosso livre 
arbítrio não desapareça, penso 
poder ser verdade que a fortuna 
seja árbitra de metade de nossas 
ações, mas que, ainda assim, ela 
nos deixe governar quase a outra 
metade. Comparo-a a um desses 
rios impetuosos que, quando se 


encolerizam, alagam as planícies, 
destroem as àrvores, os edifícios, 
arrastam montes de terra de um 
lugar para outro: tudo foge dian- 
te dele, tudo cede ao seu ímpeto, 
sem poder obstar-lhe e, se bem 
que as coisas se passem assim, 
não é menos verdade que os 
homens, quando volta a calma, 
podem fazer reparos e barragens, 
de modo que, em outra cheia, 
aqueles rios correrão por um 
canal e o seu ímpeto não será tão 
livre nem tão danoso. Do mesmo 
modo acontece com a fortuna; o 
seu poder é manifesto onde não 
existe resistência organizada, di- 
rigindo ela a sua violência só 
para onde não se fizeram diques 
e reparos para contê-la. 

E, se considerardes a Itália, 
que é a sede e a origem destas 
revoluções, vereis que é ela como 
uma região sem diques e sem 
nenhuma barreira; e que, se fos- 


10 


se convenientemente protegida 
como a Alemanha, a Espanha e a 
França, ou as cheias não causa- 
riam as variações que há, ou 
mesmo não se teriam verificado. 
E com isso creio ter dito bastante 
acerca dos obstáculos que se 
podem opor à sorte, em geral. 
Mas,  restringindo-me aos 
casos particulares, digo que se vê 
hoje o sucesso de um príncipe e 
amanhã a sua ruína, sem ter ha- 
vido mudança na sua natureza, 
nem em algumas das suas quali- 
dades. Creio que a razão disso, 
conforme o que se disse anterior- 
mente, é que, quando um principe 
se apóia totalmente na fortuna, 
arruína-se segundo as variações 
daquela. Também julgo feliz 
aquele que combina o seu modo 
de proceder com as particulari- 
dades dos tempos, e infeliz o que 
faz discordar dos tempos a sua 
maneira de proceder. Em relação 
aos caminhos que os levam à 
finalidade que procuram, isto é, 
glória e riquezas, costumam os 
homens proceder de modos diver- 
sos: um com  circunspecção, 
outro com impetuosidade, um 
pela violência, outro pela astúcia, 
um com paciência, outro com a 
qualidade contrária, e cada um 
por estes diversos modos pode 
alcançar aqueles objetivos. Vê-se 
que, de dois indivíduos cautelo- 
sos, um chega ao seu desígnio e 


MAQUIAVEL 


outro não, e do mesmo modo, 
dois igualmente felizes, com dois 
modos diversos de agir, são um 
circunspecto e outro impetuoso, 
o que resulta apenas da natureza 
particular da época, e com a qual 
se conforma ou não o seu proce- 
dimento. Assim, como disse, dois 
agindo diferentemente alcançam 
o mesmo efeito, e dois agindo 
igualmente, um vai direto ao fim 
e o outro não. Disso dependem 
também as diferenças da prospe- 
ridade, pois se um se conduz com 
cautela e paciência e os tempos e 
as coisas lhe são favoráveis, o 
seu governo prospera e disso lhe 
advém felicidade. Mas se os tem- 
pos e as coisas mudam, ele se 
arruíina, porque não alterou o 
modo de proceder. Não se encon- 
tra homem tão prudente que 
saiba acomodar-se a isso, quer 
por não se poder desviar daquilo 
a que a natureza o impele, quer 
porque, tendo alguém prosperado 
num caminho, não pode resig- 
nar-se a abandoná-lo. Ora, o 
homem circunspecto, quando 
chega a ocasião de ser impetuo- 
so, não o sabe ser, e por isso se 
arruina, porque, se mudasse de 
natureza, conforme o tempo e as 
coisas, não mudaria de sorte. O 
Papa Júlio II procedeu em todas 
as coisas impetuosamente, e' en- 
controu tanto o tempo como as 
coisas conformes aquele seu 


O PRÍNCIPE 


modo de proceder, de forma que 
sempre alcançou êxito. Conside- 
rai a primeira expedição que rea- 
lizou em Bolonha quando ainda 
vivia Messer Giovanni Bentivo- 
glio. Os venezianos estavam con- 
tra o papa; o rei de Espanha, 
também. Enquanto ainda discu- 
tia com a França a respeito da 
expedição, começou a executá-la, 
pessoalmente, com violência e 
impetuosidade. 

Essa atitude fez com que se 
mantivessem inativos a Espanha 
e OS venezianos: estes, por medo, 
e aquela pelo desejo de recuperar 
todo o reino de Nápoles. De 
outro lado, fez-se seguir pelo rei 
de França, porque, tendo visto 
que ele começara a mover-se e 
desejando conservar a sua amiza- 
de para humilhar os venezianos, 
julgou não poder negar-lhe a sua 
gente sem com isso cometer uma 
injúria manifesta. Júlio realizou, 
portanto, com sua atitude impe- 
tuosa o que nenhum outro pontt- 
fice, com toda a humana prudên- 
cia, poderia realizar, pois se, para 
partir de Roma, esperasse ter 
todos os planos assentados e 
tudo organizado, como qualquer 
outro pontífice teria feito, jamais 
teria conseguido o que conseguiu, 


AA 


porque o rei de França teria: 
arranjado mil desculpas, e os ou- 
tros lhe teriam infundido mil 
receios. Não quero falar das ou- 


tras suas ações, todas iguais e 
todas felizes. A brevidade do seu 
reinado não lhe fez experimentar 
reveses; se chegasse o tempo de 
proceder com  circunspecção, 
ter-se-ia verificado a sua ruína, 
pois que ele nunca se desviaria 
do rumo para o qual o impelia 
sua natureza. Concluo, portanto, 
por dizer que, modificando-se a 
sorte, e mantendo os homens, 
obstinadamente, o seu modo de 
agir, são felizes enquanto esse 
modo de agir e as particulari- 
dades dos tempos concordarem. 
Não concordando, são infelizes. 
Estou convencido de que é me- 
lhor ser impetuoso do que cir- 
cunspecto, porque a sorte é mu- 
lher e, para dominá-la, é preciso 
bater-lhe e contrariá-la. E é geral- 
mente reconhecido que ela se 
deixa dominar mais por estes do 
que por aqueles que procedem 
friamente. A sorte, como mulher, 
é sempre amiga dos jovens, por- 
que são menos circunspectos, 
mais ferozes e com maior audá- 
cia a dominam. 


CarpíTULO XXVI 


Exortação ao príncipe para livrar 
a Itália das mãos dos bárbaros 


Consideradas, pois, todas as 
coisas acima referidas, e pen- 
sando comigo mesmo se, na Itá- 
«lia, os tempos presentes poderiam 
prometer honras a um príncipe 
novo e se havia matéria que 
desse, a um que fosse prudente e 
valoroso, oportunidade de intro- 
duzir uma nova ordem que lhe 
trouxesse fama e prosperidade 
para O povo, pareceu-me que há 
tantas coisas favoráveis a um 
principe novo que não sei de 
época mais propícia para a reali- 
zação daqueles propósitos. E 
como disse ter sido necessário, 
para que se conhecesse a virtude 
de Moisés, que o povo de Israel 
estivesse escravizado no Egito; 
para que se conhecesse a gran- 
deza de alma de Ciro, que os per- 
sas estivessem oprimidos pelos 
medas; e para se conhecer' o 
valor de Teseu, que os atenienses 
estivessem dispersos — assim, 
presentemente, querendo-se co- 


nhecer o valor de um príncipe ita- 
liano, seria necessário que a Itá- 
lia chegasse ao ponto em que se 
encontra agora. Que estivesse 
mais escravizada do que os he- 
breus, mais oprimida do que os 
persas, mais desunida que os 
atenienses, sem chefe, sem 
ordem, batida, espoliada, lacera- 
da, invadida, e que houvesse, 
enfim, suportado toda sorte de 
calamidades. E, se bem que te- 
nham surgido, até aqui, certas 
providências por parte de al- 
guém, que se teria podido julgar 
fossem inspiradas por Deus, para 
a redenção do país, viu-se depois 
como, no mais alto curso de suas 
ações, foi abandonado pela fortu- 
na? ”?. Assim, tendo ficado como 
sem vida, espera a Itália aquele 
que lhe possa curar as feridas e 
ponha fim ao saque da Lombar- 
dia, aos tributos do reino de Ná- 


27 Provavelmente, alusão a César Bórgia. 


114 


poles e da Toscana, e que cure as 
suas chagas já hã muito tempo 
apodrecidas. Vê-se que ela roga a 
Deus envie alguém que a redima 
dessas crueldades e insolências 
dos estrangeiros. Vê-se, ainda, 
que se acha pronta e disposta a 
seguir uma bandeira, uma vez 
que haja quem a levante. E não 
se vê, atualmente, em quem ela 
possa esperar mais do que na 
vossa ilustre casa, a qual, com a 
fortuna e valor, favorecida por 
Deus e pela Igreja — a cuja fren- 
te estã agora —, poderá consti- 
tuir-se cabeça desta redenção. 
Isso não será muito dificil se vos 
voltardes ao exame das ações e 
vida daqueles de quem acima se 
fez menção. E se bem que aqueles 
homens tenham sido raros e 
maravilhosos, foram, todavia, 
homens, e as ocasiões que tive- 
ram todos eles foram 
menos favoráveis do que a: pre- 
sente: porque os seus empreendi- 
mentos não foram mais úteis do 
que estes nem mais fáceis, nem 
Deus foi mais amigo deles do que 
vosso. É muito justa esta minha 
asserção: “Justum enim est bel- 
lum quibus necessarium, et pia 
arma ubi nulla nisi armis spes 
est?8”. Aqui tudo estã disposto 
favoravelmente; e onde isto se 


28 “Justa, na verdade, é a guerra, quando 
necessária, e piedosas as armas quando só nas 
armas reside a esperança.” 


MAQUIAVEL 


nota, não pode existir grande difi- 
culdade para quem se dispuser a 
agir como aqueles a que propus 
como exemplo. Além disso, 
vêem-se aqui extraordinárias 
ações de Deus, como ainda não 
se teve exemplo: o mar se abriu, 
uma nuvem revelou o caminho, 
da pedra brotou água, aqui cho- 
veu o maná; tudo concorreu para 
a vossa grandeza. O que resta a 
fazer é tarefa que a vós compete. 
Deus não quer fazer tudo, para 
não nos tolher o livre arbítrio e 
parte da glória que nos cabe. E 
não é motivo para maravilhar-se 
se algum dos já mencionados ita- 
lianos não pôde fazer aquilo que 
se pode esperar da vossa ilustre 
casa e se, em tantas revoluções 
da Itália, em tantos trabalhos de 
guerra, parecer sempre que a vir- 
tude militar se tenha extinguido 
no país. A razão disso está em 
que -as antigas instituições políti- 
cas não eram boas e não houve 
ninguém que tivesse sabido ar- 
ranjar outras; e nuica coisa 
nenhuma deu tanta honra a um 
governante novo como as novas 
leis e regulamentos que elabo- 
rasse. Quando estes são bem fun- 
dados e encerram grandeza, 
fazem com que ele seja reveren- 
ciado e admirado: e na Itália não 
faltam motivos para a realização 
desse trabalho. 

Aqui existe bastante valor no 


O PRÍNCIPE 115 


povo, embora faltem chefes. Ob- 
servai, nos duelos e nos torneios, 
quanto os italianos são superio- 
res em força, destreza e inteli- 
gência. Mas tratando-se de exér- 
citos, essas qualidades não 
chegam a revelar-se. E tudo pro- 
vém da fraqueza dos chefes, pois 
aqueles que sabem não são obe- 
decidos, e todos pensam saber 
muito, não tendo aparecido até 
agora nenhum cujo valor ou for- 
tuna seja de tanto realce que 


obrigue os outros a abrir-lhe, 


caminho. É por isso que em tanto 
tempo, em tantas guerras que se 
fizeram nestes últimos vinte anos, 
todo exército exclusivamente ita- 
liano sempre se saiu mal. É o que 
atestam Taro, depois Alexandria, 
Câápua, Gênova, Vailá, Bolonha, 
Mestre. 

Querendo, pois, a vossa ilustre 
casa seguir o exemplo daqueles 
grandes homens e redimir suas 
províncias, é necessário, antes de 
mais nada, como verdadeira base 
de qualquer empreendimento, 
prover-se de tropas próprias, por- 
que não existem outras mais fiéis 
nem melhores. E embora cada 
soldado possa ser bom, todos 
Juntos  tornar-se-ão melhores 
anda, quando se virem coman- 
dados pelo seu príncipe e por ele 
honrados e bem tratados. É ne- 
cessário, pois, preparar essas 
armas, para se poder defender 


dos estrangeiros com a própria 
bravura italiana. E apesar de 
serem consideradas formidáveis 
as infantarias suíças e espanho- 
las, ambas têm defeitos, de modo 
que uma terceira potência que se 
criasse poderia não somente 
opor-se mas ter confiança na 
vitória. Os espanhóis não podem 
fazer frente à cavalaria e os sui- 
ços deverão ter medo das forças 
de infantaria quando as encon- 
trarem tão obstinadas, tão fortes 
quanto eles nos combates. Já se 
viu e há de se ver ainda que os 
espanhóis não podem fazer face a 
uma cavalaria francesa e os sul-, 
ços ser derrotados pela infantaria 
espanhola. E se bem que deste úl- 


“timo caso não se tenha tido 


exemplo direto, teve-se uma 
amostra na jornada de Ravena, 
quando a infantaria espanhola 
enfrentou a alema, que usa a 
mesma tática da suíça: os espa- 
nhóis, valendo-se da sua agilida- 
de, e com o auxílio dos seus escu- 
detes, haviam-se posto debaixo 
das lanças dos alemães e estavam 
certos de vencê-los, sem que estes 
pudessem ter salvação. E se não 
fosse o auxilio da cavalaria, 
todos eles teriam sido chacina- 
dos, efetivamente. Pode-se, por- 
tanto, conhecendo os defeitos 
destas duas espécies de infanta- 
ria, Organizar uma terceira que 
resista à cavalaria e não tema a 


116 


sua igual. E disso resultará a for- 
mação de uma geração de guer- 
reiros e a mudança de métodos. E 
são essas coisas que, reorgani- 
zadas, dão reputação e grandeza 
a um príncipe novo. 

Não se deve, portanto, deixar 
passar-esta ocasião a fim de fazer 
com que a Itália, depois de tanto 
tempo, encontre um redentor. 
Não tenho palavras para expri- 
mir o amor e entusiasmo com 
que seria ele recebido em todas 
as províncias que sofreram ata- 
ques e invasões estrangeiras, nem 
com que sede de vingança, com 
que fé obstinada, com que pieda- 
de, com que lágrimas. Que portas 
se lhe fechariam? Que povos lhe 
negariam obediência? Que inveja 
se lhe oporia? Qual italiano seria 


MAQUIAVEL 


capaz de lhe negar o seu favor? 
Já estã fedendo, para todos, este 
domínio de bárbaros. Tome, pois, 
a vossa ilustre casa esta tarefa 
com aquele ânimo e com aquela 
fé com que se esposam as boas 
causas, a fim de que, sob o seu 


brasão, esta pátria seja enobre- 


cida, e sob os seus auspícios se 
verifique aquele dito de Petrarca: 


Virtu contro a furore 
Prendera l'arme; e fia il com- 
[batter corto; 
Ché lantico valore 
Nelli italici cor non é ancor 
[morto?º. 


29 “A virtude tomará armas contra o furor e 
será breve o combate, pois o antigo valor 
ainda não está morto nos corações italianos.” 


APENDICE 


Carta de Maquiavel a Francesco Vettori 


Magnifico oratori Florentino Francesco Vettori 
apud Summum Pontificem et benefactori suo. 


Magnífico embaixador. Tardas 
jamais foram as graças divinas. 
Digo isto porque me parecia não 
ter perdido, mas enfraquecido a 
vossa graça, tendo estado vós 
tanto tempo sem escrever-me, e 
eu estava em dúvida de onde 
pudesse vir a razão. E a todas as 
que me vinham à mente dava eu 
pouca importância, salvo àquela 
por que duvidava não houvésseis 
deixado de escrever-me, porque 
vos houvesse sido escrito que eu 
não fosse bom conservador de 
vossas cartas; e eu sabia que, 
Filippo e Pagolo exclusive, ou- 
tros por mim não as haviam 


3º Ao magnífico orador e particular benfeitor 
Florentino Francisco Vettori, Embaixador 
Junto ao Sumo Pontífice. Roma. (N. do E.) 


Romae?º. 


visto. Tive pela última vossa de | 
23 do mês passado, pelo que fico 
contentissimo por ver quão orde- 
nada e sossegadamente desempe- 
nhais este ofício público e ani- 
mo-vos a continuardes assim, 
porque quem deixa seus cômodos 
pelos dos outros perde os seus, e 
daqueles não recebe satisfação. E 
como a fortuna ordena todas as 
coisas, é preciso deixá-la fazer, 
deixar-se ficar e não lhe opor 
embaraço, e esperar o tempo em 
que ela consinta aos homens 
fazer qualquer coisa, e então vos 
ficará bem trabalhar mais, desve- 
lar-se mais pelas coisas, e a mim 
partir da cidade e dizer eis-me 
aqui. Não posso, portanto, dese- 
Jando render-vos iguais graças, 
dizer-vos nesta carta outra coisa 


118 
que não seja a minha vida, e se 
julgardes que deva trocá-la pela 
vossa, ficarei contente em mudá- 
la. 

Permaneço na vila, e como 
seguiram aqueles meus últimos 
casos, não estive, para ajuntá-los 
todos, mais de vinte dias em Flo- 
rença. Tenho, até agora, apa- 
nhado tordos a mão; levantava- 
me antes do dia, trabalhava a 
paina, afastava-me com um feixe 
de gaiolas sobre mim, que pare- 
cia o Geta quando ele voltava do 
porto com os livros de Anfitrião; 
apanhava pelo menos dois, no 
máximo seis tordos. E assim esti- 
ve todo o mês de setembro; de- 
pois este entretenimento, ainda 
que desprezível e estranho, fal- 
tou, com desgosto meu, e dir- 
vos-ei qual seja minha vida. Le- 
vanto-me de manhã com o sol € 
vou para um bosque meu onde 
mando fazer lenha, e ali fico duas 
horas a inspecionar as obras da 
véspera, e a passar o tempo com 
os lenhadores, que têm sempre 
aborrecimento à mão ou entre si 
ou com os vizinhos. E a respeito 
deste bosque eu vos teria a dizer 
mil belas coisas que me acontece- 
ram, com Frosino da Panzano e 
com outros que queriam destas 
madeiras. E especialmente Frosi- 
no, que mandou buscar certas 
quantidades sem dizer-me nada, e 
ao pagamento queria reter dez 


MAQUIAVEL 


liras, que dizia tinha a haver de 
mim faz quatro anos, que me ga- 
nhou no jogo de cricca em casa 
de Antônio Guicciardini. Come- 
cei a fazer o diabo, querendo acu- 
sar de ladrão o carroceiro, que ali 
fora mandado por ele, tandem 
Giovanni Machiavelli entrou no 
meio, e nos pôs de acordo. Bat- 
tista Guicciardini, Filippo Gino- 
rio, Tommaso del Bene e certos 
outros cidadãos, quando aquela 
ventania soprava, cada um me 
encomendou uma medida. Pro- 
meti a todos e mandei uma a 
Tommaso, a qual voltou a Flo- 
rença pela metade, porque para 
medir havia ele, a mulher, a cria- 
da, os filhos, que parecia o Gab- 
bura quando na quinta-feira com 
seus rapazes bate num boi. De 
maneira que, visto em quem esta- 
va o lucro, disse aos outros que 
não tenho mais madeira; e todos 
disso fizeram questão impor- 
tante, e especialmente Battista, 
que enumera esta entre as outras 
desgraças de Prato. | 

Saindo do bosque vou à fonte, 
e daqui à caçada; tenho um livro 
comigo, ou Dante ou Petrarca, 
Ou um destes poetas menores, 
como Tibulo, Ovídio e semelhan- 
tes: leio aquelas suas amorosas 
paixões e aqueles seus amores, 
lembro-me dos meus, comprazo- 
me neste pensamento. Vou depois 
à hospedaria, à beira da estrada, 


! 


| 


O PRÍNCIPE 


falo aos que passam, pergunto 
pelas novas das suas terras, ouço 
uma porção de coisas, e noto os 
vários gostos e diversas fantasias 
dos homens. Chega enquanto 
isso a hora de jantar e, com a 
minha gente, como o que esta 
minha. pobre vila e fraco patri- 
mônio comportam. Terminada a 
refeição, volto à hospedaria onde 
está o estalajadeiro e, ordinaria- 
mente, encontro-me com um 
açougueiro, um moleiro, dois for- 
neiros. Com estes eu me entrete- 
nho o dia todo jogando cricca, 
tric-tac, e depois daí nascem mil 
contendas e infinitas insolências 
e injúrias e o mais dás vezes se 
disputa um quatitrino e somos 
ouvidos, não raro, a gritar, de 
San Casciano. Assim mergu- 
lhado nesta piolheira, estou com 
a cabeça mofada, desafogo a 


malignidade do meu destino, e' 


até me contentaria em que me 
encontrásseis nesta estrada, para 
ver se ele se envergonha. | 

Chegando à noite, de volta a 
casa, entro no meu escritório: e 
na porta dispo as minhas roupas 
cotidianas, sujas de barro e de 
lama, e visto as roupas de corte 
ou de cerimônia, e, vestido decen- 
temente, penetro na antiga convi- 
vência dos grandes homens do 
passado; por eles acolhido com 
bondade, nutro-me daquele ali- 
mento que é o único que me é 


119 


apropriado e para Oo qual nasci. 
Não me envergonho de falar com 
eles, e lhes pergunto da razão das 
suas ações, e eles humanamente 
me respondem; e não sinto du- 
rante quatro horas aborrecimento 
algum, esqueço todos os desgos- 
tos, não temo a pobreza, não me 
perturba a morte: transfundo-me 
neles por completo. E, como 
disse Dante, não pode a ciência 
daquele que não guardou o que 
ouviu — noto aquilo de que pela 
sua conversação fiz cabedal e 
compus um opúsculo, De princi- 
patibus, onde me  aprofundo 
quanto posso nas cogitações 
deste tema, debatendo o que é 
principado, de que espécies são, 
como eles se conquistam, como 
eles se mantêm, por que eles se 
perdem; e se vos agradou alguma 
vez alguma fantasia minha, esta 
não vos deveria desagradar; e um 
principe, e máxime um principe 
novo, deveria recebê-lo com pra- 
zer; portanto eu o dedico à 
magnificência de Juliano. Filippo 
Casavecchia o viu; poder-vos-á 


pôr a par em parte e da coisa em 
s1, e dos argumentos que tive que 
suprimir, se bem que ainda eu o 
aumente e corrija. 

Vós desejaríeis, magnífico em- 
baixador, que eu deixasse esta 
vida e fosse gozar convosco a 
vossa. Eu o farei de qualquer 


120 MAQUIAVEL 


maneira, mas o que me tenta 
agora são meus negócios certos 
que dentro de seis semanas terei 
concluído. O que me deixa em 
dúvida é que estão aí aqueles 
Soderini, aos quais seria forçado, 
indo aí, a visitá-los e a falar-lhes. 
Duvidaria que ac meu regresso 
eu não me pudesse apear em 
casa, e descavalgasse no Bargel- 
lo, porque embora este Estado 
tenha fortissimas bases e grande 
segurança, tamen ele é novo, e 
por isto duvidoso, nem aí faltam 
sabichões que, para aparecer, 
como Pagolo Bertini, prejudica- 
riam a outros e me deixariam as 
preocupações. Rogo-vos que 
tranguilizeis este meu temor, e 
depois irei no tempo mencionado 
a visitar-vos de qualquer modo. 
Falei com Filippo sobre este 
meu opúsculo, se seria conve- 
niente dá-lo a público ou não; 
caso conviesse, se seria bom que 
eu o levasse ou que vó-lo man- 
dasse. Se o nao desse fazia-me 
duvidar de que, não só Juliano 
não o lesse, mas também de que 
este Ardinghelli se fizesse as hon- 
ras deste meu último trabalho. Se 


o desse me satisfaria a necessi- 
dade que me prende, porque eu 
me estou consumindo e não 
posso ficar assim por mais tempo 
sem me tornar desprezível por 
pobreza. Ainda desejaria muito 
que estes senhores Médicis come- 
çassem a lembrar-se de mim se 
tivessem que começar a fazer-me 
voltear uma pedra; porque, se de- 
pois não ganhasse o seu favor, eu 
mesmo me lamentaria, pois que 
quando lido o livro, ver-se-ia que 
quinze anos que estive em estudo 
da arte do Estado, não os dormi, 
nem brinquei; e deveria a cada 
um ser caro servir-se daquele que 
às custas de outros fosse cheio de 
experiência. E da minha fé não se 
deveria duvidar, porque tenho 
sempre observado a fé, não vou 
agora rompê-la; e quem foi fiel e 
bom quarenta e três anos, que eu 
tenho, não deve poder mudar sua 
natureza; e da minha fé e bonda- 
de é testemunho a minha pobre- 
za. | 

Desejaria, portanto, que ainda 
me escrevêsseis aquilo que sobre 
esta matéria vos pareça, e a vós 
me recomendo. Sis felix. 


Die 10 Decembris 1513. 


NicoLau MAQUIAVEL em Florença. 


go 


PARE 


Ld 


CRITOS POLÍTICOS 


DO MODO DE TRATAR 
OS POVOS DO VALE DO CHIANA 
REBELADOS 


Nota do Tradutor 


Maquiavel, na sua qualidade de Secretário dos Dez, fora mandado, 
em agosto de 1502, a Arezzo, logo depois da rebelião de que trata o 
escrito Del Modo di Trattare, etc., a fim de informar-se pessoalmente 
da situação e de prover à partida das tropas francesas com o auxílio 
das quais pudera Florença vencer os rebeldes. É nesse breve escrito, 
o qual Maquiavel supõe ser um discurso dirigido aos supremos 
magistrados da república, que o secretário florentino tenta, pela pri- 
meira vez, “erguer-se da prática da burocracia cotidiana às culminân- 
cias da ciência”. (P. Villari, Niccolô Machiavelli e suoi tempi, Milão, 
4.º ed., I, pág. 346.) 


Lucio Fúrio Camilo, depois 
de ter vencido os povos do Lácio, 
os quais mais de uma vez se ha- 
viam rebelado contra os roma- 
nos, regressando a Roma apre- 
sentou no Senado um projeto 
sobre o que se deveria fazer das 
terras e cidades dos latinos. As 
palavras que ele empregou e a 
sentença que o Senado deu é esta, 
quase ad verbum!, como a apre- 
senta Lívio: “Padres conscritos, 
aquilo que no Lâcio se deveria 
fazer com a guerra e com as 
armas, tudo por bondade dos 
deuses e pelo valor dos nossos 
soldados, teve o seu fim. Morre- 
ram em Peda e Astura os exérci- 
tos inimigos; todas as terras e 
cidades dos latinos, e Antium, ci- 
dade dos volscos, tomadas pela 
força ou por meio de pactos, 
guardam-se para vós. Resta-nos 
agora consultar (porque rebelan- 
do-se eles frequentemente nos 
põem em perigo) como devemos 
segurar-nos para o futuro: ou 


Quase literalmente. (N. do E.) 


tornando-nos cruéis para com 
eles, ou perdoando-lhes livre- 
mente. Deus vos fez todo-pode-: 
rosos para poder deliberar se se 
deve manter o Lácio ou não, ou 
poder perpetuamente dele vos 
assegurardes. Pensai, pois, se 
quereis acerbamente corrigir 
aqueles que vos foram dados; ou 
se quereis de todo arruinar o 
Lácio e fazer um deserto daquela 
região, de onde mais de uma vez 
tendes tirado exércitos auxiliares 
nos VOSSOS perigos; ou se quereis 
com o exemplo dos vossos maio- 
res aumentar a república romana, 
fazendo vir habitar em Roma 
aqueles que havieis vencido. E 
assim se vos apresenta oportuni- 
dade de aumentar gloriosamente 
a cidade: mas eu só vos devo 
dizer isto: que aquele império é 
firmíssimo, que tem súditos fiéis 
e afeiçoados ao seu principe. Mas. 
aquilo que se deve deliberar deve 
ser deliberado logo, tendo vós 
tantos povos suspensos entre a 
esperança e o medo, os quais é 
preciso tirar desta ambiguidade, 


Pq 
130 


e preocupá-los com penas ou 
com prêmio. A minha tarefa foi 
agir de modo que isso esteja em 
vosso arbítrio: o que está feito. 
Em vós está agora o deliberar o 
que venha a ser cômodo e útil à 
república”. Os príncipes do Sena- 
do louvaram o relatório do côn- 
sul; mas havendo causa diversa 
nas cidades e terras rebeladas, 
disseram: que não se podia acon- 
selhar em geral, mas sim em par- 
ticular a respeito de cada uma. E 
tendo sido pelo cônsul proposta a 
causa de cada uma das cidades, 
foi deliberado pelos senadores 
que os lanúvios fossem cidadãos 
romanos e devolvidas a eles as 
coisas sagradas que lhes haviam 
sido tomadas na guerra. Torna- 
ram, da mesma forma, cidadãos 
romanos os aricinos, nomentanos 
e pedanos; aos tusculanos foram 
conservados os seus privilégios e 
a culpa de sua rebelião recaiu em 
poucos dos mais suspeitos. Mas 
os veliternos foram cruelmente 
castigados, por serem antigos 
cidadãos romanos e se haverem 
rebelado muitas vezes; assim foi 
destruída a cidade e mandou-se a 
todos os seus cidadãos que fos- 
sem habitar em Roma. Em An- 
tium, para assegurar-se dela, 
mandaram habitantes novos a 
seu propósito; tiraram-lhes todos 
os navios e proibiram-nos de 
construir outros. 


MAQUIAVEL 


Pode-se por esta deliberáção 
considerar como os romanos no 
julgamento destas suas cidades 
rebeladas pensaram que fosse 
preciso ou ganhar a sua con- 


fiança pelos benefícios ou tratá- 


los de modo a que jamais pudes- 
sem duvidar; e por isto julgaram 
danoso qualquer outro caminho 
que se tomasse. E voltando aque- 
le Julgamento, usaram eles dum e 
doutro termo; beneficiando aque- 
les de quem se podia esperar que 
fosse possível reconciliar; € aque- 
loutros de quem nada se podia 
esperar, tratando de maneira que 
nunca, em tempo algum, pudes- 
sem incomodar. E quanto a esta 
última, os romanos tinham dois 
processos: um era o de arrasar as 
cidades e mandar os seus habi- 
tantes residir em Roma; o outro, 
ou afastar os cidadãos antigos e 
mandar novos habitantes; ou, 
deixando os antigos, colocar tan- 
tos novos, que aqueles nunca 
pudessem maquinar nem delibe- 
rar qualquer coisa contra o Sena- 
do. Estes dois modos de garan- 
tir-se usaram-nos ainda neste 
Julgamento, destruindo Velitrae e 
mandando novos habitantes a 
Antium. Ouvi dizer que a história 
é a mestra das nossas ações e má- 
ximas dos príncipes: e o mundo 
foi sempre, de certo modo, habi- 
tado por homens que têm tido 
sempre as mesmas paixões; e 


ESCRITOS POLÍTICOS 131 


sempre existiu quem serve e 
quem manda, e quem serve de má 
vontade e quem serve de bom 
grado, e quem se rebela e se 
rende. 

Se alguém não acreditar nisso, 
que se mire em Arezzo, O ano 
passado, e em todas as cidades 
do vale do Chiana, que fazem 
coisa muito semelhante à que foi 
praticada pelos povos latinos. Ali 
se vê a rebelião e depois a rendi- 
ção, como aqui; ainda que no 
modo de rebelar-se e no de ren- 
der-se haja muitas diferenças: 
contudo são semelhantes a rebe- 
lião e a rendição. Portanto, se é 
verdade que a história ficaria a 
mestra das nossas ações, não é 
mal para quem devia punir e jul- 
gar as cidades do vale do Chiana 
tomar exemplo e imitar aqueles 
que foram donos do mundo; má- 
xime num caso em que eles vos 
ensinam justamente como vos de- 
veis conduzir para governar: por- 
que como eles fizeram Julga- 
mento diferente, por ser diferente 
o pecado daqueles povos, assim 
devíieis fazer vós, encontrando 
também nos vossos rebelados 
diferença de pecados. E se dissés- 
seis: “nós o fizemos”, não nega- 
ria no que se tivesse feito em 
parte, mas que se faltou no mais 
e no melhor. Eu julgo bem julga- 
do que em Cortona, Castiglione, 
Borgo, Foiano se hajam seguido 


as lições, tenham elas sido adula- 
das e vos tenhais preocupado em 
reavê-las pelos benefícios; porque 
acho semelhança no caso daque- 
las cidades com os dos lanúvios, 
arícios, nomentanos, tusculanos e 
pedanos, os quais por parte dos 
romanos mereciam tal julga- 
mento. Mas eu não aprovo que os 
aretinos, semelhantes aos veliter- 
nos e anzianos, não tenham sido 
tratados como eles. E se a sen- 
tença dos romanos merece ser 
elogiada, tanto mais a vossa deve 
ser condenada. Antigamente, os 
romanos julgaram que os povos 
rebelados se devem ou beneficiar 
ou extinguir e que qualquer outro 
meio seja perigosissimo. A mim 
não parece que vós aos aretinos 
tenhais feito qualquer dessas co1- 
sas. Porque não constitui benefi- 
cio nenhum o fazê-los vir a Flo- 
rença, depois de lhes haver 
tomado as honras, vender as suas 
propriedades, falar mal deles pu- 
blicamente, ter mantido sob guar- 
da as suas casas. Não se chama 
garantir-se contra eles deixar de 
pé os muros da cidade, deixar 
que ali figuem os cinco sextos da 
antiga população; não lhes dar 
companhia de habitantes que os 
possam subjugar, e não os gover- 
nar de modo que, nos impedi- 
mentos e guerras que vos tiverem 
de ser movidas, não tenhais que 
contar com maior despesa em 


a 


Arezzo, que ao encontro de qual- 
quer inimigo que vos assaltar. A 
experiência se viu em 1498, 
quando Arezzo ainda não se 
havia rebelado nem vos havieis 
tornado tão cruéis com relação 
aquela cidade: nem mesmo vindo 
as forças dos venezianos em Bib- 
biena, vós terieis a empenhar em 
Arezzo, para tê-la quieta, as tro- 
pas do duque de Milão e a com- 
panhia do Conde Rinuccio. 
Disso, se vós não houvésseis 
duvidado, vos podteis servir em 
Casentino contra os inimigos; e 
não seria necessário tirar Paolo 
Vitelli de Pisa para mandá-lo a 
Casentino: o que, forçando-vos a 
desconfiar dos aretinos, vos fez 
levar muito mais perigo e muito 
maior despesa do que a que 
teríeis feito se eles vos tivessem 
permanecido fiéis. Assim, de 
acordo com aquilo que se viu 
então, aquilo que se viu depois, e 
o termo em que vós os trazeis, 
disso se pode fazer seguramente 
este juízo, que, se fósseis assalta- 
dos (do que Deus guarde), ou 
Arezzo se rebelaria, ou vos apre- 
sentaria tal impedimento para 
guardá-la, que a tornaria despesa 
insuportável para a cidade. 

Se vós pudésseis, no presente, 
ser atacados ou não, e se há 
quem tenha intenções 
Arezzo ou não, tendo eu a res- 
peito ouvido falar, não o quero 


sobre 


MAQUIAVEL 


deixar para trás. E deixando de 
discorrer sobre aqueles temores 
que podeis ter dos principes ul- 
tramontanos, conversemos sobre 
o medo que nos está mais próxi- 
mo. 


Quem observou o duque vê 
que ele, para manter os Estados - 
que tem, nunca pensou fazer base 


sobre amizades italianas, tendo 
sempre estimado pouco os -vene- 
zianos, e a vós menos: o que, 
quando seja verdade, convém que 


ele pense em tornar-se tão grande 
Estado na Itália, que o torne se- 
guro por si mesmo, e que faça 
desejável por um outro potentado 
a sua amizade. E quando este 
seja o seu ânimo e que ele aspire 
ao império da Toscana, como 
mais próprio e apto para se fazer 
um reino com os outros Estados 
que tem (e de que ele tem este 
projeto, julga-se de necessidade, 
seja pelas coisas mencionadas, 
seja pela sua ambição, e também 
por terdes ficado indecisos quan- 
to ao acordo e não ter ele nunca 
desejado concluir alguma coisa 


convosco), resta agora ver se O 
tempo lhe é oportuno para reali- 
zar estes seus desígnios. 

E lembra-me ter ouvido dizer 
ao Cardeal Soderini que, entre os 
outros louvores que se podiam 
dar de grande homem ao papa e 
ao duque, estava este: que são 


| 


ESCRITOS POLÍTICOS 


conhecedores da ocasião, e que a 
sabem usar muito bem; opinião 
esta que está provada pela expe- 
riência das coisas conduzidas por 
eles oportunamente. E se quisés- 
semos discutir se agora é tempo 
oportuno e seguro para que ele 
vos ataque, eu diria que não. 


133 


Mas, considerando que o duque 
não pode esperar que as coisas se 
decidam, por lhe restar pouco 
tempo com relação à brevidade 
da vida do pontífice, é necessário 
que ele use a primeira ocasião 
que se lhe oferece e que entregue 
da sua causa boa parte à sorte. 


DA “LEGAÇÃO 
AO DUQUE VALENTINO 


Nota do Tradutor 


Maquiavel, que conhecera, poucos meses antes, ao Duque Valenti- 
no, quando acompanhou Francesco Soderini, na sua legação a Urbi- 
no, foi de novo encarregado pelos “Dez” de entender-se com o duque. 
Com efeito, Valentino, logo depois da Dieta de La Magione, manifes- 
tara ao governo de Florença o desejo de manter boas relações com os 
florentinos. Longamente discutida, foi dada afinal a Maquiavel a 
commissione respectiva no dia 5 de outubro de 1502. As instruções 
que levava davam-lhe também o encargo de agradecer ao duque o ter 
restituído os tecidos confiscados aos mercadores florentinos nos seus 
Estados, e o de pedir-lhe salvo-conduto para aqueles no seu tráfego 
parao Oriente. 

A legação ao duque, a qual durou até o dia 21 de janeiro de 1503, 
é de suma importância, pois assinala não somente a fase culminante 
do poderio de César Bórgia e das suas trágicas maquinações, mas 
também o amadurecimento do gênio de Maquiavel, como escritor 
político. A carta traduzida é a primeira das dezoito que relatam ao 
governo florentino o desenvolvimento da legação. O desígnio de 
Valentino era afastar Florença dos conjurados de La Magione e, caso 
possível, atraí-la para um acordo. Quanto às instruções que tinha 
Maquiavel, podem ser resumidas nesta passagem da Commissione: 

“E no que se refere a isso (as garantias de que Florença negará 
apoio aos conjurados) podes alargar-te quanto te parecer a propósiio; 
mas se Sua Excelência procurar saber mais de ti, cingir-te-ás a infor- 


, 


mar-nos e esperar a resposta”, 


MAGNIFICI et excelss Domi- 
ni, Domini mei singularissimi?. 
Logo à minha partida daí não me 
sentia muito bem montado, e 
como me parecesse que a minha 
comissão  requeresse rapidez, 
mudei de cavalo na Scarperia e, 
trocando de montaria, viajei sem 
interrupção, de sorte que cheguei 
aqui hoje às dezoito horas mais 
ou menos. Tendo deixado atrás 
cavalos e criados, apresentei-me 
logo que me apeei a Sua Excelên- 
cia, a qual me acolheu cordial- 
mente, e apresentando-lhe eu as 
cartas credenciais, expus-lhe as 
razões da minha missão e agra- 
deci-lhe a restituição dos tecidos. 
Depois vim a falar-lhe da cisão 
dos Orsini, da dieta deles e dos 
seus aderentes, e de como V.Sas. 
estavam sendo destramente re- 
questados e sobre qual lhes seja o 
animo a respeito da amizade que 
têm pelo rei de França e da devo- 
ção que conservam para com a 


2 Magníficos e excelentíssimos Senhores, Se- 
nhores meus prezadíssimos. (N. do E.) 


Igreja, e ilustrei amplamente com 
todas as palavras que me ocorre- 
ram as razões que obrigam 
V.Sas. a conservar a amizade 
destes últimos e a evitar a dos 
adversários deles. Atestei-lhe que 
em qualquer situação V.Sas. res- 
peitariam todas as ações de Sua 
Excelência, as quais fossem com- 
patíveis com a amizade do rei de 
França e com a antiga devoção à 
Igreja, e a afeição que mostraram 
à Sua Senhoria, tratando como 
amigos todos os amigos e aliados 
de França. 
Sua Excelência, quanto ao ne- 
gócio da restituição, nada res- 
pondeu; mas referindo-se a ou- 
tras particularidades, agradeceu 
a V.Sas. aqueles oferecimentos e 
gratas demonstrações. Disse de- 
pois ter sempre desejado a amiza- 
de de V.Sas., não a tendo conse- 
guido mais por malignidade de 
outros do que por sua própria 
culpa; e ainda que queria contar- 
me particularmente aquilo que 
nunca dissera a alguém a respeito 
da sua vinda a Florença com o 


140 MAQUIAVEL 


seu exército. E disse como, de- 
pois de conquistada Faenza e 
tentada a campanha de Bolonha, 
os Orsini e os Vitell o instiga- 
vam, querendo persuadi-lo de que 
ele devia voltar a Roma por Flo- 
rença, o que foi recusado por ele, 
pois o papa lhe tinha ordenado 
coisa diferente. Chorando, Vitel- 
lozzo lançara-se-lhe aos pés, su- 
plicando que seguisse aquele ca- 
minho e prometendo-lhe não 
fazer ao país nem às cidades vio- 
lência alguma. Nem assim con- 
descendia ele, mas ansistiram 


tanto nisso, que afinal Sua Exce-, 


lência prometeu assim fazer, sob 
a condição, porém, de não ser 
feita violência ao país e de não se 
procurar favorecer aos Médicis. 
Mas querendo tirar proveito da 
sua vinda a Florença, pensou 
fazer amizade com V.Sas., e 
valer-se da ocasião, o que se 
prova pelo fato de, em qualquer 
negociação, ter falado pouco ou 
nada, a respeito dos Médicis, 
como sabem aliás os comissários 
que trataram com ele, e o de 
nunca ter consentido que Piero 
viesse ao seu campo. E disse 
mais que muitas vezes, quando 
estavam em Campi, os Orsini e 
os Vitell lhe pediram licença 
para apresentar-lhe projetos de 
fácil execução, ao que ele nunca 
quis aceder, e antes fez-lhes ver 
mil vezes que os combateria. 


Depois, feita a composição com 
V.Sas., pareceu-lhes, aos Orsini e 
Vitelli, que ele tivesse obtido tudo 
o que desejava e que a expedição 
tivesse resultado em seu exclu- 
sivo benefício, e em seu dano 
deles, e aplicaram-se a prejudicar 
aquela combinação por todas as 
desonestidades e danos para que 
V.Sas. o suspeitassem e fosse per- 
turbado o acordo. O que não lhe 
fora dado reparar, pois não podia 
ele estar em todo lugar e também 
por não lhe terem ainda V.Sas. 
concedido o empréstimo, como 
tinha sido combinado ou antes 
indicado. Ficaram assim as coi- 


sas até junho passado, quando 


houve a rebelião de Arezzo, da 
qual ele afirma, como já disse ao 
Bispo de Volterra, não ter sabido 
coisa alguma antes. Mas que a 
tinha considerado até um bem 
porque lhe parecera ocasião 
azada a que se manifestassem os 
sentimentos de V.Sas. a respeito 
dele. Nem então se fez alguma 
coisa, ou pela má sorte comum, 
ou por não ter a vossa cidade a 
disposição de tratar e concluir 
aquilo que teria sido a salvação 
de cada um, o que disse não lhe 
haver dado grande aborreci- 
mento. E disposto a beneficiar- 
vos, tendo em vista a boa vonta- 
de do rei, escreveu a Vitellozzo e 
mandou-lhe portadores para que 
se retirasse de Arezzo. Não con- 


GR e 


ESCRITOS POLÍTICOS 141 


tente com isso, foi a Citta di Cas- 
tello com a sua tropa. E poderia 
ter tomado aquele a cidade, pois 
os principais homens da terra ti- 
nham vindo oferecer-se-lhe, de 
onde disse que se originou a pri- 
meira ira e descontentamento 
seu. 


Disse também não saber a ori- 
gem da indignação dos Orsini 
contra nosso senhor? na corte do 
rei de França. Depois de haver 
visto que Sua Majestade o tinha 
tratado com maior consideração 
do que ao Cardeal Orsini, e isso 
ao mesmo tempo que corriam 
certos rumores de que o rei inten- 
tava tirar-lhe o poder, eles ti- 
nham partido e tinham marcado 
encontro nessa dieta de falidos. E 
se bem que tivesse havido mais 
de uma embaixada de parte do 
Senhor Giulio Orsini, o qual lhe 
assegurava não lhe fazer oposi- 
ção alguma, etc., e se bem que 
não fosse razoável que eles des- 
cobrissem, quando lhes tirou o 
seu dinheiro, o próprio jogo, logo 
que tivessem de fazê-lo, reputa- 
“va-os mais loucos do que poderia 
esperar, pois é certo que não ti- 
nham escolhido bem a oportuni- 
dade para ofendê-lo, estando na 
Itália o rei de França, e vivendo a 
santidade de nosso senhor, duas 
coisas que o animavam tanto, 


3 Opapa.(N.doT.) 


que para fazê-lo esfriar nos seus 
planos seriam necessárias outras 
águas que não os Orsini. Nem lhe 
importava que o perturbassem no 
ducado de Urbino, porque não 
esquecera o meio de readquiri-lo, 


- quando o perdesse; a isso ajun- 


tando que era tempo agora de, se 
V.Sas. quisessem ser seus ami- 
gos, fazerem-se-lhe obrigados, 
pois ele bem podia, sem preocu- 
par-se com os Orsini, ligar-se por 
amizade com V.Sas., o que não 
pudera fazer antes. Mas se V.Sas. 
adiassem isso e ele neste ínterim 
se tivesse reconciliado com os 
Orsini, os quais o procuram 
anda, repetir-se-ia a situação, 
pois estes só poderiam ser satis- 
feitos com a reposição dos Médi- 
cis, isto é, V.Sas. encontrar-se- 
iam na mesma dificuldade e 
temor; daí pensar ele que V.Sas. 
devem sem tardança declarar-se 
seus amigos ou deles, porque 
adiando-se a decisão pode acon- 
tecer que se faça acordo com 
dano de V.Sas. ou seguir-se a 
vitória de uma das partes, a qual 
se lhes tornaria inimiga ou deso- 
brigada para com V.Sas. E quan- 
do tenham de tomar partido, o 
que julga ele coisa que tem de 
acontecer, não vê como V.Sas. 
possam tomar outro que não 
aquele onde estão a majestade do 
rei e a santidade de nosso senhor, 
ajuntando ainda que lhe será 


142 


muito grato que, se Vitellozzo ou 
os outros se dirigirem a um dos 
seus Estados dele, façam V.Sas. 
demonstração de suas milícias 
nas bandas do Borgo ou nas fron- 
teiras para que assim se lhe dê 
prestígio. 

Pus-me a escutar atentamente 
de Sua Excelência as referidas 
coisas, as quais mencionei, não 
só no seu sentido mas também 
nas mesmas palavras que escrevi 
difusamente para que S.Sas. pos- 
sam melhor ajuizar de tudo. Não 
escrevo o que respondi, pois não 
é necessário fazê-lo: esforcei-me 
por não sair dos limites da minha 
missão, e quanto ao negócio 
daquela demonstração não res- 
pondi coisa alguma. Apenas dis- 
se-lhe que escreveria a V.Sas. a 
respeito das suas boas intenções 
dele e que estas lhes seriam 
sngularmente gratas. E se bem 
que Sua Excelência, como vêem, 
mostrasse desejar que se faça 
depressa o acordo entre V.Sas. e 
ele, não obstante ter eu procu- 
rado fazê-lo falar para tirar do 
que dizia ele alguma particulari- 
dade, andou sempre ao largo e 
nem pude saber senão o que 
acima escrevi. Tendo eu ouvido à 
minha chegada que houvera algu- 
ma coisa no ducado de Urbino e 
tendo Sua Excelência dito que 
não lhe importava a alteração 
naquele ducado, pareceu-me 


MAQUIAVEL 


oportuno perguntar-lhe qual era 
a situação. Ao que Sua Exce- 
lência me respondeu: “A minha 
clemência e pouca estimação dos 
fatos prejudicaram-me. Tomei, 
como sabes, em três dias aquele 
ducado, e não arranquei um fio 
de cabelo a ninguém, salvo a 
Messer Dolce e outros dois, que 
tinham ofendido a santidade de 
nosso senhor; antes, o que é 
melhor, tinha combinado certas 
coisas com vários funcionários 
daquele Estado, com um encarre- 


gado de construir um muro. que 
mandei fazer na Fortaleza de São 
Leão, e há dois dias este tramou 
com alguns camponeses do lugar, 
sob pretexto de puxar para o alto 
uma trave, certa maquinação, de 
modo que, forçada a cidadela, se 
rendeu. Todos a proclamam sua: 
os venezianos, os Vitelli, os Orsi- 
ni, mas por enquanto ninguém se 
descobriu. Embora tenha eu por 
perdido aquele ducado, porque se 
trata de um Estado débil e mal 
ordenado e por estarem os seus 


homens descontentes e fatigados 
pelo serviço da milícia que lhes 
impus, espero porém a tudo pro- 
ver, € escreverás aos teus senho- 
res que pensem muito bem no 


que vão fazer e decidam depres- 
sa, porque se volta de Veneza o 
duque de Urbino, não será em 
proveito deles nem no nosso, O 


ESCRITOS POLÍTICOS 143 


que faz prestarmos maior fé um 
no outro”. 

Isto é, com efeito, o que por 
enquanto posso escrever a V.Sas. 
e conquanto devesse eu escreve- 
ver-lhes sobre as tropas que tem 


Die 7 Octobris 1502. 


Servitor 


este senhor, os seus alojamentos 
e muitos outros pormenores 
daqui, todavia, tendo eu chegado 
hoje, não posso saber a verdade, 
e por isso me reservo para uma 
outra vez e recomendo a V.Sas. 


NicoLAUS MACHIAVELLUS Imolac. 


Escrevo-lhes ainda esta manhã 
porque o mensageiro até agora 
não encontrou cavalo para a via- 
gem, e réstame escrever que 
ontem, na conversa que tivemos, 
Sua Excelência me disse que, na 
véspera, Pandolfo Petrucci lhe 
tinha mandado alguém disfar- 
çado para assegurá-lo de que não 
daria apoio a quem conitrariasse 
Sua Excelência, e disso lhe falou 
muito longamente. 

Ontem, quando chegava. en- 


Die 8 Octobris 1502. 


contrei-me, ainda a coisa de duas 
milhas daqui, com Messer Agapi- 
to, com sete ou oito cavalos, do 
qual fui reconhecido, dizendo-lhe 
eu para onde ia e quem me man- 
dava. Acolheu-me muito bem e, 
fazendo um pouco de caminho, 
voltou. Esta manha, soube que o 
dito Messer Agapito tinha sido 
mandado daqui a V.Sas. pelo 
duque, e que voltava do caminho 
com a minha chegada. 


Iterum valete. 


Dei ao portador dois ducados para que esteja aqui amanha, dia 9, 
antes do amanhecer. 
Vespucci. 


Peço-lhes que reembolsem a Ser Agostino 


DESCRICÃO 
DO MODO DE QUE SE SERVIU 
O DUQUE VALENTINO 
PARA MATAR 
VITELLOZZO VITELU 
OLIVEROTTO DA FERMO 
E O DUQUE DE GRAVINA ORSINI 


Nota do Tradutor 


Esta Descrizione foi composta por Maquiavel como uma espécie 
de resumo do que vira na sua legação à Romanha. Não para dar um 
exato testemunho histórico, diz P. Villari, mas para fazer ressaltar “a 
maravilhosa prudência e arte do duque”, o que explica a diversidade 
“do tom e mesmo da informação de como Valentino preparou o “bel- 
lissimo inganno” — expressão de ingênua admiração usada por um 
biógrafo de César Bórgia no século XVI — da versão por assim dizer 
oficial dos acontecimentos, dada pelo próprio Maquiavel nas suas 
cartas aos ez. Foi “sob a influência de Valentino que, na sua 
mente (de Maquiavel), surgiu primeiro e começou a formular-se assaz 
claramente o pensamento, o qual devia depois ocupar toda a sua 
vida, de uma ciência do Estado, separada, independentemente de todo 
conceito moral” (P. Villari, op. cit., pág. 388). Assim, o Valentino da 
Descrizione é o precursor do Príncipe, forma teórica à qual chegou 
Maquiavel mas que já se acha implícita na idealização do perfil do 
duque. 


Havia regressado da Lombar- 
dia o Duque Valentino, aonde 
fora desculpar-se para com o Rei 
Luis de França de muitas calú- 
nias que lhe haviam feito os 
florentinos devido à rebelião de 
Arezzo e das outras cidades do 
vale do Chiana; e foi a Ímola, 
onde intentava com a sua gente 
atacar Giovanni Bentivogli, tira- 
no de Bolonha, porque o duque 
queria reduzir esta cidade ao seu 
domínio e torná-la capital de seu 
ducado da Romanha. O que, 
conhecido dos Vitelli e dos Orsi- 
ni e seus sequazes, lhes pareceu 
fazer o duque muito poderoso, e 
que se devia temer que, ocupada 
Bolonha, não procurasse ele eli- 
miná-los para ficar o único bem 
armado na Itália. E a este res- 
peito reuniram-se em conselho 
em La Magione, no Perugino, ao 
qual estiveram presentes o car- 
deal, Pagolo e o Duque de Gravi- 
na Orsini, Vitellozzo Vitell, Oli- 
verotto da Fermo, Giampagolo 
Baglioni, tirano de Perúgia, e 
Messer Antônio da Venafro, 


mandado por Pandolfo Petrucci, 
chefe de Siena: ali se travaram 
debates sobre a grandeza do 
duque e de seus propósitos e 
como era necessário frear-lhe o 
apetite; ao contrário, corria-se o 
perigo da ruína comum. E delibe- 
raram não abandonar os Bentivo- 
gli e procurar o apoio dos floren- 
tinos; e a um lugar e outro 
mandaram seus homens, prome- 
tendo a um ajuda, ao outro con- 
citando a unir-se a eles contra o 
inimigo comum. 

Desta reunião se soube logo 
em toda a Itália; e os povos que 
sob o domínio do duque não esta- 
vam satisfeitos, entre os quais os 
urbineses, tiveram esperança de 
poder renovar as coisas. Daí nas- 
ceu que, estando assim suspensos 
os ânimos, certos chefes de Urbi- 
no. decidiram que se ocupasse o 
Forte de São Leão, o qual estava 
com o duque, e disso tiveram eles 
oportunidade. O castelão fortifi- 
cava-se e, fazendo para ali trans- 
portar madeira, fizeram os con- 
jurados com que. as traves, 


150 


apoiando-se na fortaleza, estives- 
sem sobre a ponte, a fim de que, 
impedida esta, não pudesse ser 
levantada pelos que estavam den- 
tro; e assim saltaram na ponte e, 
em seguida, na fortaleza. Por 
causa da conquista da fortaleza, 
logo que foi conhecida, rebelou- 
se todo aquele Estado e tornou a 
chamar o duque antigo; tinha-se 
esperança, não tanto pela ocupa- 
ção da fortaleza como pela reu- 
nião de La Magione, em conse- 
“quência da qual pensavam ser 
ajudados. Conhecida à rebelião 
de Urbino, julgaram os conjura- 
dos que não se devia perder tal 
ocasião, e, reunindo: sua gente, 
marcharam para tomar alguma 
cidade daquele Estado que hou- 
vesse ficado em poder do duque; 
e novamente mandaram a Flo- 
rença solicitar daquela república 
que os auxiliasse a apagar esse 
incêndio comum, mostrando o 
perigo vencido e fazendo ver que 
não se deveria aguardar outra 
ocasião. Mas os florentinos, pelo 
ódio que votavam aos Vitelli e 
aos Orsini, por diversas razões, 
não só não aderiram a eles mas 
mandaram Nicolau Maquiavel, 
seu secretário, para oferecer ao 
duque conselho e auxílio contra 
estes novos inimigos; o duque es- 
tava tomado de medo em Ímola, 
porque, repentinamente e fora de 


MAQUIAVEL 


qualquer precaução sua, tendo- 
se-lhe tornado inimigos seus pró- 
prios soldados, encontrava-se de- 
sarmado e" com a guerra 
iminente. Mas  reanimando-se 
com as ofertas dos florentinos, 
deliberou contemporizar reali- 
zando acordos, pois tinha pouca 
gente, e também preparando au- 
xílios. Preparou-os dé duas ma- 
neiras: mandando pedir tropa ao 
rei de França; e estabelecendo 
soldo para alguns homens de 
armas e outros que, de qualquer 
maneira, militassem à cavalo, e à 
todos dava dinheiro. Não obstan- 
te, ossinimigos avançaram, mar- 
chando em direção a Fossom- 
brone, onde se haviam fortificado 
elementos do duque cujas fileiras 
foram rompidas pelos Vitelli e 
Orsini. Isto fez com que o duque 
procurasse remediar a situação 
com acordos. E sendo grande 
simulador, não déixou de, por 
todas as maneiras, fazer com que 
acreditassem que desejava que 
fosse deles o que haviam con- 
quistado pelas armas; que lhe 
bastava ter o título de principe, 
mas que desejava que o princi- 
pado fosse deles — e tanto os 
persuadiu que mandaram ao 
duque o Senhor Pagolo para tra- 
tar do acordo e sustaram a guer- 
ra. Mas o duque não interrompeu 
as suas próprias providências e 


ESCRITOS POLÍTICOS 151 


por todos os meios aumentava o 
número de cavalos e soldados; e 
para que tais providências não 


fossem notadas mandava separa- 


damente suas tropas para todos 
os lugares da Romanha. Haviam, 
entretanto, chegado quinhentas 
lanças francesas, e embora se 
encontrasse já tão forte de modo 
a poder, com guerra aberta, vin- 
gar-se de seus inimigos, julgou 
que seria mais seguro e mais útil 
enganá-los e não firmar, por isso, 
as cláusulas do acordo. E tanto 
trabalhou pela coisa que assinou 
com eles um tratado de paz onde 
se confirmavam as normas referi- 
das. Deu-lhes quatro mil ducados 
de presente, prometeu não ofen- 
der aos Bentivogli e fez amizade 
com Giovanni; e, mais, que não 
os pudesse constranger a ir pes- 
soalmente à sua presença a não 
ser que assim o quisessem. Por 
outro lado, eles prometeram res- 
tituir-lhe o ducado de Urbino e 
todas as outras coisas por eles 
ocupadas, e servi-lo em todas as 
suas expedições, nem sem seu 
consentimento mover guerra ou 
auxiliar a alguém. Feito este 
acordo, GuidUbaldo, duque de 
Urbino, de novo se retirou para 
Veneza, tendo feito, antes, des- 


truir todas as fortalezas daquele 
Estado; porque, confiando nos 
povos, não queria que aquelas 


-gaglia. 


fortalezas que não julgava pudes- 
se defender fossem ocupadas pelo 
inimigo e por meio delas pudesse 
manter freados seus inimigos. 
Mas, tendo feito esta conven- 
ção, e tendo-se dispersado a sua 
gente por toda a Romanha, o 
Duque Valentino, com: os ho- 
mens de armas franceses, em fins 
de novembro partiu de Ímola e 
foi a Cesena; aí esteve muitos 
dias em conversações com os 
enviados de Vitell e dos Orsini, 
que se encontravam com suas 
tropas no ducado de Urbino, 
sobre a nova empresa que se 
deveria levar avante. E não con- 
cluindo coisa alguma, Oliverotto 
da Fermo foi mandado a ofere- 
cer-lhe que, se desejasse realizar 
o empreendimento de Toscana, 
ali estavam para ajudá-lo e que, 
se não quisesse, iriam à tomada 
de Sinigaglia. Ao que respondeu 
o duque que à Toscana não que- 
ria fazer guerra por serem os 
florentinos seus amigos, mas que 
estaria satisfeito se fossem a Sini- 
Em conseguência, não 
muito depois, veio notícia de 
como a cidade se lhes havia ren- 
dido; mas que a fortaleza não 
havia querido render-se porque o 
castelão queria entregá-la ao 
duque e não a outrem; e por isso O 
concitavam a apresentar-se. ÀÃo 
duque pareceu que a ocasião era 


152 


boa, pois, sendo chamado por 
eles, não poderiam ter a descon- 
fiança que teriam se ele tivesse 
ido por si mesmo. E para mais 
garantir-se licenciou toda a tropa 
francesa, que voltou à Lombar- 
dia, exceto cem lanças do Senhor 
de Cindales, seu cunhado; e par- 
tindo em meados de dezembro de 
Cesena, foi a Fano, onde com 
toda a astúcia e sagacidade de 
que era capaz persuadiu os Vitel- 
l e os Orsini que o esperassem 
em Sinigaglia; fez-lhes ver como 
aqueles selvagens não fariam 
acordo com eles, nem fiel nem 
permanente, e que ele próprio era 
homem que queria poder valer-se 
das armas e do conselho dos ami- 
gos. E embora Vitellozzo esti- 
vesse muito renitente e a morte 
do irmão lhe houvesse ensinado 
que não se deve ofender um prín- 
cipe e depois fiar-se nele, persua- 
dido por Paolo Orsino, subju- 
gado por meio de favores e de 
promessas, corrompido pelo 
duque, consentiu em esperá-lo. 
Assim, o duque, na véspera (que 
foi o dia trinta de dezembro de 
1502, quando devia partir de 
Fano), comunicou sua intenção a 
oito dos seus mais fiéis, entre os 
quais Dom Michele e Monsenhor 
d'Euna, que depois foi cardeal; e 
lhes deu a incumbência de, logo 


que Vitellozzo, Paolo Orsino, o. 


Duque de Gravina e Oliverotto 


"MAQUIAVEL 


lhe fossem ao encontro, fazer 
com que entre cada dois deles se 
interpusesse um daqueles (desig- 
nando o homem certo aos ho- 
mens certos), e que ós entreti- 
vessem até Sinigaglia; que não os 
deixassem partir enquanto não 
houvessem chegado ao aloja- 
mento do duque, e presos. Orde- 
nou, em seguida, que todos os 
seus homens, infantes e cavalei- 
ros, que eram mais que dois mil 
cavalos e dez mil infantes, esti- 
vessem às primeiras horas da 
manha no Metauro (rio distante 
de Fano (cinco milhas), onde 
deveriam esperá-lo. Encontran- 
do-se, pois, no fim de dezembro 
no Metauro com aquela gente, 
fez caminhar para a frente cerca 
de duzentos cavalos: depois 
moveu a infantaria; depois desta 
a sua pessoa com o resto dos ho- 
mens de armas. 

Fano e Sinigaglia são duas 
cidades da Marca, situadas na 
margem do mar Adriático, dis- 
tantes uma da outra quinze mi- 
lhas: de modo que quem vai para 
Sinigaglia tem à mão direita os 
montes; as raízes destes por 
vezes se limitam com o mar, pois 
deles à água é pequeníssimo o 
espaço; e onde mais se alargam, 


“não se alcança a distância de 


duas milhas. A cidade de Siniga- 
glia da raiz dos montes afasta-se 
pouco mais que um tiro de arco e 


ESCRITOS POLÍTICOS 


do mar estã distante menos de 
uma milha. Junto a esta corre um 
pequeno rio que lhe banha a 
parte dos muros que está na dire- 
ção de Fano, olhando a estrada. 
Portanto, quem chega próximo 
de Sinigaglia vem, durante bom 
espaço de caminho, ao longo dos 
montes; e alcançando o rio que 
passa ao longo de Sinigaglia vol- 
ta-se à mão direita ao longo da 
margem daquele; tanto que, an- 
dando o espaço de uma arcada, 
chega a uma ponte que passa 
aquele rio e está quase defronte à 
porta que entra em Sinigaglia, 
não por linha retá, mas transver- 
salmente. Diante da porta há um 
burgo de casas com uma praça 
que a margem do rio borda por 
um dos lados. 

Tendo, portanto, os Vitelle os 
Orsini dado ordem de esperar o 
duque e pessoalmente honrá-lo, 
para dar lugar à tropa deste ha- 
viam retirado a sua para certos 
acampamentos distantes seis mi- 
lhas de Sinigaglia; e só haviam 


deixado em Sinigaglia Oliverotto 


com o seu bando, que era de mil 
infantes e cento e cinquenta cava- 
los, os quais estavam alojados no 
burgo a que acima se fez referên- 
cia. Dispostas, assim as coisas, O 
Duque Valentino dirigiu-se para 
Sinigaglia, e quando chegou à 
ponte, com os primeiros cavalos, 
não a transpós; mas, detendo-se, 


[5 


voltaram os cavaleiros as garu- 
pas das suas montadas parte para 
o rio € parte para o campo; e dei- 
xaram caminho de permeio, por 
onde as tropas de infantaria pas- 
savam, as quais, sem se deter, 
entravam na cidade. Vitellozzo, 
Pagolo e o Duque de Gravina, 
montados em mulas, foram ao 
encontro do duque, acompa- 
nhados de poucos cavaleiros: e 
Vitellozzo, desarmado, com uma 
capa forrada de verde, todo afli- 
to, como se soubesse de sua pró- 
xima morte, dava de si, conhe- 
cida a coragem do homem e sua 
fortuna passada, alguma admira- 
ção. E se diz que, quando ele se 
separou da sua gente para ir a 
Sinigaglia ao encontro do duque, 
ele o fez como se fosse a sua últi- 
ma partida; aos membros da sua 
casa recomendou-a e a sua gló- 
ria; e advertiu os sobrinhos que 
não da fortuna de suas casas mas 
da virtude de seus pais se lem- 
brassem. 

Chegados enfim os três diante 
do duque e saudando-o civil- 
mente, foram por ele recebidos de 
bom grado; e logo por aqueles a 
quem fora cometida a tarefa de 
observá-los foram cercados. Mas 
vendo o duque que faltava Olive- 
rotto, o qual havia ficado com os 
seus homens em Sinigaglia ou 
atendia diante da praça do seu 
alojamento sobre o rio a mantê- 


154 


los em ordem e exercitá-los na- 
quilo, fez um sinal com os olhos 


a Dom Michele, ao qual fora 


confiada a parte referente a Oli- 
verotto, que agisse de maneira a 
que este não se livrasse. Então, 
Dom Michele, no seu cavalo, 
adiantou-se: e chegando junto a 
Oliverotto disse-lhe de como não 
era oportuno ter a sua gente reu- 
nida fora do alojamento porque 
este seria tomado pelo duque; e 
assim concitou-o a alojá-las e a 
que fosse com ele ao encontro do 
duque. E tendo Oliverotto segui- 
do tal ordem, veio o duque, que, 
vendo-o, o chamou: a isso, Olive- 
rotto, tendo feito reverência, jun- 
tou-se aos outros. E entrados em 
Sinigaglia, e apeados todos no 
alojamento do duque, e entrando 
com ele numa sala secreta, pelo 
duque foram feitos prisioneiros. 
Este logo montou a cavalo e 
mandou que fossem saqueadas as 
tropas de Oliverotto e dos Orsini. 
Assim foi com as de Oliverotto, 
por estarem próximas: as dos Or- 
sini e Vitelli, estando mais distan- 
tes e tendo pressentido a ruína de 
seus senhores, tiveram tempo de 
reunir-se; e lembrando-se da vir- 
tude e da disciplina das casas dos 
Orsini e dos Vitell, as quais 
eram estreitamente aliadas con- 
tra Os inimigos, se salvaram. Mas 
os soldados do duque, não estan- 


MAQUIAVEL 


do contentes com o saque das 
forças de Oliverotto, começaram 
a saquear Sinigaglia; e se não 
fosse ter o duque, com a morte de 
muitos, refreado a imsolência 
deles, tê-la-iam saqueado toda. 
Mas chegando a noite e cessados 
os tumuitos, ao duque pareceu 
bem mandar matar Vitellozzo e 
Oliverotto; e conduzindo-os jun- 
tamente a um lugar, mandou 
estrangulá-los. Tem-se que não 
foram usadas por nenhum deles 
palavras dignas de sua vida pas- 
sada: porque Vitellozzo rogou 
que por ele se suplicasse ao papa, 
que lhe desse dos seus pecados 
indulgência plena; Oliverotto, 
toda a culpa das injúrias feitas ao 
duque, chorando, atirava-a a Vi- 
tellozzo; Pagolo e o duque de 
Gravina Orsini foram conser- 
vados vivos, até que o duque 
soube que em Roma o papa 
havia prendido o Cardeal Orsini, 
o arcebispo de Florença e Messer 
Iacopo da Santa Croce. Depois 
desta nova, aos dias dezoito de 
janeiro, em Castel della Pieve, 
foram ainda aqueles estrangu- 
lados da mesma maneira. 

Termina aqui a descrição do 
modo de que se serviu o Duque 
Valentino para matar Vitellozzo, 
Oliverotto da Fermo, Pagolo Or- 
sino e o Duque de Gravina Orsi- 
ni, em Sinigaglia. 


DISCURSO SOBRE AS COISAS 
DA ALEMANHA 
ESOBREO IMPERADOR 


Nota do Tradutor 


Francesco Vettori, embaixador florentino junto à corte de Maximi- 
liano, escrevia ao seu governo em fins do ano de 1507 que era neces- 
sário pagar os cinquenta mil ducados que o imperador pedira, pois do 
contrário se podia contar com a inimizade dele. Discutiu-se muito em 
Florença o valor que podiam ter a amizade do imperador e a do rei 
de França, as quais eram incompatíveis. Em dezembro de 1507, par- 
tia para a Alemanha Maquiavel, que levava novas instruções: ofere- 
cer a Maximiliano trinta mil ducados e, somente em extrema necessi- 
dade, dar-lhe os cinquenta mil pedidos. Mas, em todo caso, só se 
começaria a fazer o pagamento quando houvesse a certeza de que ele 
viria a Itália. | 

Voltando a Florença, escreveu Maquiavel, a 17 de junho de 1508, 
o Rapporto di Cose della Magna, onde faz um fiel retrato de Maximi- 
liano e uma descrição geral do país. Os Ritratti delle Cose 
del? Alemagna são de data posterior (1512), e ficou interrompida a 
sua composição. Seria uma versão literariamente mais apurada do 
Rapporto e aumentada com observações inéditas. O Discorso sopra 
le Cose di Alemagna e sopra PImperatore é de 1509, sendo também 
quase um resumo do Rapporto. 


Por HAVER escrito quando 
aqui cheguei, ano passado, sobre 
o imperador e a Alemanha, não 
sei que dizer mais. Direi somente 
de novo da natureza do impera- 
dor; como é homem pródigo do 
seu, sobre todos os outros que em 
nossos tempos ou antes existi- 
ram: o que faz com que sempre 
tenha necessidade, nem soma al- 
guma exista que lhe baste, em 
qualquer grau que a fortuna se 
encontre. É vário, porque hoje 
quer uma coisa e amanhã não: 
quer as coisas que não podê ter e 
daquelas que pode ter se afasta, e 
por isso toma sempre o partido 
inverso. É, por outro lado, 
homem belicosíssimo; comanda e 
conduz bem um exército, com 
Justiça e com ordem. Pode supor- 
tar qualquer fadiga, mais que ne- 
nhum outro homem trabalhador; 
animoso nos perigos: de tal modo 
que, como capitão, não é inferior 
a nenhum outro. É humano quan- 
do dá audiência, mas a quer dar à 
sua vontade; nem quer ser corte- 
jado pelos embaixadores, senão 


quando lhes manda fazê-lo. É 
reservadissimo. Está sempre em 
contínuas agitações de alma e de 


corpo; mas frequentemente des- 
faz de noite o que conclui pela 
manha. Isto torna dificeis as 
legações junto a ele; porque a 
parte mais importante que tenha 
alguém que seja enviado dum 
principe ou república é inter- 
pretar bem as coisas futuras, 
assim os tratados como os fatos: 
porque quem deles conjetura sa- 
biamente e os faz compreender 
bem ao seu superior é razão para 
que este possa adiantar-se sempre 
e assegurar-se a seu devido 
tempo. Isso, quando bem feito, 
honra a quem está fora e benefi- 
cia quem está em casa: e o con- 
trário acontece quando é mal 
feito. E para vir a descrevê-las 
particularmente, vós estareis em 
lugares onde se manejarão duas 
coisas: guerra e tratados. A que- 
rer desempenhar bem vosso ofi- 
cio, vós deveis dizer que opinião 
se tenha de uma e de outra coisa. 


160 


A guerra deve-se medir com a 
tropa, com o dinheiro, com o 
govemo e com a fortuna; e quem 
tem mais das mencionadas coisas 
deve-se crer que vencerá. E consi- 
derado por isso quem possa ven- 
cer, é necessário que se entenda 
aqui, a fim de que vós e a cidade 
possais melhor deliberar. Os tra- 
tados são concluídos de várias 
“maneiras: isto é, parte entre os 
venezianos e o imperador, parte 
entre o imperador e a França, 
parte entre o imperador e o papa, 


MAQUIAVEL 


parte entre o imperador e vós. 
Pelos vossos próprios acordos 
deveria ser-vos fácil fazer a sua 
interpretação, e ver qual é o 
intento do imperador para con- 
vosco, o que deseje, para onde es- 
teja voltado o seu ânimo e o que 
seja necessário fazer para fazê-lo 
recuar ou ir por diante; e encon- 
trado isso, ver se está mais a pro- 
pósito temporizar que concluir. 
isso estará em vós deliberaá-lo, 
com relação a quanto se estende- 
rã à vossa comissão. 


RELATÓRIO SOBRE 
AS COISAS DA ALEMANHA 
RATO. 
17 DE JUNHO DE 1508 + 


O IMPERADOR reuniu, 
Junho passado, em Constança, a 
Dieta, composta por todos os 
príncipes da Alemanha, a fim de 
que lhe fossem garantidos meios 
de invadir a Itália e coroar-se 


imperador. O que fez por sua 


vontade própria e, ainda, por ter 
sido solicitado pelo enviado do 
pontífice, que lhe prometia gran- 
de ajuda por parte deste. Pediu o 
imperador à Dieta, para tal em- 
presa, três mil cavalos e dezesseis 
mil infantes; e prometeu juntar 
nesse total, por si mesmo, até 
trinta mil pessoas. À razão de ter 
ele pedido tão pouca gente para 
tao grande empresa foi: a pri- 
meira porque ele julgou que bas- 
tassem, persuadindo-se de que se 
poderia valer dos venezianos e de 
outros da Itália, como adiante se 


dirá; nem julgou nunca que os. 


venezianos lhe faltassem, tendo- 
os servido pouco antes, quando 
temiam a França, depois da to- 
mada de Gênova, porque havia, a 
pedido deles, mandado cerca de 
dois mil homens a Trento. Decla- 


em 


rara que queria reunir os prínci- 
pes e que tinha ido à Suábia para 
ameaçar os suíços se estes não 
rompessem com a França: o que 
fez com que o Rei Luis, logo de- 
pois da conquista de Gênova, 
regressasse a Lião de modo que, 
parecendo ao imperador que lhes 
tirara a guerra de cima, acredi- 
tava que em tudo o devessem 
apoiar; e se comprouve em dizer 
mais de uma vez que in Italia non 
habebat amicos propter Vene- 
tos*. As outras razões ainda por 
que pediu tão pouca gente foram 
que o império lhas prometesse e 
cumprisse; ou que condescen- 
desse de mais bom grado em pô- 
las todas sob sua obediência e 
não procurasse dar-lhe capitães 
nomeados pelo império e que fos- 
sem seus iguais. Porque não fal- 
tou quem na Dieta relembrasse 
(entre os quais estava o arcebispo 
de Mogúncia) que conviria fazer 
grande a expedição, provendo 


* Por causa dos venezianos não tinha amigos 
na Itália. (N. do E.) 


164 


pelo menos a quarenta mil ho- 
mens e lhes dar em nome do 
império quatro capitães, etc. *O 
que encolerizou o imperador, que 
disse: Ego possum ferre labores, 
volo etiam honores*: tanto que 
pediu os referidos dezenove mil 
homens e mais, que lhe dessem 
cento e vinte mil florins para su- 
prir à necessidade do acampa- 
mento e para pagar soldo a cinco 
mil suíços por seis meses, como 
melhor lhe parecia. Propôs o 
imperador que as tropas estives- 
sem reunidas no dia de São Galo; 
parecendo-lhe tempo mais que 
suficiente para tê-las prontas e 
cômodo ao modo pelo qual elas 
faziam a guerra. E em seguida 
declarou que dentro do tempo 
referido teria realizado três coi- 
sas: uma, O ter-se ganho o apoio 
dos venezianos, dos quais não 
desconfiou até a última hora, não 
obstante haver sido depois expul- 
so o enviado deles, como se sabe; 
a outra, ter firmes os suíços; a 
terceira, ter tirado do pontífice e 
de outros da Itália boa quanti- 
dade de dinheiro. 

Foi, portanto, combinando 
estas coisas: chegou o dia de São 
Galo; as tropas começaram a 
reunir-se e ele, das três, não havia 
realizado nenhuma. E parecen- 


S Eu posso enfrentar as dificuldades, quero 
também as honras. (N. do E.) , 


MAQUIAVEL 


do-lhe não poder mover-se nem 
deixando ainda de esperar condu- 
zi-las a termo, enviou as forças, 
parte para Trento, parte para ou- 
tros lugares; e não deixava as 
suas pretensões; de modo que ele 
se encontrou em janeiro é consu- 
mida a metade do tempo previsto 
pelo império, sem ter feito coisa 
alguma. Vendo-se chegado a este 
extremo, fez ultimatum de po- 
tentiaº para ter os venezianos; 


“aos quais mandou Fra Bianco, 


mandou o Padre Luca, mandou o 
déspota da Morea e os seus arau- 
tos várias vezes. E eles, quanto 
mais eram solicitados, tanto mais 
o percebiam fraco e mais lhes 
fugia a vontade. Nem aí perce- 
biam alguma daquelas coisas 
pelas quais as alianças de Esta- 
dos se fazem; que são, ou para 
ser defendido, ou por medo de ser 
ofendido. ou por lucro: mas viam 
que entravam para uma aliança 
onde a despesa e perigo era deles 
e o lucro de outros. Portanto, o 
imperador, sem ter outro partido 
a tomar, sem perder mais tempo, 


“deliberou atacá-los, acreditando, 


talvez, fazê-los recuar, e talvez 
lhe tenha sido dada a intenção 
disso pelos seus enviados: ou, 
pelo menos, com a desculpa de 
tal ataque, fazer com que o impé- 
rio afirmasse e acrescesse as suas 


8 Ultimatum de autoridade. (N. do E.) 


| 
| 


ESCRITOS POLÍTICOS 


tropas de reforço, percebendo 


que as primeiras não haviam bas-. 


tado. E como sabia que, antes de 
ter recebido maiores reforços, 
não podia estar fazendo a guerra, 
para não deixar o país à discri- 
ção, reuniu, antes do assalto, no 
dia 8 de janeiro, em Buggiano, 
lugar que fica a um dia de Tren- 
to, a Dieta do condado do Tirol. 
É este condado toda a parte que 
era de seu tio, e lhe rende mais de 
trezentos mil florins, sem imposi- 
ção de nenhum tributo, dá mais 
de dezesseis mil homens de guer- 
ra e os seus habitantes são muito 
ricos. Esteve essa dieta em ativi- 
dade dezenove dias; e afinal con- 
cluiu por dar mil infantes para 
sua vinda à Itália, e, não chegan- 
do, até cinco mil em três meses; e 
finalmente dez mil para a defesa 
do país, sendo necessário. E de- 
pois de tal conclusão, foi para 
Trento; e no dia 6 de fevereiro 
realizou aqueles dois ataques 
contra Roveredo e. Vicenza, com 
cerca de cinco mil homens ao 
todo. Depois partiu logo; e com 
cerca de mil e quinhentos infan- 
tes e camponeses entrou no vale 
de Codaura em direção do Trivi- 
giano: apoderou-se de: um vale e 
de diversas fortalezas; e vendo 
que os venezianos não se me- 
xiam, deixou avisadas aquelas 
tropas de que deviam entrar em 
ação e voltou para tomar conhe- 


165 


cimento das disposições do impé- 
rio. Os infantes foram mortos em 
Codaura e ele mandou o Duque 
de Brunswick, do qual nunca se 
soube coisa alguma. Reuniu a 
Dieta na Suábia” no terceiro 
domingo da Quaresma; e porque 
tudo lhe parecia ir mal, dirigiu-se 
a Gueldre e mandou o Padre 
Luca aos venezianos para tentar 
a trégua, que se concluiu no dia 6 
do presente mês de junho, per- 
dendo ele o que possuía no Friul, 
tendo quase perdido Trento, a 
qual foi defendida pelo condado 
do Tirol; porque pelo imperador 
e pelas forças imperiais pouco 
faltou para que se perdesse, pois 
todos partiam nos maiores peri- 
gos da guerra, quando se esgo- 
tava o prazo de seus seis meses. 
Sei que os homens, que ouvi- 
ram e viram estas coisas, confun- 
dem-se e divergem em muitas 
partes; nem sabem por que não 
se viram estas dezenove mil pes-, 
soas que o império prometeu, 
nem por que a Alemanha não se 
tenha ressentido da perda de sua 
honra, nem por que razão o 
imperador se tenha enganado 
tanto: e assim cada qual tem opi- 
nião diferente sobre aquilo que se 
dêva temer ou esperar para Oo 
futuro, e para onde as coisas se 
podem orientar. Eu, tendo estado 


7 Em Ulm. (N. do T.) 


166 


no local, e tendo ouvido falar 
muitas vezes a muitos, nem tendo 
tido outra tarefa que não esta, 
referirei todas as coisas que guar- 
dei; as quais, se não distinta- 
mente, todas -juntas, misturadas, 
responderão aos quesitos acima: 
nem as apresento como verda- 
deiras e ponderáveis, mas comc 
coisas ouvidas; parecendo-me 
que o ofício de um servidor seja 
colocar diante do seu senhor tudo 
quanto ele apura, para que, da- 
quilo que seja bom, ele possa 
fazer cabedal. 

Cada um daqueles a quem eu 
ouvi falar está de acordo em que 
se o imperador tivesse uma das 
duas coisas, sem dúvida lhe teria 
saído bem qualquer desígnio na 
Itália, sabendo-se como ela está 
condicionada: as quais são, ou 
que mudasse de natureza, ou que 
a Alemanha o ajudasse deveras. 
E começando-se pela primeira, 
dizem que, considerados os seus 
fundamentos, se ele deles se sou- 
besse valer não seria inferior a 
nenhum outro potentado cristão. 
Dizem que os seus Estados lhe 
dao de renda seiscentos mil flo- 
rins sem requerer qualquer tribu- 
to e cem mil florins lhe vale o ofií- 
cio imperial. Esta renda é toda 
sua, e não a tem por necessidade 
obrigada a nenhuma despesa. 
Porque em três coisas onde os 
outros príncipes são obrigados a 


MAQUIAVEL 


despender, ele não gasta um 
soldo; porque não tem gente de 
armas, não paga guarnições de 
fortalezas nem oficiais de terra: 
porque os gentis-homens do país 
estão armados às próprias 
custas; as fortalezas compete 
guardá-las ao país; e as cidades 
têm os seus burgomestres, que se 
interessam por elas. 

Poderia, portanto, se fosse um 
rei de Espanha, em pouco tempo 
criar tão grande base por si 
mesmo, que lhe sairia bem qual- 
quer coisa: porque, com um capi- 
tal de oitocentos ou novecentos 
mil florins, o império não seria 
tão desprezível; e o país por 
pouco que fizesse não deixaria de 
resultar em grande aumento: e 
tendo a possibilidade de fazer 
guerra de súbito, por ter gente ar- 
mada em toda parte, poderia, 
encontrando-se provido de di- 
nheiro, mover campanha sem 
detença e encontrar, em matéria 
de armas, quem quer que fosse, 
desprevenido. Acrescente-se a 
isto a reputação que advém do 
fato de ter ele, por sobrinhos, o 
rei de Castela, o duque de Borgo- 
nha e o conde de Flandres; a 
aliança que tem com a Ingla- 
terra: estas coisas lhe seriam de 
grande utilidade quando fossem 
bem empregadas, de modo que 
sem dúvida todos os projetos na 
Itália lhe resultariam bem. Mas 


ESCRITOS POLÍTICOS 


mesmo com todas as arrecada- 
ções mencionadas, ele nunca tem 
dinheiro algum; e, o que é pior, 
não vê aonde o dinheiro vai. 
Quanto ao manejar as outras 
coisas, o Padre Luca, que é um 
dos principais homens de que ele 
se utiliza, disse-me estas pala- 
vras: o imperador não pede con- 
selho a ninguém e é aconselhado 
por todos; quer fazer tudo por si 
e nada faz a seu modo; porque, 
não obstante não descobrir ele 
nunca os seus segredos esponta- 
neamente, como o assunto os 
descobre, o imperador volve as 
costas aos que lhe estão ao derre- 
dor e se afasta daquela sua pri- 
meira ordem. E são estas duas 
coisas: a liberalidade e a facili- 
dade, que o fazem louvado de 
muitos que o arruínam. Nem a 
sua vinda à Itália é por outra 
razão tão espantosa quanto -por 
esta: porque com a vitória as 
necessidades lhe cresciam, não 
lhe convindo haver firmado pé 
assim depressa; e não mudando 
de maneiras, se as frondes das ár- 
vores da Itália se lhe tivessem 
transformado em ducados, não 
lhe bastariam. Não há coisa que, 
com dinheiro na mão, não se 
tivesse então obtido: e contudo 
muitos julgavam prudentes aos 
que custavam mais a dar-lhe 
dinheiro a primeira vez, porque 
estes não teriam de custar ainda 


167 


mais a dar-lho a segunda. E. 
quando eles não tivessem tido ou- 
tras ações contra o príncipe, este 
lhes teria pedido dinheiro em 
empréstimo; e se não lhe fosse 
emprestada a soma pedida até 
então, ter-se-iam eles tirado fora. 
Eu vos quero dar disto uma veris- 
sima demonstração. Quando 
Messer Pagolo, a 29 de março, 
fez aquela pergunta, eu, despa- 
chado que foi Francisco por ele, 
fui visitá-lo com o capítulo feito 
relativamente à vossa petição; e 
quando ele chegou aquela parte 
que diz non possit Imperator pe- 
tere aliam summam pecuniarum, 
etc., queria que antes de petere se 
pusesse iureº: e perguntando-lhe 
eu por quê, respondeu que queria 
que o imperador vos pudesse 
solicitar dinheiro em emprés- 
timo; então lhe respondi de ma- 
neira que ele se contentou. E 
notai isto: que das suas fre- 
quentes desordens nascem as 
suas frequentes necessidades, e 
das frequentes suas necessidades 
os frequentes pedidos, e destes as 
frequentes Dietas, e do seu pouco 
critério as fracas resoluções e 
fraquíssimas execuções. 

Mas se tivesse vindo à Itália, 
vós o não teríeis podido satisfa- 


8 ...parte que diz: “O imperador não pode 
exigir outra soma de dinheiro, etc., queria que 
antes de exigir se pusesse por direito. (N. do 
E.) 


168 


zer nas reuniões da Dieta como 
faz a Alemanha. E tanto mais o 
prejudica esta sua liberalidade, 
quanto para fazer a guerra lhe é 
necessário mais dinheiro .que a 
qualquer outro príncipe: porque 
OS seus povos, por serem livres e 
ricos, não são instados nem pela 
necessidade nem atraídos por 
qualquer afeição, mas o servem 
pela determinação da sua comu- 
nidade e pelo seu preço; de 
maneira que, se ao fim de trinta 
dias o dinheiro não aparece, logo 
partem e não os podem reter 
rogos ou esperança ou ameaça, 
faltando-lhes o dinheiro. E se 
digo que os povos da Alemanha 
são ricos é que assim é a verdade; 
e o que os faz ricos, em grande 
parte, é o viver como pobres; 
porque não edificam, não vestem 
e não têm mantimentos em casa, 
e lhes basta ter pão e carne em 
' abundância e uma estufa para 
fugir do frio. Quem não tem ou- 
tras coisas, passa sem elas e não 
as procura. Gastam consigo dois 
florins em dez anos, e cada qual 
vive segundo a sua vontade a esta 
proporção, e ninguém se importa 
com aquilo que lhe falta e sim 
com aquilo que tem de necessá- 
rio; e as suas necessidades são 
muito menores do que as nossas: 
e deste costume resulta que não 
sai dinheiro de seu país e eles 
estão contentes com o que lá se 


MAQUIAVEL 


produz; e gozam sua vida rústica 
e livre e não querem ir à guerra se 
não são bem pagos, e isto tam- 
bém não lhes bastaria se as 
comunidades assim não lhes de- 
terminassem: e assim ao impera- 
dor seria necessário muito mais 
dinheiro do que ao rei de Espa- 
nha ou a outros que tenham orde- 
nado o seu povo de modo dife- 
rente. 

A sua fácil e boa natureza faz 
com que cada um que ele tem ao 
seu redor o engane: e declarou- 
me um dos seus que cada homem 
e cada fato o pode enganar uma 
vez quando ele o percebeu: mas 
são tantos os homens, tantos os 
fatos, que lhe pode suceder ser 
enganado todos os dias, mesmo 
que ele sempre se apercebesse do 
engano. Possui infinitas virtudes; 
e se combinasse as duas partes 
mencionadas, seria um homem 
perfeitíssimo: porque êle é per- 
feito capitão; mantém o país com 
grande justiça; acessível às au- 
diências e benéfico, e muitas ou- 
tras qualidades de ótimo prínci- 
pe: concluindo que se temperasse 
aquelas duas podem todos perce- 
ber que todas as coisas lhe da- 
riam bom resultado. 

Da potência da Alemanha nin- 
guém pode duvidar; porque tem 
ela abundância de homens, . de 
riquezas e de armas. E quanto à 
riqueza, não há comunidade que 


i 
| 


ESCRITOS POLÍTICOS 


não tenha dinheiro economizado; 
e todos dizem que Estrasburgo 
sozinha tem vários milhões de 
florins em prata: e isto lhe vem 
de não terem despesa que os faça 
gastar mais dinheiro do que a que 
fazem para se fornecer de muni- 
ções; nas quais, tendo despen- 
dido certa soma de uma vez, des- 
pendem pouco em mantê-las. E 
nisso são bem ordenados porque 
têm sempre em público o que 
fazem para se fornecer de muni- 
ções; nas quais, tendo despen- 
dido certa soma de uma vez, des- 
pendem pouco em mantê-las. E 
nisso são bem ordenados porque 
têm sempre em público o que 
- comer, beber, queimar durante 
um ano; e da mesma maneira, O 
que por um ano trabalhar nas 
suas indústrias, para poder, em 
caso de necessidade, dar de 
comer à plebe, e áqueles que 
vivem dos braços, por um ano 
inteiro, sem perda. Em soldados 
não gastam porque têm os seus 
homens armados e exercitados. 
Em salários e em outras coisas, 
gastam pouco: de tal forma que 
cada comunidade se encontra 
rica. Resta agora que as cidades 
se unam aos príncipes para favo- 
recer os empreendimentos do im- 
perador ou que, por si mesmas, 
sem os príncipes, o desejem levar 
adiante, pois que bastariam a 
isso. E aqueles que falam disso 


169 


dizem que a causa da desunião 
está no fato de existirem muitos 
temperamentos contrários naque- 
la província, o que produz desu- 
nião geral, dizendo que os suíços 
estão em inimizade com a Ale- 
manha, as comunidades com os 
principes e os príncipes com o 
imperador. E parece talvez coisa 
estranha dizer que os suíços e as 
comunidades sejam inimigos, 
atendendo ambos ao mesmo de- 
signio de salvar a liberdade e 
guardar-se dos príncipes: mas 
esta sua desunião existe porque 
Os suíços não somente são inimi- 
gos dos príncipes como das co- 
munidades, mas também são ini- 
migos dos gentis-homens; porque 
no seu país não existe nem de 
uma nem de outra espécie, e 
gozam de uma verdadeira liber- 
dade sem distinção nenhuma nos 
homens, salvo aqueles que exer- 
cem a magistratura. Este exem- 
plo dos suíços faz medo aos 
gentis-homens que  permane- 
ceram nas comunidades; e toda a 
sua indústria está em mantê-los 
desunidos; e pouco amigos deles. 
São ainda inimigos dos suíços 
todos aqueles homens das comu- 
nidades que atendem aos miste- 
res da guerra, movidos por uma 
inveja natural, parecendo-lhes ser 
menos estimados nas armas que 
aqueles; de modo que não se. 
pode reunir num campo pequeno 


170 | MAQUIAVEL 


um grande número desses, que 
não briguem entre si. 

Quanto à inimizade dos prínci- 
pes com as comunidades e com 
os suíços, não é preciso falar 
mais, sendo coisa conhecida; e 
assim também que existe entre o 
imperador e os ditos príncipes. E 
deveis compreender que, tendo o 
imperador seu Ódio principal 
contra os príncipes e não poden- 
do por si mesmo rebaixá-los, 
valeu-se dos favores das comuni- 
dades e por esta mesma razão, de 
um tempo a esta parte, entreteve 
os suíços, com os quais lhe pare- 
cia ultimamente ter chegado a 
um certo grau de confiança. 
Tanto que, consideradas, em 
geral todas estas divisões, e jun- 
tando-se depois as que existem 
entre um príncipe e outro, e uma 
comunidade e outra, tornam difi- 
cil a união, de que o imperador 
teria necessidade. E aquilo que 
fazia com que todos confiassem, 
que tornava gloriosas as ações do 
imperador e plausíveis as suas 
empresas, é que não se via prin- 
cipe na Alemanha que pudesse 


opor-se aos seus desígnios, como: 


antigamente houve: o que era e é 
a verdade. Mas aquilo em que os 
outros se enganavam é que não 
somente o imperador pode ser re- 
tido se se lhe mover guerra e 
tumulto na Alemanha, mas ele 
pode ser ainda retido se não for 


ajudado; e aqueles que não 
ousam mover-lhe a guerra ousam 
retirar-lhe os auxílios; e quem 
não ousa negar-lhos ousa, prome- 
tidos que os tem, não observar a 
promessa; e quem ainda não 
ousa isso ousa diferir-lhos, de 
modo que não cheguem em 
tempo útil. E todas estas coisas o 
ofendem e o perturbam. Sabe-se 
disto por ter-lhe a Dieta prometi- 
do, como se disse acima, deze- 
nove mil homens, e por não se 
terem visto nunca tantos que che- 
gassem a cinco mil. Pode-se con- 
siderar que se origine tal fato das 
razões mencionadas, ou de ter ele 
tomado dinheiro em vez de gente, 
e talvez por ter tomado cinco por 
dez. E para chegar a outra afir- 
mação relativamente à potência 
da Alemanha e da sua união, 
digo que este poder está mais nas 
comunidades que nos príncipes. 
Porque os príncipes são de duas 
naturezas: ou temporais ou espi- 
rituais. Os temporais estão como 
que reduzidos a uma grande debi- 
lidade; parte por eles mesmos, 
sendo cada principado dividido 
em diversos príncipes pela divi- 
são igual da herança que eles 
observam, parte por havê-los re- 
baixado o imperador com o favor 
das comunas, como se disse, de 
tal maneira, que são amigos inú- 
teis e inimigos pouco -temíveis. 
Existem ainda, como foi dito, os 


| 
| 
| 


ESCRITOS POLÍTICOS 


príncipes eclesiásticos: os quais, 
se as divisões hereditárias não os 
aniquilaram, os reduziu a ambi- 
ção das suas comunidades, com 
o favor do imperador; de tal 
maneira que os arcebispos eleito- 
res e outros semelhantes nada 
podem nas grandes comunidades 
próprias: do que advém que nem 
eles nem as suas terras, sendo 
divididas juntamente, podem fa- 
vorecer empresas do imperador 
quando bem o desejassem. 

Mas venhamos às comuni- 
dades francas e imperiais, que 
são o nervo daquela província; 
onde há dinheiro e ordem. Estas 
têm muitas razões de não se mos- 
trar solicitas em prover o impera- 
dor de dinheiro, pois lhe é inten- 
ção principal manter a própria 
liberdade e não conquistar mais 
império; e aquilo que não dese- 
jam para si não cuidam para que 
outrem o tenha. Além disso, por 
serem tantas, e cada qual gover- 
nar-se por si, as suas provisões, 
quando o desejam fazer, são tar- 
das e não possuem a utilidade 
que seria de desejar. Por exem- 
plo, há isto: os suíços, nove anos 
faz agora, assaltaram o Estado 
de Maximiliano e a Suábia. Con- 
veio o rei com estas comunidades 
em reprimi-los; e eles se obriga- 
ram a manter em campo catorze 
mil homens, mas destes nunca se 
viu nem a metade; porque quan- 


“conhecer 


11 


do os de uma comunidade vi- 
nham os da outra se retiravam. 
Assim, o imperador, desesperado 
daquela empresa, fez acordo com 
os suíços e lhes deixou Basiléia. 
Ora, se nos seus próprios interes- 
ses as comunas têm usado destes 


termos, pensai no que fariam 
quando se tratasse de empresas 
de outrem. Donde todas estas 
coisas reunidas fazem com que 


esta potência se torne pequena e 
pouce útil ao imperador. E por- 
que os venezianos, no comércio 
que mantêm com os mercadores 
das comunas da Alemanha, com- 


preenderam isso melhor do que 
quaisquer outros da Itália, me- 
lhor se opuseram; porque se eles 
houvessem temido esta potência 
não se lhe teriam oposto, e 
mesmo se, quando se lhe tives- 
sem oposto, tivessem Julgado 


possível que aquelas comunas se 
pudessem unir, nunca a teriam 
feido; mas porque lhes parecia 
esta impossibilidade, 
foram fortes como se viu. Não 
obstante, quase todos os italianos 
que estão.na corte do imperador 
(dos quais ouvi dizer as mencio- 
nadas coisas) permanecem agar- 
rados a esta esperança, a saber, 
de que a Alemanha se empenhe 
em unir-se agora e b imperador 
atirar-se-lhe ao ventre, e manter 
agora aquela ordem de capitães e 


Jr? 


das gentes de que se falou no ano 
passado na Dieta de Constança; 
e que o imperador agora cederá 
por necessidade, e eles o farão de 
bom grado, para reaver a honra 
do império; e a trégua não os 
iricomodará, pois será feita pelo 
imperador e não por eles. Ao que 
responde alguém não dar muita 


fé a que isto esteja para aconte-' 


cer; porque se vê todos os dias 
que as coisas que numa cidade 
pertencem a muitos são descura- 
das: tanto mais deve acontecer 
numa província. Além disso, as 
comunidades sabem que a con- 
quista da Itália seria para os 
príncipes e não para eles; poden- 
do estes vir a gozar pessoalmente 


MAQUIAVEL 


as cidades da Itália e eles não: e 
onde a recompensa deva ser desi- 
gual, os homens pouco se .esfor- 
çam, e de mã vontade. Assim, 
permanece esta opinião indecisa, 
sem poder resolver-se sobre o que 
há de acontecer. 

E isto é o que eu entendo da 


. Alemanha, Com relação às ou- 


tras coisas, do que poderia haver 
de paz e de guerra entre os prínci- 
pes, ouvi dizer muitas coisas; 
que, por serem fundadas todas 
em conjeturas (do que se tem 
aqui mais verdadeira notícia e 
melhor Juízo), deixá-las-ei de 
parte. Valete”. 


3 Saudações. (N. do E.) 


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AS TROPAS alemãs são muito 
bem montadas, mas são pesadas, 
e outrossim são muito bem arma- 
das na parte que usam armar. 
Mas deve-se notar que num pré- 
lo de armas contra italianos ou 
franceses nada valeriam; não 
pela qualidade dos homens, mas 
porque não usam nos cavalos 
armadura de nenhuma espécie, e 
as selas pequenas, fracas e sem 
estribos, de maneira que qualquer 
pequeno choque os atira por 
terra. Eis outra coisa que os 
torna mais débeis: do busto para 
baixo, isto é, coxas e pernas, não 
se resguardam em nada; de modo 
que, não podendo agúentar a pri- 
meira investida, e nisso consiste a 
importância das tropas e do feito 
de armas, não podem mais com- 
bater com arma curta; porque 
podem ser atingidos, assim como 
os seus cavalos, nos lugares des- 
guarnecidos, e está nas possibili- 
dades de qualquer peão com 
lança arrancá-los dos cavalos ou 
destripá-los; e além disso, pelo 
seu próprio peso, mal se agúen- 


tam, quando se agitam os cava- 
los. 

As tropas de infantaria são óti- 
mas, e compostas de homens de 
bela estatura; ao contrário dos 
suíços, que são pequenos, e não 
são limpos nem belos: mas não 
se armam, ou poucos, com mais 
do que a lança ou adaga, para ser 
mais àgeis, prestos e leves. E cos- 
tumam dizer que fazem assim 
por não ter outro inimigo que 
não a artilharia, da qual uma 
armadura, couraça, cota de 
malha não os defenderia. Outras 
armas não temem, pois afirmam 
possuir tal ordem, que não é pos- 
sível entrar entre eles, nem apro- 
ximar-se-lhes quando a lança é 
longa. São ótimos homens nas 
batalhas campais, mas para o 
assalto a fortalezas não valem, € 
pouco para defendê-las; e em 
geral, onde não podem manter a 
ordem da sua milícia, não valem. 
Disto se teve a experiência depois 
que tiveram que se avir com os 
italianos; e máxime onde tiveram 


176 


que conquistar cidadelas, como 
aconteceu em Pádua e outros 
lugares, no que provaram mal; e, 
ao contrário, onde se encon- 
traram em campo, fizeram boa 
figura. De modo que, se na jorna- 
da de Ravena, entre os franceses 
e os espanhóis, aqueles não tives- 
sem contado com os lansquene- 
tes, teriam perdido a batalha; 
porque enquanto uma parte da 
tropa se empenhava com a outra, 
os espanhóis haviam já rompido 


MAQUIAVEL 


a infantaria francesa e a gasca; e 
se os alemães com a sua presteza 
não os socorressem, ali teriam 
todas sido mortas e tomadas. E 
assim se viu. que, ultimamente, 
quando o Rei Católico declarou 
guerra à França na Guiena, as 
tropas espanholas temiam mais 
um grupo de alemães que o rei 
tinha, de dez mil, do que a todo o 
resto da infantaria, e evitavam as 
ocasiões de encontrar-se com 
eles. 


Rd! ú a 


DA NATUREZA 
DOS FRANCESES 


Nota do Tradutor 


Maquiavel tem evidente antipatia pela França e pelos franceses e a 
manifesta nos Ritratti delle Cose di Francia, escrito que data da sua 
última legação à França, em 1510, e principalmente no Della Natura 
dei Francesi, pequeno escrito composto de breves conceitos sobre a 
psicologia do povo francês. 

Júlio II, fazendo a paz com Veneza e recuperando a Romanha, 
rompia com a França e lançava as bases da Lega Santa. Florença 
via-se em situação embaraçosa. Luís XII exigia da república formais 
promessas de auxílio na guerra que fazia a Veneza. O papa, por outro 
lado, requestava o apoio de Florença à liga antifrancesa. O interesse 
da república era, assim, contemporizar, deixando de ajudar efetiva- 
mente a qualquer dos campos adversos. 

Nos primeiros dias de julho partia Maquiavel para a França muni- 
do da commissione dos “Dez” e instruções reservadas do Gonfalo- 
neiro. Apesar das dificuldades da situação, conseguiu ele justificar 
perante o rei a política de Florença, tolhida entre a necessidade de 
cumprir as suas obrigações para com a França e o temor de chocar- 
se contra a Igreja. 

Durante esta terceira legação à França póde Maquiavel estudar o 
caráter da organização política e econômica do reino, como já o fize- 
ra para a Alemanha. Os Ritratti tiveram sucessivas redações, a últi- 
ma das quais é de 1510 ou 1511, e onde, apesar da desordem da 
segunda parte e de algumas inexatidões, revela Maquiavel a mesma 
acurada observação das linhas essenciais e características dos 
Estados. 


EsTIMAM tanto a utilidade e o 
dano presentes, que lhes fica 
pouca lembrança das injúrias e 
benefícios passados e pouco cui- 
dado do bem ou do mal do 
futuro. 


São antes retrógrados que pru- 
dentes. Não se importam muito 
do que se escreva ou se diga 
deles. São mais cúpidos de di- 
nheiro do que de sangue. São 
liberais somente em ouvir. 

A um senhor ou gentil-homem 
que desobedeça ao rei numa 
coisa que pertença a um terceiro 
não resta remédio que não o de 
lhe obedecer de qualquer manei- 
ra, quando ainda está em tempo; 
e quando não, ficar quatro meses 
sem aparecer na corte. E isto vos 
arrebatou Pisa duas vezes: uma 
quando Entraigues tinha a cida- 
dela; a outra quando o campo 
francês nos veio. 

Quem quer levar um negócio a 
bom termo na corte precisa de 


muito dinheiro, grande diligência 


e boa fortuna. 


Pretendendo um benefício, 
pensam antes na utilidade que 
dele podem tirar, do que no servi- 
ço que poderão prestar. 

Os primeiros acordos com eles 
são sempre os melhores. 

Quando nao te podem fazer 
bem, to prometem; quando 
podem fazer, fazem-no com difi- 
culdade ou nunca. 

São humilimos na má sorte; na 
boa, insolentes. | 

Tecem bem as suas intrigas 
urdidas com a força. Quem vence 
estã, por isso mesmo e quase 
sempre, com o rei; quem perde, 
raríssimas vezes: e por isso; quem 
tem que realizar uma empresa 
deve logo considerar se ela lhe 
sairá bem ou não. É” este capítulo 
conhecido de Valentino, pois o 
fez vir a Florença com o exército. 

Estimam em muitas coisas sua 
honra grosseiramente e de manei- 
ra desconforme à dos senhores 
italianos: e por isso bem pouco se 
importam de haver mandado a 
Siena a pedir Montepulciano e 
não ser obedecidos. 


182 MAQUIAVEL 


São incoústantes e levianos. Dos italianos, não tem bom 
Têm fé no vencedor. São inimi- tempo na corte senão quem não 
gos do falar romano e da sua tem mais o que perder e navega 
fama. por perdido. 


“RELAÇÃO 
SOBRE A FRANÇA 


A COROA e os reis de França 


são hoje mais ricos e mais pode- 
rosos do que nunca, pelas razões 
abaixo mencionadas; e antes: 

A coroa, sendo . transmitida 
por sucessão de sangue, tornou- 
se rica; porque às vezes, o rei não 
tendo filhos, nem quem o suce- 
desse na própria herança, os seus 
haveres e os Estados ficaram 
para a coroa. E tendo acontecido 
isto a muitos reis, a coroa veio a 
ser muito enriquecida pelos muii- 
tos Estados que lhe couberam; 
como aconteceu com o ducado 
de Anjou, € no presente, como 
acontecerá ao atual rei, que, por 
não ter filhos varões, deixará 
para a coroa o ducado de Or- 
leans e o Estado de Milão: de 
modo que hoje todas as boas ter- 
ras de França são da coroa e não 
dos seus barões particularmente. 

Uma outra razão existe, pode- 
rosíssima, da força daquele rei: é 
que no passado a França não es- 
tava unida devido aos poderosos 
barões, que tudo ousavam e lhes 
bastava a vontade para se entre- 


gar a qualquer empreendimento 
contra os. reis: como acontecia 
com um duque de Guiena e de 
Bourbon: os quais são hoje todos 
muito obsequiosos. Veio a ser 
assim o mais forte. 

Eis uma outra razão: que a 
qualquer outro príncipe vizinho 
bastava somente a vontade de 
atacar o reino de França, e isto 
porque sempre havia um duque 
da Bretanha, ou um duque de 
Guiena, de Borgonha, ou de 
Flandres, que lhe servia de ajuda, 
cedia-lhe o passo e o fazia de 
amigo, como acontecia quando 
os ingleses estavam em guerra 
com a França, que sempre por 
intermédio de um duque de Bre- 


“tanha davam que fazer ao rei; e, 


da mesma maneira um duque de 
Borgonha por meio de. um duque 
de Bourbon. Agora sendo a Bre- 
tanha, a Guiena, o Bourbonês e a 
maior parte da Borgonha súditos 
obsequiosíssimos da França, não 
só faltam a tais príncipes estes 
meios de poder invadir o reinado 
de França, mas os têm hoje por 


186 MAQUIAVEL 


inimigos; também o rei, por pos- 
suir estes Estados, é mais pode- 
roso e O inimigo mais fraco. 

Eis ainda uma outra razão: 
que hoje os mais ricos e os mais 
poderosos barões de França são 
de sangue real e da linha heredi- 
tária, de modo que, faltando 
algum dos superiores e ascen- 
dentes seus, a coroa lhe pode ser 
outorgada. E por isso cada qual 
se mantém unido à coroa, espe- 
rando que ou ele mesmo ou um 
de seus filhos possam chegar 
aquele grau. E o rebelar-se ou 
tornar-se inimigo poderia ser 
mais prejudicial do que benéfico: 
como esteve para acontecer a 
este rei, quando foi preso na jor- 
nada de Bretanha, aonde fora em 
favor daquele duque e contra os 
franceses!º:; e se discutiu se, 
morto que foi o Rei Carlos, por 
aquela falta e defecção ele deves- 
se ter perdido o direito de suce- 
der. E se não fosse ser ele homem 
de dinheiro pelas economias que 
fizera, e pôde gastar, e depois 
aquele que podia ser rei, afastado 
ele próprio, era menino, isto é, o 
Senhor de Angoulême; este rei, 
pelas razões expostas, e por me- 
recer também algum favor, foi 
feito rei. 


10 Luís XII tinha tomado armas contra a 
regência de Ana, duquesa de Bourbon, na 
minoridade de Carlos VIII, dos quais era 
cunhado. (N. do T.) 


A última razão que existe é 
esta: que os Estados dos barões 
de França não se dividem entre 
os herdeiros, como se faz na Ale- 
manha e em outras partes da Itá- 
ha; antes cabem sempre aos 
primogênitos e eles são os verda- 
deiros herdeiros: e os outros 
irmãos ficam em paz; e ajudados 
pelo primogênito e irmão deles, 
dão-se todos às armas, e se empe- 
nham na tarefa de chegar ao 
ponto e em condições de poder 
comprar para si um Estado, e 
com essa esperança vivem. Disto 
advém que os homens de armas 
franceses são hoje os melhores 
que existem, pois que são todos 
nobres e filhos de senhores e 
estão em condições de chegar a 
tal grau. 

As tropas de infantaria que se 
formam na França não podem 
ser boas porque faz muito tempo 
que não têm guerra, e por isso 
não têm experiência alguma. E 
além disso os seus homens estão 
pelas cidades, todos de condição 
popular e trabalhadores; e estão 
de tal maneira submetidos aos 
nobres e tornam-se tão abatidos 
na ação, que chegam a ser des- 
prezíveis. Assim se vê que o rei 
nas guerras não se serve deles, 
porque provam mal, havendo 
entretanto os gascões, dos quais 
O rei se serve, pois são um pouco 
melhores que os outros; e isto 


ESCRITOS POLÍTICOS 187 


advém do fato de serem vizinhos 
das fronteiras de Espanha,. de 
modo que têm um pouco do cará- 


ter espanhol. Mas deram, pelo 
que se viu há muitos anos a esta 


parte, mais provas de serem 
ladrões do que de homens valen- 
tes. Entretanto, no defender e 


assaltar fortalezas provam muito 
bem; mas em campanha dão mau 


resultado: assim vêm a ser o con- 
trário dos alemães e dos suíços, 
os quais no campo não têm igual, 
mas para defender e ofender for- 


talezas nada valem. E por isso o 
rei de França se serve sempre dos 


suíços ou dos lansquenetes!! 
porque os seus homens de armas, 
onde se tenha inimigo, não se 
fiam dos gascões. E se a infanta- 
ria fosse da qualidade que são os 
homens de armas franceses, não 
hã dúvida que lhes bastaria o 
animo para defender-se de todos 
os príncipes. 

Os franceses são por sua natu- 
reza mais valentes que fortes ou 
destros; e no primeiro impeto, se 
se lhes puder resistir à sua feroci- 
dade, tornam-se tão humildes e 
perdem de tal maneira o ânimo 
que se tomam iguais a fracas 
mulheres. E também não supor- 
tam aborrecimentos e incômo- 
dos; e com o tempo descuram as 


1 Lansquenetes = tropa de infantaria merce- 
nária composta de soldados alemães armados 
de lança. (N. do T) 


coisas de modo que é fácil, 
encontrando-os em desordem, su- 
perá-los. Disto se teve a expe- 
riência no reino de Nápoles tan- 
tas vezes, e ultimamente no 
Garigliano; onde eram superiores 
ao dobro dos espanhóis; e se jul- 
gava que os devessem a cada 
momento aniquilar. Contudo, 
porque começava o inverno e as 
chuvas eram fortes, começaram 
Os franceses a retirar-se um a um 
para as cidades circunvizinhas, 
para viver com mais conforto; e 
assim o campo ficou desfalcado e 
com pouca ordem, de maneira 
que os espanhóis foram vitorio- 
sos, contra todas as razões. Teria 
acontecido o mesmo aos venezia- 
nos; não teriam perdido a jorna- 
da de Vaila, se tivessem ido 
seguindo os franceses pelo menos 
dez dias: mas o furor de Barto- 
lommeo d'Alviano encontrou um 
furor maior. O mesmo aconteceu 
em Ravena aos espanhóis, que 
não se aproximavam dos france- 
ses e os desorganizavam, consi- 
derando a indisciplina e a falta de 
víveres, que lhos impediam os 
venezianos através de Ferrara, e 
os de Bolonha teriam sido impe- 
didos pelos espanhóis; mas por- 
que tiveram pouco conselho uns, 


-€ os outros menos juízo, O exér- 


cito francês foi vencedor; embora 
a sua vitória fosse sangrenta. E se 
o conflito foi grande, maior teria 


88 | MAQUIAVEL 


sido se a força principal de um 
campo e de outro tivesse sido da 
mesma categoria, tanto um como 
outro. Mas o exército francês era 
forte na gente de armas, o espa- 
nhol na infantaria; e por isso não 
houve grande carnificina. E con- 
tudo, quem quiser superar os 
franceses deve guardar-se do seu 
primeiro ímpeto; que, com o ir 
entretendo-os, pelas razões acima 
mencionadas, os vencerá. E por 
isso César disse que os franceses 
são no princípio mais do que ho- 
mens e, no fim, menos do que 
mulheres. 

A França, pela sua grandeza e 
pela comodidade de grandes rios, 
é fértil e opulenta; donde os reba- 
nhos e os trabalhos manuais 
valerem pouco ou nada, pela 
falta de dinheiro que têm as 
populações, as quais apenas 
podem reunir o suficiente para 
pagar ao seu senhor os impostos, 
ainda que sejam baixíssimos. Isto 
acontece porque não têm onde 
vender os seus rebanhos deles; 
porque todo homem colhe para 
vender: de maneira que, se em 
uma cidade houvesse alguém que 
quisesse vender uma medida de 
grão, não encontraria. compra- 
dor, porque todos têm grão que 
vende. E os gentis-homens, do 
dinheiro que recebem dos súdi- 
tos, fora o que gastam em vestir- 
se, não gastam nada: porque têm 


eles próprios gado suficiente para 
consumir, assim como criações 
de aves, lagos, lugares cheios de 
caça de toda a espécie; e assim 
em geral cada um deles nas cida- 
des, de modo que todo o dinheiro 
se concentra na mão dos senho- 
res; por isso hoje sua riqueza é 
grande: e assim, quando os do 
povo têm um florim, parece-lhes ' 
que são ricos. 

Os prelados de França tiram 
dois quintos das rendas daquele 
reino, porque existem muitos bis- 
pados que têm o temporal e- o: 
espiritual: e além disso, tendo 
bastante para a sua subsistência, 
todas as prestações e dinheiros 
que lhes vão às mãos não lhes 
saem mais, segundo a natureza 
avara dos prelados e religiosos; e 
aquilo que vai aos capítulos e 
colégios das igrejas é gasto em 
pratas, jóias, riquezas para orna- 
mento das igrejas. Assim, o que 
possuem as igrejas e o que têm os 
prelados em particular, entre di- 
nheiro e prataria, vale tesouros 
infinitos. 

No consultar e governar as 
coisas da coroa e Estado de 
França, os prelados sempre inter- 
vêm em maior parte; e os outros 
senhores não se importam porque 
sabem que eles próprios é que 
têm de executar as medidas pro- 
postas pelo governo. E assim, 
cada qual se contenta, um com o 


' ESCRITOS POLÍTICOS 


ordenar, outro com o executar: 
embora intervenham ainda ve- 
lhos e já experimentados homens 
de guerra, para que, quando se 
deve tratar de coisas semelhan- 
tes, possam orientar os prelados, 
que não têm prática disso. 

Os beneficios! 2 de França, em 
virtude “da pragmática obtida 
pelos pontífices hã muito tempo, 
são conferidos pelos seus colé- 
gios: de maneira que os cônegos, 
quando o seu arcebispo ou bispo 
morre, reunidos todos, conferem 
o benefício a quem deles lhes 
parecer que mereça. Dessa ma- 
neira, frequentemente têm algu- 
ma dissensão, pois há sempre 
quem se favoreça com o dinheiro 
e alguém com a virtude e boas 
obras. A mesma coisa fazem os 
monges ao eleger os abades. Os 
outros pequenos benefícios são 
conferidos pelos bispos aos quais 
estão submetidos. E se por acaso 
o rei quisesse contrariar tal prag- 
mática, elegendo um bispo a seu 
modo, seria necessário que usas- 
se de força, porque negariam 
posse a este; € mesmo que sejam 
a isso obrigados, costumam, 
morto que seja o rei, desapossar 
o prelado para dar o beneficio a 
outro, eleito por eles. 

A natureza dos franceses é 
ambiciosa do que pertence aos 


12 Os cargos episcopais. (N. do T.) 


189 


outros: do que, juntamente com o 
seu e o dos outros, é, depois, pró- 


“diga. E assim o francês roubaria 


alguém e, no mesmo instante, iria 
gozar a coisa roubada com aque- 
le de quem a roubou. Natureza 
contrária à espanhola, que, da- 
quilo que te rouba; nunca mais 
coisa alguma verás. 

Teme muito a França aos 
ingleses, pelas grandes incursões 
e danos que outrora fizeram ao 
reino: de maneira que, entre o 
povo, o nome de “inglês” é temi- 
vel, pois não distingue ele que a 
França estã hoje bem ordenada, 
ao contrário do que era naqueles 
tempos, porque estã armada, ex- ' 
periente e unida, e tem em seu 
poder aqueles Estados nos quais 


.os ingleses se fundavam, como 


acontecia com o ducado de Bre- 
tanha e o de Borgonha, e, por 
outro lado, os ingleses não são 
disciplinados; porque há tanto 
tempo que não entram em guerra 
que, dos homens que vivem hoje, 
não há um que tenha jamais visto 
inimigo pela frente; e além disso 
lhes falta quem os sustente no 
continente, salvo o arquiduque! *. 

Temeriam muito dos espa- 
nhóis, pela sua sagacidade e vigi- 
lância. Mas se por acaso o seu rei 


13 Alusão ao Arquiduque Carlos d'Áustria, 
que foi depois Carlos V, o qual então era sobe- 
rano dos Países Baixos sob a regência de 
Maximiliano, seu avô. (N. do T.) 


190 MAQUIAVEL 


quiser atacar a França, o fará 
com grande desvantagem: porque 
do seu Estado, de onde partiria 
até as bocas dos Pireneus, que 
penetram no reinado de França, é 
tão longo o caminho e tão estéril 
que toda a vez que os franceses 
visassem aquelas saídas dirigidas 
a Perpignan, como as que se diri- 
gem à Guiena, o exército espa- 
nhol poderia ser desorganizado, 
senão -pela falta de socorro, ao 
menos no que diz respeito aos vi- 
veres, tendo que caminhar por 
tão longa estrada; porque as ter- 


ras que se deixam para trás são . 


como que inabitadas, devido à 
sua esterilidade: e as que são 
habitadas têm apenas o suficiente 
para a vida dos habitantes. E por 
isso os franceses da vertente dos 
Pireneus temem pouco os espa- 
nhóis. 

Dos flamengos os franceses 
não temem; e isto porque os fla- 
mengos não produzem, devido à 
fria natureza do país, nem com 
que viver; e principalmente trigo 
e vinho, que é necessário impor- 
tar da Borgonha e da Picardia e 
de outros Estados de França. 
Além disso, os povos de Flandres 
vivem de trabalhos manuais que 
vendem nos mercados de França, 
isto é, de Lião e de Paris; porque 
do lado do mar, não há onde 


comerciar, e para O lado da Ale-. 
manha, acontece o mesmo, por- 


que tem este povo também ditas 
mercadorias e até as fabricam 
mais que eles. Assim, sempre que 
deixassem de comerciar com: os. 
franceses, não teriam eles onde 
vender as mercadorias; e assim 
não somente sofreriam a-falta de 
mantimentos como também de 
mercado para o que produzissem. 
O que faz com que os flamengos 
nunca, senão forçados, terão 
guerra com os franceses. 

Teme muito a França dos suí- 
ços pela sua vizinhança e pelos 
repentinos ataques que lhe 
podem fazer; ao que não é possi- 
vel, pela sua presteza, prover a 
tempo. E fazem, antes, mais 
depredações e correrias que outra 
coisa: porque, não tendo nem 
artilharia nem cavalos e estando 
as cidades francesas que lhes são 
vizinhas bem defendidas, não 
conseguem grandes progressos. 
Além disso a natureza dos suíços 
é mais apta à guerra de campo do 
que ao expugnar e defender forti- 
ficações: e de má vontade os 
franceses naqueles confins com- 
batem os suíços; porque não têm 
infantaria boa que lhes façá fren- 
te, e os homens de armas sem 
infantaria de nada valem. E 
ainda o terreno é aí tão aciden- 
tado que as lanças e cavaleiros 
mal se movimentam: e os suíços 
só de má vontade deixam as suas 
fronteiras dirigindo-se à planície, 


| 


ESCRITOS POLÍTICOS 


deixando para trás, como se 
disse, cidades muito povoadas e 
bem fortificadas, o que os faz 
duvidar de poderem eles voltar 
aos seus lugares se descessem à 
planície, e de que não lhes faltas- 
sem os víveres. 

Da parte que fica em direção à 
Itália não temem, devido aos 
montes Apeninos, e para as gran- 
des cidades que têm nas raízes 
daqueles; cada vez que alguém 
quisesse atacar o Estado de Fran- 
ça, teria que avançar em país tão 
estéril que seria necessário, ou 
que assediasse pela fome ou que 
deixasse para trás fortalezas (o 
que seria loucura), ou que se dis- 
pusesse a expugná-las. Dessa ma- 
neira, do lado da Itáliá não 
temem pelas razões menciona- 
das, e por.não haver na Itália 
príficipe em condições de atacá- 
los, e por não estar a Itália unida, 
como acontecia no tempo dos 
romanos. 

Do lado do Meio-Dia, nao 
teme absolutamente o reinado de 
França, por ter aí os marinhei- 
ros: e naqueles portos há conti- 
nuamente navios em número bas- 
tante, do rei e de outros 
reinícolas, para poder defender a 
região de um inopinado assalto. 
': Porque a um premeditado tem-se 
tempo de reparar, pois é neces- 
sário tempo a quem o quiser 
fazer, para prepará-lo e pó-lo em 


191 


ordem, e vem a saber-se por 
todos; e em todas estas provin- 
cias o reino de França, ordinaria- 
mente, tem guarnições de homens 
de armas para jogar seguro. 
Gasta pouco para guardar as 
terras, porque os súditos lhe são 
obsequiosissimos e de fortalezas 
não usa para fazer guardar o 
remo. E nos confins, onde have- 


ria alguma necessidade de gastar 
estando aí as guarnições de ho- 
mens de armas, está livre dessa 
despesa: porque um ataque em 
grande escala têm-se tempo de 


“prevê-lo, pois ele requer tempo 


para poder ser feito e organizado. 

São os povos de França humil- 
des e obedientíssimos, e têm em 
grande veneração o seu rei. 
Vivem com pouquissima despesa, 
pela abundância dos rebanhos: e. 
também cada qual tem qualquer 
coisa de estável para si mesmo. 
Vestem grosseiramente e de 
panos de pouco dispêndio; e não 
usam seda de nenhuma qualida- 
de, nem eles nem as suas mulhe- 


res, porque seriam notados pelos 
gentis-homens. 

Os bispados do reino de Fran- 
ça, segundo o moderno recensea- 
mento, são em número de cento e 
quarenta e seis computados os 
arcebispados, em número de de- 
zoito. 

As paróquias, um milhão e 


192 


setecentas! *, computadas sete- 
centas e quarenta abadias. Os 
priorados não interessam. 

A receita ordinária e extraordi- 
nária da coroa não o pude saber; 
porque interroguei a muitos e 
todos me disseram ser tão grande 
quanto o rei o deseje. Tamen! 8 
alguém diz uma parte da receita 
ordinária, isto é, o que se diz ser 
o dinheiro do rei, e é produto da 
gabela, como sejam os impostos 
do pão, vinho, carne e similares, 
tem ele um milhão e setecentos 
escudos; e -a receita extraordi- 
nária tira-a ele como-talha quan- 
to desejar; e estas rendas se 
pagam altas ou baixas, como 
bem parecer ao rei. Mas não bas- 
tando, lançam-se empréstimos e 
raramente se devolvem, e são 
pedidos por cartas régias, desta 
maneira: 


“O rei nosso senhor 
recomenda-se a vós; € 
como hã falta de di- 
nheiro, vos roga lhe em- 
presteis a soma que 
contém a carta”. 


E esta se paga em mãos do 
recebedor do lugar; em cada ci- 
dade há um, que recebe todos os 


14 Esta cifra é evidentemente errônea: mas se 
encontra em todas as edições e manuscritos. 
(N. do T) 

15 Entretanto. (N. do E.) 


MAQUIAVEL | 


proventos, sejam de gabela como 
de talha e empréstimos. 

As terras súditas da coroa não 
têm entre elas outra ordem que a 
que lhes dá o rei de fazer dinhei- 
ro, OU pagar impostos ut supra. 

A autoridade dos barões sobre 
os súditos é nula. O seu imposto 
é sobre o pão, vinho, carne, como 
se disse; tanto por fogo anual- 
mente, mas não passa de seis ou 
oito soldos por fogo, de três em 
três meses. Talhas ou emprés- 
timos não podem eles impor sem 
o consentimento do rei; e isto 
raramente se consente. | 


A coroa não tira deles outra 
utilidade que a entrada do sal; 
nem nunca os faz pagar talha 
senão em alguma grandíssima 
necessidade. 


A ordem do rei nas despesas 
extraordinárias, tanto nas guer- 
ras como em outras coisas, é que 
ordena aos tesoureiros que pa- 
guem os soldados; e eles pela 
mão dos contrar! 8 que os regis- 
tram. Os pensionistas e gentis-ho- 
mens vão aos generais e fazem 
com que se lhes dê o desencargo; 
isto é, a apólice do seu paga- 
mento de mês em mês; os gentis- 
homens e pensionistas de três em 
três meses; e vão ao recebedor da 


18 Talvez contraroli, isto é, controllori 
controladores, do francês controleur. Outras 
edições trazem “por mão daqueles, etc.” (“per 
mono di coloro "). 


ESCRITOS POLÍTICOS 


província onde habitam e são 
logo pagos. 

Os gentis-homens do rei são 
duzentos: o seu soldo é de vinte 
escudos por mês, pagos ut supra: 
e cada cem têm um chefe, que 


costumava ser Ravel de Vidames. 
Não há número fixo para os 


pensionistas; e são poucos ou 
muitos, como agrada ao rei, é 
alimenta-os a esperança de alcan- 
Çar maior posto: € por isso aí não 
há ordem. 

O ofício dos generais de Fran- 
ça é tomar tanto por fogo e tanto 
por talha, com o assentimento do 
rei; e ordenar que as despesas, 
tanto as ordinárias como extraor- 
dinárias, sejam pagas no tempo 
certo; isto é, os desencargos ut 


dictum est supra” 7. 
Os tesoureiros ficam com o 


dinheiro, e pagam segundo a 
ordem e desencargos dos gene- 


rais. 
O oficio do grão-chanceler é 


merum imperium; e pode fazer 
graça e condemnare suo libito, 
etiam in capitalibus, sine con- 
sensu regis'8. Pode repor os liti- 
gantes contumazes em bons ter- 
mos. Pode conferir os benefícios 
cum consensu regis tantum!º: 


1? Como ficou dito acima (N. do E.) 

18 O ofício do grão-chanceler é de legitima 
autoridade; e pode fazer graça e condenar a 
seu alvitre, mesmo à pena capital, sem o prévio 
consentimento do'rei. (N. do E.) 

1º Somente com o consentimento do rei. (N. 
do E.) 


193 


porque as graças se fazem por 
cartas reais, lacradas com o 
grande selo real: mas ele tem o 
grande selo. Seu salário é de dez 
mil francos ao ano, e onze mil 
francos para “ter mesa”. Por ter 
mesa entende-se dar de comer e 
de cear àqueles tantos homens do 
Conselho que seguem o grão- 
chanceler; isto é, advogados e ou- 
tros gentis-homens que o acom- 
panham, quando eles o desejem, 


do que se usa muito. | 
A pensão que o rei de França 


dava ao rei de Inglaterra era de 
cinquenta mil fraricos por ano; e 
era como recompensa de certas 
despesas feitas pelo pai do atual 
rei de Inglaterra no ducado de 
Bretanha: a qual terminou e não 
se paga mais. 

Presentemente na França não 
existe mais do que um senescal- 
mor, mas quando há mais de um 
(não digo grandes, que não existe 
mais que um), seu ofício se exer- 
ce sobre os homens de armas 
ordinários e extraordinários; os 
quais, por dignidade de seu ofi- 
cio, são obrigados a obedecer- 


lhe. 
Os governadores da província 


são tantos quantos o rei queira, e 
pagos como ao rei melhor pare- 
çay e são feitos annuatim et a 
vita, ut regibus placet?º: e os ou- 


2º Anualmente ou vitalícios, segundo bene- 
plácito real. (N. do E.) 


194 


tros governadores, e ainda os 
lugar-tenentes das cidades peque- 
nas são todos colocados pelo rei. 
- E deveis saber que todos os ofi- 
cios do reino são ou doados ou 
vendidos pelo rei, e não por 
outrem. 

O modo de reunir os Estados 
gerais é, cada ano, em agosto, em 
outubro, ou janeiro, como o rei 
deseja: e se ordenam a despesa e 
a receita ordinárias daquele ano 
pelas mãos dos generais; e então 
distribui-se a entrada conforme a 
saida; e se elevam ou diminuem 
as pensões e pensionistas, como o 
rei ordena. 

Da quantia que se distribui 
. pelos gentis-homens e pensio- 
nistas não há número fixo; mas 
nada se aprova pela Câmara de 
Contas, e lhes basta a autoridade 
do rei. 

A função da Câmara de Con- 
tas é rever as contas de todos 
aqueles que administram dinhei- 
ros da coroa; como sejam gene- 
rais, tesoureiros, recebedores. 

A Universidade de Paris é 
paga pelas entradas das funda- 
ções dos colégios, mas magra- 
mente. 

Os Parlamentos são cinco: 
Paris, Rouen, Toulouse, Bordéus 
"e Delfinato, e de nenhum se 
apela. j 

Os principais centros de estu- 
dos são quatro: Paris, Orleans, 


MAQUIAVEL 


Bourges e Poitiers: e depois, 
Tours e Angers, mas de pouco 
valem. 

As guarnições permanecem 
onde o rei quiser, e são tantas 
quantas bem lhe parecer, tanto 
com relação à artilharia como 
aos soldados. Entretanto, todas 
elas têm algumas peças de arti- 
lharia, municiadas; e de há dois 
anos a esta parte construiram-se 
muitas em muitos lugares do ' 
reino, a expensas das cidades, e 
ISSO Se conseguiu com o aumen- 
tar a renda de um dinheiro por 
animal ou por medida. De ordi- 
nário, quando o reino não teme 
nada de ninguém, as guarnições 
são quatro; isto é, na Guiena, 
Picardia, na Borgonha e na Pro- 
vença: e depois se vão mudando 
e alargando mais num lugar do 
que noutro, segundo as suspeitas 
que se tenham. 

Esforcei-me por saber quanto 
está estipulado para o rei, por 
ano, para as despesas de sua casa 
e para ele pessoalmente; e sei que 
o dinheiro é tanto quanto o rei 
desejar. 

' Os archeiros são quatrocentos, 
designados para a guarda do rei; 
entre estes há cem escoceses; e 
recebem por ano trezentos fran- 
cos por homem e um saio, pois 
usam a libré do rei. Os do Corpo 
do Rei, que sempre estão ao seu 
lado, são vinte e quatro, com 


ESCRITOS POLÍTICOS 


quatrocentos francos para cada 
um por ano. O seu comandante é 
o Senhor D'Aubigny, e o capitão, 
Gabriel. 

A guarda dos homens a pé é 
constituída de alemães; dos quais 
cem são pagos a doze francos por 
mês, e era costume ter até trezen- 
tos com pensão de dez francos; 
demais, a todos, duas vesti- 
mentas por ano para cada um; 
isto é, uma para o verão e uma 
para o inverno, isto é, túnica, 
meias e libré; e os do Corpo ti- 
nham túnicas de seda: isto no 
tempo.do Rei Carlos. 

Foreiros são os que estão 
designados para alojar a corte; e 
são trinta e dois e têm trezentos 
francos e um saio por ano cada 
libré. Os seus menescais são qua- 
tro e recebem seiscentos francos 
cada um; e para os alojar obser- 
vam esta ordem: dividem-se em 
quatro, e um quarto, com um 
menescal ou seu lugar-tenente, se 
ele não estiver na corte, fica no 
lugar para onde a corte parte, 
para que seja feito o que é neces- 
sário pelos chefes dos alojamen- 
tos; um vai com a pessoa do rei; 
e um quarto onde, no dia, deve 
chegar o rei; e o outro quarto vai 
onde o rei deve ir no dia seguinte. 
E observam uma ordem admirá- 
vel; de modo que, ao chegar, 
cada qual tem seu lugar, até as 
meretrizes. 


195 


O alcaide-mor é o funcionário 
que acompanha sempre a pessoa 
do rei; e sua função é de mero 
império; e em todos os lugares 
aonde vai a corte seu lugar é o 
primeiro, e podem os da.cidade 
mesma onde se encontra ele so- 
frer sua ação como do próprio 
lugar-tenente. Aqueles que por 
causa de crime caem sob sua 
mão não podem apelar para os 
Parlamentos. O seu salário é 
geralmente de seis mil francos. 
Têm dois juízes no cível, pagos 
pelo rei a seiscentos francos ao 
ano por homem: assim um lu- 
gar-tenente no criminal, que tem 
trinta archeiros pagos como se 
disse acima. E dispõe tanto no 
cível como no criminal; e uma só 
vez que o autor se defronte com o 
réu em sua presença é suficiente 
para expedir a causa. ; 

Mestres da casa do rei há oito, 
mas não há ordem firme sobre 
seu salário; porque há quem rece- 
ba mil francos, quem mais e 
quem menos, como o rei queira. 
E depois do grao-mestre que 
sucedeu ao Senhor de Chaumont, 
está o Senhor de La Palice, cujo 
pai teve já o mesmo ofício; rece- 
be onze mil francos e não tem 
outra autoridade que a de estar 
acima dos outros mestres da 
casa. 

O almirante de França está no 
governo de todas as armadas do 


196 


mar e tem a seu cuidado todas 
elas e todos os portos do reino. 
Pode tomar navios e agir como 
lhe parece quanto aos navios da 
armada, e atualmente é Prejanne 
e recebe dez mil francos de 
salário. | | 

Cavaleiros da ordem não têm 
número certo; porque são tantos 
quantos o rei deseje. Quando são 
criados, juram defender a coroa e 
não se voltar nunca contra ela; e 
não podem nunca ser destituídos 
senão na morte. A sua pensão é, 
quando muito, de quatro mil 
francos, e há alguns de menos; e 
tal grau não se dá a qualquer um. 

A função dos camareiros é dis- 
trair O rei, entrar nos seus apo- 
sentos, aconselhá-lo; e, de fato, 
são os primeiros do reino pela 
sua reputação. Têm grande pen- 

| são: seis, oito, dez mil francos; e 
alguns nada, porque o rei os no- 
meia frequentemente para honrar 
algum homem de bem, ainda que 
forasteiro. Mas têm o privilégio 
no reino de não pagar gabela; e 
sempre na corte têm as suas 
despesas pagas pela mesa dos 
camareiros, que é a primeira de- 
pois da do rei. 

O .escudeiro-mor está sempre 
Junto do rei. Sua função é estar 
sempre governando os doze escu- 
deiros do ret, como acontece com 
o senescal-mor, grão-mestre.e o 
camareiro-mor para com os seus 


MAQUIAVEL 


subordinados: e tem que tomar 
conta dos cavalos do rei, montá- 
lo e apeá-lo do cavalo, guardar 
os apetrechos do rei, e levar-lhe a 
espada. 

Os senhores do Conselho do 
Rei têm todos pensão de seis a 
oito mil francos, como o rei quei- 
ra: e são o Senhor de Paris, o Se- 
nhor de Bouvines, o bailio de 
Amiens, o Senhor de Bussy, € O 
grão-chanceler. E, efetivamente, 
Rubertet e o Senhor de Paris 
governam tudo. 

Não se mantém presentemente 
mesa para ninguém, depois que 
morreu o cardeal de Rouen. 
Como já não existe o chanceler- 
mor, faz suas vezes o Senhor de 
Paris. 

O direito que pretende ter o rei 
de França sobre o Estado de 
Milão é que seu avó teve por mu- 
lher uma filha do duque de 
Milão, o qual morreu sem filhos 
varões. 

O Duque Giovanni Galeazzo 


teve duas filhas e não sei quantos 


filhos varões. Entre as mulheres 
houve uma que se chamou Ma- 
donna Valentina e foi casada 
com o Duque Luís de Orleans, 
avô deste rei? !, descendente tam- 
bém da estirpe de Pepino. Morto 
o Duque Giovanni Galeazzo, 
sucedeu-lhe o Duque Filipe, seu 


21 Luís XII. (N. do T)) 


ESCRITOS POLÍTICOS 


filho, o qual morreu sem ter fi- 
lhos legítimos, e deixou apenas 
uma filha bastarda. Foi depois 
aquele Estado usurpado por estes 
Sforza ilegitimamente, segundo 
se diz: porque estes dizem que 
aquele Estado deveria ir as mãos 
dos sucessores e herdeiros daque- 
la Madonna Valentina; e desde o 
dia em que os Orleans se aparen- 
taram com a casa milanesa, 
acrescentaram às suas armas dos 
três lírios uma serpente, e assim 
ainda é. 

Em cada paróquia de França 
há um homem bem pago pela 
dita paróquia, e se denomina o 
franco archeiro; o qual é obri- 
gado a ter um bom cavalo e estar 
provido de armas para todas as 
requisições do rei quando o rei 
estiver fora do reino devido a 
guerras ou qualquer outra razão. 
São obrigados a cavalgar para a 
província onde o reino tenha sido 
assaltado ou onde houvesse sus- 
peita disso: que, segundo as paró- 
quias, são um milhão e setecen- 
tos. 

Os alojamentos, por obrigação 
de seu ofício, dao-no os foreiros a 
quem acompanha a corte, e co- 
mumente cada homem de bem ou 
- destaque da terra hospeda os 
cortesãos. E para que ninguém 
tenha motivo para queixar-se, 
tanto o que aloja como o que é 
alojado a corte fixou uma taxa, 


197 


que universalmente se usa para 
cada um; isto é, um soldo por 


"quarto, ao dia; onde deve haver 


cama e travesseiro, e muda cada 
oito dias. Dois dinheiros por 
homem ao dia para a roupa bran- 
ca (isto é, toalhas, guardanapos), 
vinagre, vinho de uva, e eles são 
obrigados a mudar a dita roupa 
branca pelo menos duas vezes 
por semana, mas, por ter abun- 
dância delas a cidade ou país, 
mudam mais ou menos, con- 
forme a pessoa pedir. Além disso 
são obrigados a dirigir, varrer e 
arrumar as camas. Dois dinhei- 
ros cada um, por dia, e para cada 
cavalo na estalagem; e não são 
obrigados a dar coisa alguma aos 
cavalos, a não ser esvaziar a 
estrebaria da sujeira. São tantos 
que pagam menos, ou pela sua 
boa natureza ou pela do patrão: 
mas geralmente esta é a taxa 
ordinária da corte. 

Os direitos que pretendem ter 
os ingleses sobre o reinado de 
França, as mais novas procuro e 
penso que são estas. Carlos VI 
deste nome, rei de França, despo- 
sou Catarina, filha legitima e 
natural de Henrique, filho legi- 
timo e natural do rei de Ingla- 
terra: e no contrato, sem fazer 
qualquer menção a Carlos VII, 
que foi depois rei de França, 
além do dote dado a Catarina, 
instituiu herdeiro do reino de 


198 MAQUIAVEL 


França depois de sua morte, isto 
é, de Carlos VI, Henrique, seu 
genro e marido de Catarina; e no 
caso de que o dito Henrique mor- 
resse antes de Carlos VI, seu 
sogro, e deixasse filhos varões 
legítimos e naturais, que em tal 
caso ainda os filhos de Henrique 
sucedessem a Carlos VI. O que. 
por ter sido preterido do pai, 
Carlos VII, não teve efeito, por 


estar contra as leis. Ao contrário 
disso os ingleses dizem que o 
referido Carlos VII nasceu ex 
incestuoso concubito?2. 

Os arcebispados da Inglaterra 
são dois. 

Bispados, vinte e dois. 

Paróquias, cingienta e duas 
mil. 


22 Nasceu de união incestuosa. (N. do E.) 


Fe nser os 
' GÊ 
GA o aan E 


ns DISCURSO AO 
“+ MAGISTRADO DOS DEZ SOBRE 
AS COISAS DE PISA 


E” 
a 


eme 


v ae 


Nota do Tradutor 


Em 1499, a Maquiavel fora confiada a sua primeira legação (em 
Forli, a Catarina Sforza). Durante a sua ausência, a guerra de Flo- 
rença contra Pisa se tinha exacerbado e a situação era delicada para 
o exército florentino. O Discorso Fatto al Magistrato dei Dieci sopra 
le Cose di Pisa foi composto provavelmente por esse tempo. É assim, 
talvez, o primeiro escrito de Maquiavel, que, embora examinando a 
questão versada do ponto de vista técnico-militar, tem caráter bem 
evidente de composição histórico-política. 


neste Trranguio, manteri 


QUE SEJA necessário reaver 
Pisa se se quiser manter a paz, 
porque ninguém disso duvida, 


não me parece que seja preciso 
demonstrar com outras razões 


que aquelas que por vós mesmos 
conheceis. Examinarei somente 
os meios que conduzam ou que 
possam conduzir a esse resulta- 
do: e estes me parecem ou a força 
ou o amor; isto é, ou recuperá-la 
por assédio ou que ela vos venha 
às mãos voluntariamente. E por- 
que este seria o mais seguro e, 
consequentemente, mais desejá- 
vel caminho, examinaremos se é 
possível ou não, e trataremos 
desse ponto. Quando Pisa, sem 
empreendimento armado, nos 
deva ir às mãos, convém que por 
si mesmos voltem aos vossos bra- 
ços; ou que outrem que dela seja 
senhor dela vos faça presente. 
Como mal se pode crer que eles 


mesmos estejam para voltar para 


o vosso patrocínio, isso vo-lo 
demonstram os tempos presentes, 
em que, destituíidos de qualquer 
força, tendo ficado sós e muito 


fracos, súditos não aceitos por 
Milão, separados dos genoveses, 
mal vistos pelo pontífice, e pelos 
saneses, pouco estimados, man- 
têm-se pertinazes, confiando na 
vã esperança de outros e na debi- 
lidade e desunião vossa, nem 
nunca quiseram aceitar (tamanha: 
é a sua perfidia) qualquer penhor 
vosso e embaixada. Portanto, 
estando eles em tamanha calami- 
dade no presente e não lhes 
esmorecendo o ânimo, não se 
pode nem se deve de qualquer 
maneira acreditar que por súa 
própria vontade venham sob 
vosso jugo. Sobre que pudesse: 
ser-vos concedida a cidade.por 
quem a possuísse, devemos con- 
siderar que aquele - que a pos- 
suísse ou entrou chamado por 
eles ou pela força. Se tivesse 
entrado pela força, nenhuma 
razão viria justificar que a conce- 
desse: porque quem pode entrar - 
pela força poderá também guar- 
dá-la para si e preservá-la; por- 
que Pisa não é cidade que dei- 
xasse de boa vontade a alguém 


Geres em San Piero in Grado, ou 


| força, 


204 


assenhorear-se dela. Se tivesse 
entrado por amor e chamado 
pelos pisões, baseando-me no 
recente exemplo dos venezianos, 
não me parece se deva crer que 
alguém desejasse destruir a sua 
confiança e, a pretexto de querer 
defendê-los, os traísse e vo-los 
desse prisioneiros. Mas mesmo 
que tal possuidor quisesse que ela 
voltasse para o vosso nome, 


abandoná-la-ia e vo-la deixaria. 


como presa, como fizeram os 
venezianos: de modo que, por 
estas razões, não se vê nenhum 
caminho pelo qual Pisa, sem se 
usar da força, possa ser recupe- 
rada. 

Sendo, portanto, necessária a 
parece-me que convém 
considerar se se deve dela usar 
nestes tempos ou não. Para ulti- 
mar o empreendimento de Pisa é 
preciso conquistá-la ou por assé- 
dio e fome, ou por expugnação, 
levando a artilharia aos seus 
muros. E tratando-se da primeira 
parte do assédio, deve-se conside- 
rar se os luguenses estão a ponto 
de desejar ou de poder considerar 
que de sua cidade não saiam 
mantimentos para Pisa; e quando 
desejassem ou pudessem, todos 


“se lembram que bastaria somente 


206 

res supramencionados, em 
Sant'lacopo um, o outro. ..?º 
ou ainda... E aqui haveria des- 


noca mainr de um mada qm 


MAQUIAVEL |. | 


| 


sobre o Arno, mediante a qual 
vossa gente pudesse estar, a um 
determinado aviso, na foz do rio 
Morto ou Serchio, enfim, onde 
fosse necessário; tendo alguma 
cavalaria e infantaria em Libra- 
fatta ou em Cascina. Mas porque 
se duvida da vontade dos luquen- 
ses e porque se deve também 
duvidar de que, quando estes esti- 
vessem de acordo, não lhes fosse 
possivel manter fechada a sua ci- 
dade por ser ela que se deve man- 
ter a distância e por não terem os 
seus súditos uma obediência 
total; pensa-se que, querendo as- 
sediar Pisa, não se deve confiar 
inteiramente que esta parte seja 
guardada pelos luquenses, mas 
que é necessário aos florentinos 
refletir; e é por isso que não é 
suficiente organizar um único 
acampamento em San Piero in 
Grado; mas que se deve pensar 
em realizar ou um outro ou dois 
outros, como melhor se julgue ou 
como melhor se possa. Contudo, 
dizem que a mais certa e firme 
maneira seria fazer três acampa- 
mentos; um em San Piero im 
Grado, o outro em Sant'lacopo, 
o outro na Beccheria ou antes 
em...23%. E considerando os 
couraceiros e cavalaria ligeira 
| 


MAQUIAVEL 


basta, porque crêem que eles te- 
nham víveres até a próxima co- 
lheita, pelas notícias havidas dos 


nne vam de Pica e nelnae einaie 


ESCRITOS POLÍTICOS 


les cem homens da cavalaria 
ligeira e oitocentos infantes: e 
estes acampamentos, estando 
neste triângulo, manteriam Pisa 
assediada, embora contra a von- 
tade dos luguenses; estariam se- 
guros, fortificando-se com fossos, 
como saberiam fazer; e deixa- 
riam perplexos os pisões de tal 
maneira que se pode crer que se 
entregassem logo. E como em 
San Piero in Grado o ar é mau, 
onde, se por acaso se devesse 
manter um acampamento, a 
tropa adoeceria; e porque parece- 
ria talvez muito pesado manter 
os mencionados três acampa- 
mentos, poder-se-ia manter o re- 
ferido acampamento de San 
Piero in Grado, enquanto naque- 
le lugar se construísse um grande 
bastião com capacidade para tre- 
zentos ou quatrocentos homens 
em guarda, o que se poderia fazer 
num mês; e, construído o bastião, 
levantar o acampamento e deixar 
o bastião e a guarda e ficar com 
aqueles doóis acampamentos; e 
assim não se viria a ter a despesa 
de três acampamentos senão por 
um mês. Um destes dois modos 
referidos, ou de três acampa- 
mentos ou do bastião com dois 
acampamentos, é o mais apro- 
vado por estes senhores condot- 
tieri, e o que consideram mais 
útil e mais apto para deixar Pisa 
à fome. Mas se não desejásseis 


tanta despesa e quisésseis fazer 
Justamente dois acampamentos, é 
muito necessário manter um 
deles em San Piero in Grado, ou 
mesmo não se construindo o 
forte, ou construindo-o, até que 
ele: fosse construído. O outro 
acampamento dizem que se dese- 
Jjaria mantê-lo em Poggiolo, na 
ponte Cappellese; e porque ele 
deveria guardar Casoli e os mon- 
tes, duvida alguém que desse 
campo Casoli pudesse ser bem 
guardada: e quanto aos montes 
seria necessário manter na Verri- 
ca duzentos infantes, ou manter 
em Val di Calci quatrocentos; e 
construir um forte entre Lucinari 
e Arno, com capacidade para 
cem homens em guarda, e manter 
pelo menos cinquenta cavaleiros 
em Cascina. E este seria outro 
modo de assediar Pisa; mas não 
tão potente quanto um dos dois 
primeiros — o dos três acampa- 


“mentos ou do bastião com dois 


acampamentos. É verdade que 
enquanto se constrói o bastião 
poder-se-iam manter três acam- 
pamentos; e, construído o bas- 
tião, reduzi-los a dois: ou ainda, 
enquanto se constrói o bastião, 
manter dois acampamentos, 
acrescidas aquelas outras coisas 
anteriormente mencionadas; e, 
construído o bastião, deixar aí a 
guarda e reduzir-se com os dois 
acampamentos aos postos e luga- 


205 D. 


206 

TES supramencionados, em 
Sant'lacopo um, O outro... .?? 
ou ainda... E aqui haveria des- 


pesa maior, de um modo ou 
outro, quanto se gasta num mês 
com mil infantes mais. Veio-lhes 
à consideração outra coisa: se se 
deve fazer este bastião em San 
Piero in Grado ou não. Alguém 
fez esta distinção e disse: se os 
florentinos estão com o ânimo de 
forçar Pisa, não podendo fazê-la 
render-se pela fome, julgo supér- 
fluo construir o bastião; porque 
depois de um mês que o bastião 
esteja construído, será chegado o 


tempo de dirigir-se aos muros da. 


cidade, isto é, pelos princípios .de 
maio; e assim a despesa com o 
bastião vem a ser inútil: se não 
têm o ânimo de tentar a força, 
mas de se manter no assédio, 
todos julgam que se deva cons- 
truir o bastião. Alguns dizem 
também que se os florentinos 
desejam tentar a força, devem 


construir o bastião, porque pode- 
ria não lhes ser possível a con- 
quista; e, não conseguindo, eles 
estarão com o bastião cons- 
truíido, de modo que possam 


manter-se no assédio. Exami- 
nou-se ainda se é possível crer 
que o assédio seja suficiente sem 
a força; e são de parecer que não 


24 Lacuna no manuscrito. (N. do T.) 


MAQUIAVEL 


basta, porque créem que eles te- 
nham víveres até a próxima co- 
lheita, pelas notícias havidas dos 
que vêm de Pisa, e pelos sinais 
vê-se que lá o pão se vende e, 
pelo obstinado ânimo deles e 
estando para sofrer muito, não se 
vê que sofram há já tempo aquilo 
que seu ânimo obstinado os pode 
induzir a sofrer: e por isso pen- 
sam que vós sereis obrigados a 
tentar a força. Pensam bem que 
será impossível que vos resistam, 
tendo vós estes modos de mantê- 
los presos possivelmente uns qua- 
renta ou cinquenta dias: e neste 
meio tempo tirar de lá quantos 
homens de gúerra vos seja possí- 
vel; e não somente tirar de lã 
quem queira sair, mas também 
premiar a quem não desejaria 


“sair para que saia depois; passa- 


do esse tempo, reunir então rapi- 
damente quantos infantes seja 
possivel; organizar duas baterias, 
e quanto mais seja neessário para 
aproximar-se dos muros; dar li- 
cença livre para que saia quem o 
deseje, mulheres, crianças, rapa- 
zes, velhos, todos, porque todos 
servem para defendê-la. E assim, 
encontrando-se os pisões sem 
defensores, batidos por dois lados, 
em três ou quatro assaltos, seria 
impossível que resistissem, senão 
por milagre; segundo o que os 
mais entendidos nesta matéria 
disseram. | 


DISCURSO SOBRE - 
A MANEIRA DE PROVER-SE 
DE DINHEIRO 


Nota do Tradutor 


Por volta de 1503, 0 governo florentino achou-se em péssima situa- 
ção financeira e era urgente aliciar novas tropas, porquanto os Bór- 
gia, de um lado, e os pisões, do outro, ameaçavam a segurança da 
república. O novo gonfaloneiro (Soderini) expós perante o Conselho 
Maior a situação e os perigos iminentes. É provável que o escrito de 
Maquiavel, Discorso sulla Provvisione del Danaio, composto nessa 
ocasião, o tenha sido a mandado de Soderini, e seja o mesmo de que 
há notícia que fez o gonfaloneiro. 


(Palavras que se devem dizer sobre a provisão do 
dinheiro, fazendo-se primeiro um pouco de proêmio e 


de escusa.) 


ToDas as cidades que por 
algum tempo foram governadas 
por príncipe absoluto, pelos aris- 
tocratas ou pelo povo, como se 
governa esta, têm tido por defesa 
as forças combinadas com a 
prudência; porque esta não é 
suficiente; e aquelas ou não 
levam a bom termo as coisas, ou, 
quando as levam, não as man- 
têm. São, pois, estas duas coisas 
o nervo de todas as senhorias que 
existiram e que existirão sempre 
no mundo: e quem observou as 
mutações dos reinos, as ruínas 
das províncias e das cidades não 
as viu causadas por outra coisa 
senão pela falta das armas ou do 
dinheiro. Dado que vós conce- 
dais que isto possa ser verdade, 
como é, segue-se, necessaria- 
mente, que deveis querer, na 
vassa cidade, uma e outra destas 


duas coisas; e procurar bem, se 


elas existem, conservá-las; e se 
não existem, consegui-las. E, na 
verdade, há dois meses que tive 
esperanças de que podieis vós 
conseguir este fim; mas vi, de- 
pois, tanta dureza de vossa parte 
que fiquei de todo consternado. E 
vendo que podeis ouvir e ver mas 
não ouvis nem vedes aquilo de 
que se admiram os vossos inimi- 
gos, e só disso; persuado-me que 
Deus não vos castigou ainda a 
seu modo e que vos reserva para 
maior flagelo. A razão pela qual 
há dois meses eu estava confiante 


era o exemplo que vós tivestes 


pelo perigo que correstes, há pou- 
cos meses, e as decisões que de- 
pois disso tinheis tomado: porque 
vi como, perdida Arezzo e outras 
cidades e depois recuperadas, 
assumistes o governo; e supus 
que estivésseis convencidos de 
que, pelo fato de não ter havido 


212 


lá força nem prudência, as tínheis 
retomado; e julguei que, como 
vós tínheis dado lugar à prudên- 
cia por virtude disso, devêsseis 
ainda dar lugar à força. Supuse- 
ram isto mesmo os nossos excel- 


sos senhores: e assim também 


“todos aqueles cidadãos que tan- 
tas vezes se cansaram inutilmente 
' para vos aprésentar uma provi- 
dência. Nem quero discutir se 
isto que acontece atualmente é 
bom ou não; porque acredito em 
quem se achou para organizá-lo 
e, depois, quem se achou para 
aprová-lo. Desejaria bem que 
ainda fósseis da mesma opinião e 
não acreditásseis em quem vos 
diz o que é necessário; e repito- 
vos que sem força as cidades não 
se mantêm, mas vêm a seu fim; e 
o fim é a desolação ou a servi- 
dão. Estivestes este ano perto 
duma e doutra; e para aí voltareis 
se não mudardes de pensamento, 
eu vo-lo afianço; não digais de- 
pois: “não me avisaram”, e se 
vós respondeis: “para que quere- 
mos forças? Estamos sob a pro- 
' teção do rei; os inimigos desapa- 
receram; Valentino não tem 
motivos para provocar-nos”, res- 
ponderei que tal opinião não 
poderia ser mais temerária: por- 
que toda cidade, todo Estado 
deve reputar inimigos todos 
aqueles que pensam poder ocu- 
par o seu próprio Estado e aque- 


encontrar-vos-eis 


MAQUIAVEL | 


les de quem não seja possível 
defender-se. E nem hã exemplo 
de senhoria ou república pru- 
dente que quisesse manter o seu 
Estado à discrição de outros ou 
que, se fosse este o caso, lhe pare- 
cesse estar em situação segura. 
Não nos enganemos: examine- 
mos detidamente a nossa situa-. 
ção e a encaremos seriamente. 

Se vós vos achais desarmados, 
vereis desconfiados os vossos sú- 
ditos; e disso há poucos meses 
tivestes a experiência. E é natural 
que seja assim; porque os ho- 
mens não podem e nem devem 
ser fiéis servidores do senhor por 
quem não possam ser nem defen- 
didos nem castigados. Como vós 
pudestes ou podeis dominar, tal- 
vez, Pistóia, Romanha, Barda: 
províncias que se tornaram ni- 
nhos e covis de toda qualidade de 


“latrocínios. Como vós pudestes 


defendê-las sabem-no bem as re- 
giões que foram assaltadas: não 
existindo agora mais ordem do 
que existia antigamente, deveis . 
saber que não mudaram nem de 
opinião nem de ânimo: e não po- 
deis chamá-los vossos súditos, e 
sim daqueles que os assaltaram 
primeiro. 

Saí, agora, de casa e conside- 
rai O que vos está em derredor; 
no meio de 
duas ou três cidades que desejam 
mais a vossa morte do que a sua 


ESCRITOS POLÍTICOS 


própria vida. Ide mais para dian- 
te; saí da Toscana e considerai 
toda a Itália: vê-la-eis passar da 
dominação do rei para a dos 
venezianos, a do papa e a de 
Valentino. Começai a considerar 
o rei. Aqui é preciso dizer a ver- 
dade e eu vo-la direi. Para este 
não existe outro empecilho senão 
vós, na Itália. E aqui não hã 
remédio, porque todas as forças, 
todas as providências não vos 
salvariam: ou ele terá outros 
empecilhos, como bem se vê que 
há, e neste caso há remédio, ou 
não, segundo a vossa vontade ou 
não. E o remédio é fazer com que 
exista tal relação das forças, que, 
em qualquer deliberação sua, 
tenha ele de contar convosco 
como com os outros da Itália; e, 
por estardes vós desarmados, não 
dar ânimo a algum poderoso de 
pedir-vos ao rei como presa; e 
nem dar ocasião ao rei de que 
este vos deixe entre os perdidos, 
mas comportar-se de modo que 
ele tenha de estimar-vos e nem 
outrem julgue fácil subjugar-vos. 
Considerai, agora, os venezianos. 
Aqui não é necessário esforçar-se 
muito para entender: todos 
sabem a sua ambição; e que 
devem receber de vós cento- e 
oitenta mil ducados e que eles só 
esperam oportunidade; e que é 
melhor gastá-los fazendo-lhes a 
guerra do que dar-lhos para que 


213 


eles vô-la façam. Passemos ao 
papa e ao seu duque. Esta parte 
não tem necessidade de comentá- 
rio. Todos sabem quais sejam a 
natureza e o apetite destes; e os 
seus processos e que confiança se 
pode ter neles e deles receber. 
Direi somente isto: que não se 
concluiu com eles ainda acordo 
algum; e direi mais adiante o que 
não ficou para nós. Mas supo- 
nhamos que concluíssemos um 
acordo amanha. Disse-vos que 
aqueles senhores são amigos vos- 
sos, que não vos podem ofender, 
e novamente vos digo: porque 
entre os cidadãos, as leis, os con- 
tratos, os pactos obrigam a fé; e 
entre os senhores, as armas. E se 


vós disserdes: “recorreremos ao 


rei”, parece-me que vos disse 
também isso: que todavia O rei 
não estã em condições de defen- 
der-vos, porque os tempos não 
são os mesmos e nem sempre se 
pode evitar a ação armada de 
outrem; e contudo é conveniente 
ter a espada ao alcance da mão e 
cingilla quando o inimigo estã 
distante; que, de outro modo, já 
não chega em tempo e nem 
encontra remédio. E deve-se re- 
cordar neste ponto o que aconte- 
ceu quando Constantinopla foi 
tomada pelos turcos. O impera- 
dor previu a sua ruína; chamou: 
os seus súditos; não podendo. 
prover à defesa com as rendas 


214 


ordinárias, expôs-lhes os perigos, 
mostrou-lhes os remédios e estes 
não lhe deram importância. Veio 
o cerco. Aqueles cidadãos que 
não quiseram ouvir os apelos de 
seu senhor, quando ouviram soar 
a artilharia nas suas muralhas e 
avançar o exército inimigo, cor- 
reram chorando ao imperador 
com sacos cheios de dinheiro; 
este os expulsou dizendo: “podeis 
morrer com o vosso dinheiro, 
porque não quisestes viver sem 
ele” 

Mas não é necessário ir à Gré- 
cia para ter exemplos, tendo-os 
em Florença: Em setembro de 
1500, Valentino partiu de Roma 
com seus.exércitos e nem se sabia 
se ele devia passar pela Toscana 
ou pela Romanha, cujas cidades 
ficariam à sua mercê porque esta- 
vam desguarnecidas, e todos ro- 
gavam a Deus para que lhes 
desse tempo. Mas Valentino vol- 
tou na altura de Pesaro, e como 
assim o perigo se afastara, entra- 
ram a ter uma confiança temerá- 
ria, de modo que não se pôde 
nunca tomar mais nenhuma pro- 
vidência. Não faltou quem avi- 
sasse, recordasse e previsse todos 
os perigos que depois vieram: nos 
quais vós, obstinados, não acre- 
ditastes até que chegaram, em 26 
de abril do ano de 1501; sofrestes 
a perda de Faenza e vistes as lá- 
grimas do vosso gonfaloneiro, 


MAQUIAVEL 


que chorou sobre a incredulidade 
e obstinação vossa e vos obrigou 
a ter compaixão de vós mesmos. 
Não chegastes a tempo, pois ten- 
do-o vencido seis meses antes, 
ter-se-iam colhido frutos, e ven- 
cendo-o seis dias antes pouco 
pudestes tirar da vitória para 
vossa própria salvação; porque a 
4 de maio ouvistes que o exército 
inimigo chegara a Firenzuola; 


“houve grande confusão na cida- 


de: começastes a ver as conse- 
quências da vossa obstinação; 
vistes arder as vossas casas, 
saquear tudo, matar OS vossos sú- 
ditos, fazê-los prisioneiros, violar 


as vossas mulheres, estragar as 
vossas propriedades, sem que 
pudésseis remediar de algum 
modo, e aqueles que, havia seis 


meses, não tinham querido con- 
correr para o pagamento de vinte 
ducados, lhes foram cobrados 
duzentos e pagaram os vinte de 


qualquer maneira. E quando de- 
vieis acusar a vossa increduli- 
dade e obstinação, acusáveis a 
malícia dos cidadãos e a ambição 
dos aristocratas; como aqueles 
que, errando sempre, pretendem 
nunca haver errado; e quando 


vêem o sol não acreditam nunca 
mais que haja chuva: como acon- 
tece agora; e não pensais que em 
oito dias Valentino pode estar 
com o seu exército sobre vós, e os 


ESCRITOS POLÍTICOS 215 


venezianos, em dois dias. Não 
considerais que o rei esteja muito 
ocupado com os suíços na Lom- 
bardia e que não terminou ainda 
a sua guerra nem com a Alema- 
nha nem com a Espanha, e que 
foi derrotado no reino. Não vedes 
a vossa atual própria fraqueza 
nem a variação da fortuna. Os 
outros costumam tornar-se pru- 
dentes pelos perigos que os vizi- 
nhos sofrem; vós não vos tornais 
prudentes nem pelos vossos; não 
confiais em vós mesmos; não sa- 
beis o tempo que perdeis e que 


perdestes, o qual chorareis ainda, 
e sem proveito, se não mudais de 
opinião. Porque eu vos digo: a 
fortuna não muda de sentença 
onde não se muda de ordem; e 
nem os céus querem ou podem 
sustentar uma coisa que queira 
de qualquer modo arruinar-se. O 
que eu não posso crer que seja o 
caso, vendo-vos florentinos livres 
e estar nas vossas mãos a vossa 
própria liberdade. A esta eu creio 
que tendes aquele respeito que 
tem sempre quem nasceu livre e 
deseja viver livre. 


EEE SEE EEE SE SEE 


BREVE DESCRIÇÃO 
DO GOVERNO DA CIDADE 
DEINICÇA 


Nota do Tradutor 


Depois de terem os Medici reconquistado o poder em Florença, 
Maquiavel conhece o ostracismo, o exílio, escreve O Principe e pro- 
cura ganhar as boas graças dos novos governantes. Mas só em 1520 
obteve ele nova commissione, e ainda em um negócio sem importân- 
cia. Alguns mercadores florentinos tinham em Luca créditos que 
somavam mil e seiscentos florins e os quais, não pagos, deram origem 
a questões judiciais e depois a negociações entre os dois governos. 
Maquiavel, enviado a Luca, conseguiu encontrar uma fórmula de 
acordo. Enquanto desenvolvia a sua missão, ele, como de costume, 
observava a forma de governo dos luquenses. Destas observações, 
ficou um escrito esboçado apenas, mas cheio de finas e oportunas 
considerações, o Sommario delle Cose della Cittá di Lucca. 


A ciDADE de Luca está divi- 


dida em três partes, das quais 
uma é denominada San Martino, 
a outra San Paolino e a terceira 
San Salvadore. A primeira e 
suprema magistratura da cidade 
é exercida por nove cidadãos elei- 
tos, três em cada uma das partes 
mencionadas: os quais, junta- 
mente com um outro que é chefe, 
ao qual denominam gonfaloneiro 
de justiça, compõem-o que se 
chama a Senhoria, ou melhor, 
querendo-se chamá-los por um 
antigo nome, se denomiram An- 
ciães. Têm junto a este um conse- 
lho de trinta e seis cidadãos, o 
qual é assim nomeado pelo pró- 
prio número: têm, ainda, um con- 
selho de setenta e dois cidadãos, 
que tem o nome de Conselho 
Geral. Em torno destas três instJ- 
tuições gira toda a atividade do 
seu Estado, acrescidas as cir- 
cunstâncias que no prossegui- 
mento deste sumário serão men- 


cionadas. 
A autoridade da Senhoria 
sobre o seu condado é amplis- 


sima; sobre os cidadãos é nula; 
mas somente dentro da cidade ela 
corivoca os Conselhos, neles pro- 
põe as coisas sobre as quais se 
deve deliberar, escreve aos em- 
baixadores e recebe cartas; reúne 
as práticas, que eles chamam 
colóquios, dos seus mais sábios 
cidadãos (o que prepara a delibe- 
ração que se deva adotar nos 
Conselhos); fiscaliza as coisas, 
relembra-as; e, efetivamente, é 
como um primeiro motor de 
todas as ações que se promovem 
no governo da cidade. Funciona 
esta Senhoria dois meses, e quem 


“dela participa não pode, durante 


dois anos, ser reeleito. O Conse- 
lho dos trinta e seis e a Senhoria 
distribuem todas as honras € uti. 
lidades do Estado; e como que- 
rem. que sempre se encontrem 
trinta e seis cidadãos em exerci- 
cio, afora a Senhoria, cada se- 
nhor em toda reunião do Conse- 
lho pode chamar dois suplentes, 
Os quais exercem o oficio'com a 
mesma autoridade que os trinta e 
seis. 


2 


O modo de distribuir é este. 
Eles sorteiam cada dois anos 
todos os senhores e gonfaloneiros 
que nos dois anos próximos 


devem entrar em exercício. E 


para fazer isto, reunidos que este- 
jam os senhores com o Conselho 
dos trinta e seis num salão, para 
isso preparado, colocam em 
outro salão próximo aquele os 
secretários das votações, com um 
frade, e um outro frade fica à 
porta que está entre as duas 
salas. A ordem é que cada qual 


que assuma-nomeie outro à sua 


escolha. Começa, então, o gonfa- 
loneiro por se levantar, e segreda 
ao ouvido do frade que está à 
porta de entrada dos secretários 
o nome daquele em quem vota € 
- em quem ele deseja que os outros 
votem. Depois, dirige-se aos se- 
crétários, e coloca na urna o seu 
voto. Regressando o gonfaloneiro 
ao seu lugar, dirige-se-lhe um dos 
senhores mais antigos: depois, os 
outros, cada qual por sua vez. 
Depois dos senhores, vai todo o 
Conselho, e cada qual, quando 
chega ao frade, pergunta quem 
foi nomeado e a quem ele deve 
entregar o partido; e não antes, 
de modo que para deliberar não é 
necessário mais tempo, senão o 
-Que se emprega para ir do frade 
aos secretários. Depois que cada 
qual votou, esvazia-se a urna, € 
se há três quartos a favor ele é 


MAQUIAVEL 


inscrito para um dos senhores; se 
não há, fica entre os que perde- 
ram. Feito isto, o mais antigo dos 
senhores vai e nomeia outro em 
segredo, ao frade. Depois cada 
qual vai entregar-lhe o voto. E 
cada qual, por sua vez, nomeia 
um, e as mais das vezes consti- 
tuem eles mesmos a Senhoria em 
três turnos de Conselho. E para 
que vençam é necessário que haja 
cento e oito senhores vencidos, e 
doze gonfaloneiros; assim sendo, 
designam entre eles por escru- 
tínio os funcionários encarre- 
gados do sorteio, os quais dis- 
poem sobre a data deste; e assim, 
os nomes sorteados cada dois 
meses se publicam. 

Na distribuição dos outros ser- 
viços obram de maneira diferen- 
te. Fazem o escrutínio deles uma 
vez por ano, de maneira que, 
para o serviço que funciona seis 
meses, fazem, em cada escruti- 
nio, dois oficiais. Mantêm, para a 
eleição, esta ordem: mandam pri- 
meiro uma comunicação de que, 
devendo-se proceder à escolha 
dos oficiais do ano futuro, quem 
quiser postos que providencie 
para sua inscrição. Quem desejar 
O cargo vai inscrever-se com o 
chanceler e este coloca todas as 
inscrições dos nomes numa 
bolsa. Depois, reunido que esteja 
o Conselho para distribuir os ser- 
viços, o chanceler vai tirando os 


ESCRITOS POLÍTICOS 


nomes da bolsa, um de cada vez. 
Se o inscrito está presente, diz: 
“Quero ser votado para tal servi- 
ço”; e assim continua a eleição. 
Se vence por três quartos, tal ofi- 
cio está provido e é posto de 
lado; e para esse serviço não se 
procede mais à eleição; se não 
consegue os três quartos, a inscri- 
ção é rasgada e não pode mais 
entrarem competição. Tira-se da 
bolsa outra inscrição e assim por 
diante, até que sejam providos 
todos os serviços do ano futuro; 
sendo, como disse, dois para 
cada um dos serviços que duram 
seis meses. É de notar-se, portan- 
to, a diferença destes modos com 
relação ao dos florentinos e os 
outros; porque no escrutínio da 
Senhoria, quem escrutina vai ao 
encontro da urna; e em outros 
lugares a uma é que vai ao 
encontro dos escrutinados. Na 
escolha dos serviços em outros 
lugares, propõe-se que serviço se 
vai escolher e depois se trata do 
sorteio dos homens que concor- 
rem; e querem que muitos con- 
corram, e ainda que muitos dis- 
putem e o serviço seja dado a 
quem tem mais merecimento. 
Mas os luquenses fazem o con- 
trário: primeiro se procede ao 
sorteio do homem e depois decla- 
ram a que ofício ele deve ir; e 
querem que tal declaração fique a 
critério do escolhido, e quem é 


DS 


escolhido avalia suas próprias 
forças e segundo estas escolhe o 
ofício. E se escolhe mal, sofre o 
dano, e perde por aquele ano a 
faculdade de ir à eleição; se 
vence, é seu o ofício; nem querem 
que vá a concurso um outro, para 
dá-lo a quem merece mais, por- 
que lhes pareceria injúria que 
outro lhe pudesse tirar o que lhe 
fora dado. De qual seja a melhor 
destas maneiras, ou a luquense 
ou a vossa, ou a dos venezianos, 
deixarei a outrem o juizo. 

O Conselho Geral, como disse, 
são setenta e dois cidadãos, os 
quais se reúnem com a Senhoria; 
e mais, cada um dos senhores 
pode nomear três cidadãos, os 
quais, reunidos a eles, têm a 
mesma autoridade. Este conselho 
permanece por um ano; o dos 
trinta e seis, seis meses: e têm 
somente a proibição de não 
poderem ser eleitos de novo os que 
pertenceram ao anterior. O Con- 
selho dos trinta e seis se renova 


“por si mesmo; o Geral é refor- 


mado pela Senhoria e por doze 
cidadãos eleitos pelos trinta e 
seis. Este Conselho Geral é o 
principe da cidade, porque faz e 
desfaz leis; faz tréguas, amiza- 
des; exila e mata cidadãos; afi- 
nal, não há apelo possível nem. 
nada que o freie, uma vez que a 
coisa tenha sido resolvida pelos 
três quartos dele. Têm, além das 


| 


224 | MAQUIAVEL | 


ordens mencionadas, três secretã- 
rios, Os quais exercem as funções 
seis meses. O ofício destes é o 
que chamamos espiões, ou, com 
nome mais honesto, guardas do 
Estado. Estes podem, sem qual- 
quer consulta, deportar um foras- 
teiro ou matá-lo: vigiam as col- 
sas da cidade; examinam coisas 
que ofendam o Estado e que 
digam respeito aos cidadãos-e as 
referem ao gonfaloneiro, à Se- 
nhoria, aos “colóquios”, para 
que sejam examinadas e corrigi- 
das. Têm, além disso, mais três 
cidadãos que exercem as funções 
seis meses e que chamam condot- 
tieri: têm autoridade de contratar 
infantes e outros soldados. Têm 
uma autoridade (podesta) foras- 
teira, que tem autoridade nas coi- 
sas civis e militares sobre os 
cidadãos e sobre quem quer que 
seja. Têm, ainda, magistratura 
sobre os comerciantes, sobre as 
artes, sobre as vias e edifícios pú- 
blicos, como têm todas as outras 
cidades: com as quais viveram 
até agora e entre tantos podero- 
sos Inimigos se mantiveram. 
Nem se pode com efeito senão 
geralmente louvá-los. Mas quero 


que consideremos o que neste | 


governo há de bom ou de mau. 

O tão ter a Senhoria autori- 
dade sobre os cidadãos está 
muito bem feito, porque assim o 


observaram as boas repúblicas. 
Os cônsules romanos, o doge e a 
Senhoria de Veneza não tinham e 
não têm autoridade nenhuma 
sobre os seus cidadãos, porque 
este é reputado o primeiro sinal 
de uma república, e tão evidente 
é, que se se lhe ajuntar autori- 
dade, é preciso convir que em 
brevíssimo tempo surjam maus 
efeitos. Fica bem mal ao governo 
de uma república a duscncia de 
majestade, como : acontece em 
Luca, porque durando ele só dois 


meses e sendo longo o impedi- 


mento de reeleição, necessaria- 
mente aí têm assento homens mal 
reputados: cuja ordem não é boa; 
porque aquela majestade e pru- 
dência que não está na coisa pú- 
blica procura-se nos particulares. 
Dai advém a necessidade que eles 
têm de fazer os colóquios com o 
parecer dos cidadãos que não 
estão nem entre os magistrados 
nem nos conselhos: do que nas 
repúblicas bem constituídas não 
se usa. E se se considerar quem: 
participava da Senhoria em Ve- 
neza ou quem podia ser cônsul 
em Roma, ver-se-à que os chefes 
destes Estados, se não tinham 
autoridade, tinham majestade: 
porque se é bom que lhes faltasse 
uma, também seria mau que não 
tivessem outra. A maneira como 
distribuem os luquenses a Senho- 


ESCRITOS POLÍTICOS 


ria € Os serviços é boa, civil e 
bem considerada. É verdade que 
se desvia da constituição das 
repúblicas passadas; porque na- 
quelas a maioria distribuia os ofi- 
cios, o meio-termo aconselhava, 
a minoria executava: e em Roma 
o povo elegia, o Senado aconse- 
lhava, os cônsules e. os outros 
magistrados menores executa- 
vam. Em Veneza o Conselho dis- 
tribui, os Pregai aconselham, a 
Senhoria executa. Em Luca estão 
confundidas estas ordens: porque 
o número menor distribui; o 
menor e o maior, parte aconselha 
e parte executa; e embora na 
república de Luca não resulte 
mal, não deve imitar esta ordem 
de coisas quem organiza uma 
república. A razão por que não 
resulta mal é porque as honras e 
as utilidades naquela cidade são 
procuradas com pouca ambição; 
porque de um lado são fracas; 
por outro, quem desejaria procu- 
rá-las é rico e estima mais os seus 
trabalhos que aquelas; e por isso 
se vem a cuidar menos de quem 
os administre. Ainda há que con- 
siderar o pequeno. número de 
cidadãos privados e o fato de não 
serem os Conselhos vitalícios, 
mas somente durarem seis meses, 


o que faz com que todos queiram: 


e esperem deles participar. 
Além disso, a autoridade que 


225 


os sênhores têm de nomearem 
cada Conselho dois ou três para 
cada um assossega numerosos 
amigos: porque muitos qué não 
esperam vencer as eleições pen- 
sam ter amizade com um que os 
possa fazer convocar. Assim, 
pouco lhes importa que distribua 
o do grupo dos trinta e seis ou o 
dos setenta e dois. Mantêm, 
ainda, no reunir estes Conselhos, 
uma outra ordem, que serve para 
satisfazer o povo e abreviar os 
trabalhos: que se quando eles se 
reúnem em Conselho e tenha ter- 
minado o prazo dentro do qual 
os conselheiros devem apresen- 
tar-se e faltar algum, a Senhoria 
pode mandar aos seus homens 
que conduzam os primeiros cida- 
dãos que encontrem que tenham 
sido do número dos inscritos 
para preencher a vaga dos falto- 
sos. É ainda bem estatuído que o 
Conselho Geral tenha autoridade 
sobre os cidadãos, porque isso 
vale por um grande freio para 
castigar os que desejassem tor- 
nar-se muito grandes. Mas já não 
é bom que não exista uma magis- 
tratura de poucos cidadãos, qua- 
tro ou seis, por' exemplo, que 
possa castigar: porque qualquer 
uma destas providências que falte 
numa república causa desordem. 
A maioria serve para castigar os 
grandes e as ambições dos ricos; 


226 


a minoria serve para amedrontar 
os...25 e para frear a insolência 
dos jovens. Porque todos os dias 
nesta cidade acontecem coisas 
que a maioria não pode corrigir: 
de onde advém que os jovens ga- 
nham audácia, a juventude se 


corrompe e, corrompida, pode 
tornar-se instrumento da ambi- 
ção. Luca, portanto, falha destes 
elementos que freassem a juven- 
tude, viu crescer esta insolência e 
causar maus efeitos na cidade; 
daí, para freá-la, fez uma lei, há 
muitos anos, que se chama lei 
dos díscolos, que quer dizer dos 
nsolentes e malcriados, e pela 
qual se proveu que no Conselho 
Geral, duas vezes cada ano, em 


setembro e março, todos os que 
aí estão reunidos dispõem sobre 
o que lhes parece deva ser exila- 
do. Lêem-se depois as listas, e 
aquele que é mencionado dez 
vezes e mais, o seu nome é sub- 
metido ao voto e se a inclusão 
vence pelos três quartos ele é 
mandado fora do país por três 
anos. Esta lei foi muito bem 
considerada e fez grande bem 
aquelá república: porque por um 
lado ela é grande freio para os 
homens; por outro, não pode for- 
mar multidão de exilados; por- 
que, desde os primeiros três anos 


25 Lacuna do manuscrito. Talvez “aos infe- 
riores” ou coisa semelhante. (N. do T.) 


MAQUIAVEL 


em que a lei foi feita em diante, 
tantos exilados voltam quantos 
saem. Mas esta lei não basta, 
porque os jovens que são nobres, 
ricos e de alto parentesco, por 
causa do caráter estrito da vota- 
ção, não a temem: e vê-se que 
nestes tempos houve uma família 
— os Poggio — da qual surge 
toda a sorte de exemplos não 
bons numa república boa e para 
o que, até agora, não encon- 
traram remédio. 

Parecerá talvez a alguém que 
exista desordem, que todos os 
partidos dos luquenses se devam 
vencer pelos três quartos. A isto 
se responde que desordenando-se 
as coisas nas repúblicas sempre 
do sim ao não, é muito mais peri- 
goso naquele voto o sim do que o 
não; e mais se tem que advertir 
aqueles que querem que se faça 
alguma coisa do que àqueles que 
não o querem; e por isso julga-se 
menos mau que alguns possam 
contentar-se facilmente de que 
não se faça um bem, do que eles 
possam facilmente fazer um mal. 
Contudo, se esta dificuldade está 
resolvida, não existe bem geral, 
porque são muitas as coisas que 
seria bom facilitar. E castigar os 
cidadãos é uma, porque se a sua 
pena se devesse declarar pelos 
dois terços, parentes e amizades 
poderiam com maior dificuldade 
impedi-los. 


1 
i 


ESCRITOS POLÍTICOS 257% 


Isto é, efetivamente, quanto se Luca e o que nele existe de bom e 
pode dizer do governo dentro de de mau. 


ÍNDICE 
DOS NOMES CITADOS 


Agapito (Messer) de Gherardi — Um 
dos secretários de César Bórgia. 


Agátocles (317-289 a.C.) — Principe 
de Siracusa. Venceu os cartagineses na 
África. 


Alberico da Barbiano, Conde de Cunio 
— Foi o primeiro condottiere de tro- 
pas mercenárias, a Companhia de São 
Jorge, que combateu a favor do Papa 
Urbano VI. Morreu em 1409. 


Albinus, Decius Claudius — Coman- 
dante das legiões nas Gálias, derrotado 
por Septímio Severo, proclamado im- 
perador pelas legiões do Danúbio. 


Alexandre, o Grande (356-323 a.C.) 
— Rei da Macedônia, estendeu pela 
Ásia o seu império. 


Alexandre Severo — Imperador roma- 
no, último da dinastia dos Africanos, 
morto pela soldadesca, numa subleva- 
ção no Reno. 


Alexandre VI (Papa) — Rodrigo Bór- 
gia, nascido a 1.º de janeiro de 1431 
em Xativa, perto de Valência (Espa- 
nha), era sobrinho do Papa Calisto HI 
e estudou leis em Bolonha. O tio de 
Rodrigo o fez sucessivamente bispo e 


cardeal, vice-chanceler da Igreja. A 25 
de julho de 1492, morria o Papa Ino- 
cêncio VIII. Reunido o conclave a 6 de 
agosto, a eleição do novo papa assu- 
miu as proporções de um jogo de 


bolsa, tal era o negócio que se fazia 


com os votos dos cardeais. Os ban- 
queiros de Roma forneciam o dinheiro 
para a luta entre os três candidatos 
mais prováveis: Giuliano della Rovere, 
apoiado .pela França, Ascânio Sforza, 
irmão de Ludovico, o Mouro, e Rodri- 
go Bórgia, que, afinal, pela compra dos 
votos de Ascânio, ganhou a partida. 
Rodrigo Bórgia, riquíssimo, comprara, 
à exceção de cinco, todos os votos do 
conclave. Ao Papa Inocêncio sucedeu 
com o nome de Alexandre VI, o ponti- 
fice que passou à história pela fama 
dos seus crimes. 

É assim que Pasquale Villari retrata 
Alexandre VI: “...e se bem que não 
conseguisse sempre dominar as suas 
paixões, deixando muito facilmente 
ver-se o seu pensamento, sabia 'ser, no 
entanto, ao mesmo tempo, simulador e 
dissimulador impenetrável. Não era 
homem de muita energia e nem de 
propósitos firmes: tergiversava por 
natureza e por sistema”. “A firmeza € 
a energia que lhe faltavam no caráter 
eram, porém, supridas pela constância 
das mãs paixões que o cegavam.” 


232 


“Ambiciosíssimo de dinheiro, procura- 
va-o por todos os meios e o gastava 
largamente. À paixão pelas mulheres o 
dominava sobre tudo; amava louca- 
mente os filhos e queria fazê-los 
poderosíssimos.” (Niccolô Machiavelli 
e Suoi Tempi, I, cap. VI.) 

Alexandre VI morreu a 18 de agosto 
de 1503. No dia seguinte, o seu corpo 
foi exposto, conforme o costume, em 
São Pedro. “Foi o mais feio, mons- 
truoso e horrendo cadáver jamais 
visto”, diz o embaixador de Veneza, 
Antônio  Giustiniano; “não tinha 
forma nem figura humana.” Conserva- 
ram-no coberto e no mesmo dia o 
sepultaram quase clandestinamente, de 
temor da cólera do povo. 


Amboise (d”), Georges (1510) — Car- 
deal de Rouen, conselheiro político de 
Luís XII, que o fez governador da 
Lombardia. O cardeal impôs a Milão 
um tributo de guerra de trezentos mil 
ducados, sob pretexto de que “era me- 
lhor tributar que saquear”. 


Amílcar Barca — Chefe do exército 
cartaginês na Sicília. 


Angoulême (Senhor de) — O condado 
de Angoulême era um apanágio dos 
Valois. Francisco I, de quem se trata 
aqui, teve esse título antes de subir ao 
trono de França. 


Anibal -—— General cartaginês, filho de 
Amilcar Barca. Comandou os exérci- 
tos de Cartago contra Roma. 


Antioco III, da Síria — Da dinastia 
dos Selêucidas, este príncipe projetou 
restaurar o poderio dos seus antepassa- 
dos. Concluiu, em 202 a.C., uma alian- 


ÍNDICE DOS NOMES CITADOS 


ça com Filipe da Macedônia. Conquis- 
tou Éfeso (197 a.C.) e, transpondo o 
Helesponto, ocupou Sestos e Lismá- - 
quia, na “Trácia, entrando assim em 
conflito com Roma. Aníbal, refugiado 
na corte seléucida, instigava a forma- 
ção de uma vasta coligação mediter- 
rânea anti-romana (Síria, Cartago, 
Macedônia e os insurretos de Espa- 
nha). Antíoco foi completamente bati- 
do em Magnésia (189) pelos exércitos 
romanos. | 


Antium (Anzio) — Porto ao pé do 
cabo do mesmo nome, no Lácio. 


Aqueus — A Liga Aquéia, a qual, fun- 
dada em 281 a.C., estendeu a sua 
influência por quase toda a Grécia, 
tendo por fito combater as tiranias lo- 
cais e resistir à hegemonia da Macedô- 
nia. 


Aquiles — Herói da mitologia grega. 
Filho de Peleu e Tétis, participou da 
guerra de Tróia. 


Arcebispo de Florença (Antônio di 
Santa Croce) — Partidário dos Orsini. 
Assassinado pelos Bórgia. 


Arezzo — Cidade da Toscana, no vale 
do Chiana. 


Aricianos — De Aricia, cidade do 
Lácio, imediata a Roma, na Via 
Appia. ER 


Astura — Cidade ao sul de Roma, na' 
foz do Astura. 


Baglioni, Giovan Paolo — Senhor de 
Perúgia, tomou parte na conspiração 
de La Maggione contra César Bórgia, 


| 


ÍNDICE DOS NOMES CITADOS | 233 


que o expulsou (6 de janeiro de 1503). 


Bentivoglo — Nome da casa dos 
senhores de Bolonha. Em 1445, Batista 
Canneschi, da família Canneschi, po- 
derosa rival, assassinou Annibale Ben- 
tivoglio e proclamou-se partidário do 
duque de Milão, com o apoio de quem 
desejava galgar o poder. Giovanni 
Bentivoglio foi expulso de Bolonha 
pelo Papa Júlio IX, em 1506, mas seu 
filho, o segundo Annibale Bentivoglio, 
voltou e governou de 1Sll a 1512. 


Bibbiena -— Crdade da Toscana, a cin- 
quenta e sete quilômetros de Florença, 
ao pé do Arno. 


Bispo Lucas Rainaldi — Embaixador 
do Imperador Maximiliano. 


Borgo — Cidade do Lácio, a vinte e 
quatro quilômetros de Roma. 


Bracceschi — Os partidários de Brac- 
cio, rivais dos “Sforzeschi”. 


Montone, 
Condottiere. 


Braccio di 
(1368-1424) — 
Joana de Nápoles.) 


(Ver 


Briçonnet (Guillaume, Cardeal) — Mi- 
nistro de Carlos VIII, arcebispo de St. 
Malo, criado cardeal por imposição da 
França a Alexandre VI, fci depois 
arcebispo de Reims. Excomungado por 
Júlio II, de quem divergira. Morreu em 
1535 


Buggiano — Hoje Bolzano, cidade do 
« Tirol italiano. 


Camerino (Senhor de) — Giulio Cesa- 
re de Varano, feito prisioneiro por 


Andrea ' 


César Bórgia (1502) na conquista da 
Romanha. 


Camilo, M. — Furius Camillus, gene- 
ral romano. Ditador em 395 a.C,, 
apoderou-se de Veios, assediada havia 
dez anos, e fez guerra contra os falis- 
cos. Submetidos estes, voltou a Roma, 
e, tendo sido acusado de desvio de 
parte das riquezas conquistadas, exi- 
lou-se voluntariamente. Nomeado dita- 
dor segunda vez quando os gauleses 
conquistaram Roma (389), libertou a 
Itália, tendo reconstruído a cidade, 
razão por que foi cognominado segun- 
do fundador de Roma. Foi ainda dita- . 
dor duas vezes: a primeira, bateu os 
volscos, os hérnicos, os toscanos e os 
latinos; a segunda, exterminou os gau- 
leses, que tinham voltado a invadir a 
Itália. Morreu em 365 a.C. 


Canneschi — Família bolonhesa, rival 
dos Bentivoglio. 


Caracala, Antoninus (211-217 d.C) — 
Imperador romano, filho de Septímio 
Severo. 


Carlos VI — Rei de França. No seu 
reinado, os ingleses apoderaram-se da 
Normandia pela vitória de Azincourt 
(1415). 


Carlos VII (1422-1461) — Rei de 
França. Pôs termb à Gueira dos Cem 
Anos, libertando a França da Ingla- 
terra. Organizou o primeiro núcleo do 
exército nacional francês., 


Carlos VII — Rei de França. Invadiu 
a Itália em 1494, sem encontrar resis- 
tência. Nos primeiros dias de março, 
fez o rei entrada solene em Lião para 


234 ÍNDICE DOS NOMES CITADOS 


assumir o comando dos exércitos, cuja : 


vanguarda era comandada por 
D'Aubigny. Apenas começado o assé- 
dio de Sarzana, Piero de Medici ren- 
deu-se incondicionalmente. Florença 
-rebelou-se e Piero fugiu para Veneza. 
A 17 de novembro os franceses entra- 
ram na cidade, donde saíram a 28, de- 
pois de receber um tributo em dinheiro. 
Em Roma, sob a pressão dos. exércitos 
franceses, o Papa Alexandre nomeou 
cardeal o bispo de St.-Malo, e concor- 
dou em que os franceses avançássem 
para Nápoles. Aí, Afonso de Aragão 
renuncia ao trono e foge para a Sicília. 
Os franceses entram na cidade em 22 
de fevereiro de 1495. Os venezianos 
tomaram então a iniciativa de expulsar 
os franceses da Itália. A Liga de Vene- 
za (Veneza, Milão, Espanha, o impera- 
dor da Alemanha e o papa), formada 
contra ele, forçou-o, depois da batalha 
indecisa de: Fornovo, ou Taro (6 de 
julho de 1495), a voltar à França. Em 
1496, pela intervenção de Fernando, 
rei de Espanha, os franceses deixaram 
definitivamente o território de Nápoles. 
Carlos VIII personifica o início da 
política francesa de conquista. Até 
Luís XI a política de França se reduzia 
à luta contra vassalos poderosos e pela 
unidade nacional. A conquista da Itá- 
lia representava para os franceses a 
hegemoniano Mediterrâneo. 


Carmagnola (Conde de), Francesco 
Bussone (1390-1432) — Combateu 
por Filippo Maria Visconti, duque -de 
-Milão, passando depois, em 1425, ao 
serviço de Veneza, e chegou a coman- 
dar os exércitos de Florença e Veneza, 
aliadas contra Milão. As forças mila- 


nesas, comandadas por Francesco 
Sforza, foram desbaratadas por Car- 
magnola em Maclódio (1427). Os 
venezianos, suspeitando de Carmag- 
nola, tiraram-lhe o comando e o 
executaram. 


Castiglione — Cidade toscana a quin- 
ze quilômetros ao sul de Arezzo. 


César Bórgia (1378-1507) — Filho de 
Alexandre VI. Foi criado cardeal de 
Valência (Espanha) em 1493. Tendo 
abandonado a carreira eclesiástica, foi 
feito, pelo rei de França, duque de 
Valentinois (donde lhe veio o nome 
que o povo lhe dava, de “Duque Valen- 
tino”), quando foi à França levar a 


- bula de anulação do casamento de 


Luís XII e o chapéu cardinalício para 
Georges d'Amboise, arcebispo de 
Rouen (setembro de 1498). Logo de- 
pois da entrada dos franceses em 
Milão (outubro de 1499), César Bórgia 
tomou Ímola e Forl, domínios de 
Caterina Riario Sforza; em 1500, 
apoderou-se de Rimini (Pandolfo Ma- 
latesta) e Pesaro, governada por Gio- 
vanni Sforza; em 1501, Faenza (As- 
torre Manfredi) e Piombino caem sob 


“o seu poder; em 1502, Urbino (Guido- 


baldo da Montefeltro), Camerino (Giu- 
lio Cesare da Varano) e Sinigaglia 
(Francesco Maria della Rovere). A 
esse tempo,: assumiu os títulos de 
duque da Romanha, de Valença e 


dºUrbino, Príncipe de Andria, senhor 


de Piombino, gonfaloneiro e capitão- 
general da Igreja. A queda de Urbino 
ameaçava Florença, que apelou para O 
auxílio dos franceses. Valentino desis- 
tiu, assim, da conquista de Florença. 
Depois reconciliou-se com Luis XII, e 
empreendia a conquista de Bolonha 


ÍNDICE DOS NOMES CITADOS 


quando diversos capitães seus, na 
maior parte pequenos tiranos da Itália 
central, atemorizados pelos seus pro: 
gressos, tramaram uma conspiração, 
dirigida pelos Orsini. Os conjurados. 
reunidos em La Magione, combina 


ram uma liga contra Valentino, che: 


gando as suas tropas a tomar O Forte 
de São Leão de Urbino, e chamaram 
em seu socorro a república de Flo- 
rença (1502). As tropas de Valentino 
foram derrotadas pelos Orsini em 
Fossombrone. Aquele pediu, então. o 
auxílio dos franceses, enquanto Flo- 
rença recusava auxiliar os conspira: 
dores, chegando-se assim a um com 
promisso de paz, firmado entre o 
duque e Paolo Orsini. Valentino, 
pouco depois, vingou-se cruelmente 
destes. Morto Alexandre VI (agosto; 
1503), Valentino deixa Roma para 
negociar o apoio dos franceses. Sua 
situação era má: os Orsini, os Colon- 
na, Gonsalvo, o comandante das for- 
ças espanholas no sul, tinham feito 
aliança contra ele. Rebentaram rebe- 
lões em todas as cidades que conquis- 
tara. Voltando a Roma sem ter obtido 


o auxílio de Luís XII, Valentino viu-se, 


obrigado, por causa da hostilidade dos 
Orsini, a refugiar-se no Castelo de 
Santo Ângelo. Também Júlio II, eleito 
papa com o apoio de Valentino, pôs-se 
em campo contra este, que estava 
“virtualmente prisioneiro do papa. Em 
agosto de 1504, foi embarcado para a 
Espanha, mas, em 1506, tendo escapa- 
do, refugiou-se na França. Combateui 
ao lado do seu cunhado, o rei de 
Navarra, contra Castela, tendo sido 
morto, numa escaramuça, em 12 de 
março de 1507. 

“Valentino não era grande político 
nem grande capitão, mas uma espécie 


235 


de capitão de bando cuja força proce- 
dia principalmente do papa e da Fran- 
ça. Soubera criar um Estado do nada, 
nspirando terror a todos, enfim, ao 
próprio papa. Rodeado de grande nú- 
mero de inimigos poderosos e arma- 
dos, livrou-se deles com grande audá- 
cia e arte infernal.” (P. Villari, op. eit., 
I, cap. V.) 


Chaumont (Senhor de) — Charles 
d'Amboise, irmão do Cardeal 
d'Amboise, ministro de Luís XII. 


Chiana — Vale da Itália que, na anti- 
ga fronteira da Toscana com o Estado 
papal, divide as suas águas entre o 
Arno e o Tibre. 


Fundador da 


Ciro (599 a.C.) 
monarquia persa. 


Cipião (Publius Comelius Scipio) — 
General romano, vencedor de Aníbal, 
Já tinha destruído o domínio cartaginês 
na Espanha, quando, reforçado por 
Massinissa, príncipe berbere aliado de 
Roma, desembarcou com quarenta mil 
homens na África. Pela vitória de 
Zama ou Narragara (202 a.C.) os 
romanos aniquilaram definitivamente 
o império cartaginês. | 
Colleoni da Bergamo, Bartolomeo 
(1400-1475) — Célebre condottiere, 
chefe dos exércitos de Veneza. Derro- 
tado por Francesco Sforza, em Cara- 
vaggia, em 1448. 


Colonna -— Família romana rival dos 
Orsini. 


236 


Colonna (Giovanni, Cardeal) — Inimi- 
go do Papa Clemente VII, assaltou e 
-saqueou Roma (1526). 


Commodus Aurelius (180-192 a.C.) 
— Imperador romano, filho de Marco 
Aurélio, a quem sucedeu. Foi assassi- 


" nado. 


Cortona — Cidade toscana. Antes de 
ser sujeita a Roma, era uma das princi- 
pais da confederação etrusca. 


D'Alviano de Todi (Bartolommeo) —. 


Casado com uma Orsini. Prisioneiro 
“do Papa Alexandre VI, tendo conse- 
guido fugir (1497), preparou a resis- 
tência e venceu as forças pontificais, 
ficando de novo os Orsini senhores da 


Campanha. Grande condottiere na Itá-. 


lia central, foi batido pelos florentinos 
(1505). Esteve depois a soldo dos vene- 
zianos contra Maximiliano (1508) e 
contra os franceses, que o fizeram 
prisioneiro em Vailã. A serviço destes, 
ganhou para Francisco I (1515) a 
Batalha de Marignano. 


Dario I (521-486 a.C.) — Rei da Pér- 
sia. Submeteu a Trácia e a Macedônia. 


Dario III (337-330 a.C.) — Derrotado 
por Alexandre. 


- D'Aubigny — Escocês comandante da 
vanguarda das tropas francesas que 
invadiram.a Itália sob Luís XII. 


Davi — Rei de Israel. 
D'Este — Nome de família dos duques 
de Ferrara. 

1) Ercole T dºEste (1471-1505), que 
foi derrotado pelos  venezianos 


ÍNDICE DOS NOMES CITADOS 


(1482-1484); 2) Afonso IT dEste 
(1505-1534), que foi desapossado de 
quase todos os seus domínios pelo 
Papa Júlio II (durante a guerra movida 
por este contra a França: 1510-1511). 
A casa de Ferrara era talvez a mais an- 


tiga casa reinante na Itália. 


Dido — Rainha de Cartago. 


Elna (Cardeal d) — Francesco Loris, 
bispo de Elna. 


Epaminondas — General tebano, fau- 
tor máximo da hegemonia de Tebas 
sobre a Grécia. Morreu na Batalha de 
Mantinéia (362 A.C.), onde os seus 
exércitos tiveram a vitória, contudo. 


Etólios — Constituíida em 314 a.C ., a 
Liga Etólia compreendia, além deste 
povo, grande parte dos povos da Gré- 
cia central, da Acarnânia à Tessália 
meridional, chegando a granjear ade- 
sões no Peloponeso e nas cidades 
ultramarinas. Para intervir na Grécia, 
Roma explorou as rivalidades locais 
dos povos helênicos e, assim, formou - 
uma aliança com os etólios e esparta- 
nos, para aniquilar o poderio da Mace- 
dônia, de quem era aliada a Liga 
Aquéia. A Liga Etólia foi dissolvida 
em 189 a.C. 


Fabius Maximus — Ditador romano 
no tempo da Segunda Guerra Púnica. 
Passou à história com o cognome de 
Cunctator, pela sua tática contempori- 
zadora para com os exércitos de Ani- 
bal, que saquearam durante quase um 
ano a península Itálica, sem que os 
romanos lhes fizessem frente. 


Faenza (Senhor de) — Astorre Man- 


ÍNDICE DOS NOMES CITADOS 


fredi, filho de Galeotto Manfredi, as- 
sassinado com a conivência da mulher, 
da casa dos Bentivoglio, de Bolonha, 
que esperavam dominar Faenza. Pela 
intervenção de Florença foi assegurado 
. O governo a Astorre, menino ainda. 


Fano — Cidade papal, a onze quiló- 
metros de Pesaro. 


Fernando, o Católico — Rei de Espa- 
nha (1469-1516). Com o casamento de 
Fernando de Aragão e Isabel de Caste- 
la começa um novo periodo da história 
da Espanha. Com a conquista de Gra- 
nada aos mouros, e da Navarra, 
completou-se a unidade nacional, e 
expandiu-se a força da Espanha como 
potência européia. Fernando interveio 
na Itália para fazer valer os seus direi- 
tos sobre o reino de Nápoles. Luís XII, 
de França, firmou, em 1500, com o rei 
católico, um tratado secreto pelo qual 
foi convencionada entre os dois a con- 
quista do reino de Nápoles, governada, 
então, por Frederico de Aragão. A par- 
tilha prevista no tratado consignava a 
parte norte do reino a Luís, e a parte 
sul a Fernando. Os franceses, sob o 
comando de D'Aubigny, marcharam 
em 1501 sobre a Itália; os aliados rom- 
peram o pacto, e os franceses foram 
derrotados pelos espanhóis, na Batalha 
de Cerignola (1503). Derrotados, pela 
segunda vez, no Garigliano, os france- 
ses desistiram da conquista, e o Trata- 
“do de Blois sancionou a posse do reino 
de Nápoles pela coroa da Espanha 
(1504). 


Filipe — Rei da Macedônia, pai de 
Alexandre, o Grande. Pela vitória de 
Queronéia, tornou-se árbitro de toda a 
Grécia. 


234 


Filipe V, da Macedônia (221-179 a.C.) 
— Aliado de Anibal contra os roma- 
nos, derrotado pelo Cônsul Flaminius 
na Batalha de Cinocéfalo (179 a.C.). 


Filopêmenes (182 a.C.) — Chefe do . 
partido nacional grego, que resistiu 
durante toda a sua vida' ao regime de 
protetorado romano sobre a Grécia. 


Forli (Senhora de) — Caterina Sforza, 
neta de Francesco Sforza, filha legi- 
tima de Galeazzo Mario Sforza, ca- 
sou-se com o Senhor de Forli, Giro- 
lamo Riario, sobrinho do Papa Xisto 
IV. Em 1488, Girolamo foi vítima de 
uma conspiração. Caterina, usando do 
estratagema de prometer aos conspira- 
dores que iria induzir as tropas do 
Castelo de Forli a render-se, conseguiu 
Juntar-se a elas e aí resistiu até chega- 
rem reforços mandados por seu tio, 
Ludovico, o Mouro, duque de Milão. 
Em 1499, a população revoltou-se con- 
tra Caterina, que resistiu no castelo, 
até janeiro de 1500, quando César 
Bórgia atacou Forh. 


Francesco Bella Casa — Embaixador 
florentino em França, por ocasião de 
preparar-se a invasão da Itália. 


Friul — Ducado que os lombardos 
cederam a Veneza, e foi depois em 
parte conquistado pelos austríacos. 


Garigliano — Rio da Itália que desem- 
boca a catorze quilômetros de Gaeta e 
à margem do qual os franceses foram 
derrotados pelos espanhóis (1503). 


Gracos — Tiberius Sempronius Grac- 
chus e seu irmão Caius, tribunos roma- 
nos, chefes da plebe, mortos, respecti- 
vamente, em 133 e 121 a.C... 


238 


Gueldre — Cidade da Prússia renana 
e antiga capital do ducado de Gueldre. 
Já não se inclui mesmo na atual pro- 
víncia de Gueldre, a qual pertence à 
Holanda. O ducado foi vendido em 
1471 pelo Conde de Egmont a Carlos, 
o Temerário, duque de Borgonha, 
sogro de Maximiliano T. 


Guido Ubaldo ou Guidobaldo da Mon- 
tefeltro, duque de Urbino — Foi expul- 
so por Valentino em julho de 1502, 
mas conseguiu voltar, com o apoio dos 
Ursini e dos Vitell. Tendo entrado na 
conspiração de La Magione contra 
Valentino, escapou à vingança deste 
fugindo para Veneza. Depois do declií- 
nio dos Bórgia, voltou para o seu duca- 
do, morrendo em 1508. 


Hawkwood (Sir John) — Cavaleiro 
inglês que se tornou condottigre na Itá- 
lia. Em 1363, pertenceu à Companhia 
Branca, na luta de Pisa contra Floren- 
ça, permanecendo fiel âáquela quando a 
Companhia passou ao serviço dos 
florentinos. Depois, em 1390, comba- 
teu por Florença contra Milão, tendo 
sido obrigado a bater em retirada dian- 
te das forças de Giovan Galeazzo Vis- 
conti, duque de Milão. Morreu em Flo- 
rença, em 1394. 


Heliogábalo — Imperador romano, 
sobrinho e sucessor de Caracala. 


Hierão — (306-214 a.C.) — Tirano de 
Siracusa. 


Joana II, de Nápoles — Sucedeu ao 
seu irmão Ladislau, morto em 1414. 
Casou-se com Jaime de Bourbon, sob 
a condição de contentar-se ele com o 
título de príncipe de Taranto. Marido e 


ÍNDICE DOS NOMES CITADOS 


mulher desavieram-se, e enfim Joana 
reinou sozinha, tendo tomado a soldo 
o condottiere Múzio Attendolo Sforza 
da Gotgnola. Em 1420, Joana adotou 
como filho Afonso de Aragão, pois 
Múzio tentara usurpar-lhe o trono. À 
rainha tomou a seu serviço Braccio di - 
Montone. Mas Afonso rompeu com a 
rainha, e Braccio o seguiu. Esta apela 
mais uma vez a Sforza, que expulsa 
Afonso de Nápoles. 


Julianus, Marcus Ovidius (193 d.C.) 
— Imperador romano. 


Júlio II, Papa (Giuliano della Rovere) 
— Cardeal de S. Pietro ad vincula, 
eleito papa, em 1503, depois do efe- 
mero reinado de Pio III, sucessor de 
Alexandre VI, com o apoio de César 
Bórgia, de quem tinha sido adversário. 
Nascido em Savona, de órigem humil- 
de, tinha sessenta anos, quando foi le- 
vado ao papado. Riquiíssimo, por ter 
passado por muitos bispados, era 
homem sem muitos escrúpulos. Tinha 
a obsessão da potência e grandeza da 
Igreja. De caráter impetuoso e violen- 
to, contrário ao dos Bórgia, adversário 
implacável destes, não hesitou, porém, 
em combinar com Valentino a própria 
eleição, prometendo deixar-lhe o go- 
verno da Romanha. Júlio II, para alar- 
gar o poderio da Igreja, empreendeu a 
guerra contra Veneza, organizando, 
em dezembro de 1508, a Liga de Cam- 
brai, com Maximiliano, imperador da 
Alemanha, os reis de França, Espanha 
e Inglaterra, os duques de Sabóia e 
Ferrara, e o marquês de Mântua. Na 
batalha de Vailã (Agnadello), a 19 de 
maio do ano seguinte, os venezianos 
foram completamente derrotados pelos 
franceses, tendo estes ocupado grande 
| 


ÍNDICE DOS NOMES CITADOS 


parte da Lombardia, e as tropas impe- 
riais avançado sobre Verona, Vicenza 
e Pádua. O papa apoderou-se da 
Romanha e das margens do Adriático.. 
Com a retirada de Luís XII da Liga, 
Veneza recobrou Pádua e Vicenza. o 
papa, fazendo-se amigo de Veneza, 
dirigiu-se, em 1510, contra o duque de | 
Ferrara, mas este, com o auxílio dos 
franceses, derrotou as tropas papais 
perto de Ímola, e entrou em Bolonha. 
Júlio II, para anular a influência da. 
França na península, organizou de-| 
pois, com a Espanha, Veneza e Ingla- 
terra, a Santa Liga. Abriu-se nova; 
campanha, em 1512, sendo os france-| 
ses vitoriosos em Ravena, sob o co-: 
mando de Gaston de Foix. Não obs-; 
tante, por pressão da infantaria suíça, 
os franceses foram obrigados a reti-: 
rar-se de Milão e abandonar, pouco | 
depois, o território italiano, definitiva-| 


mente vencidos que foram, em Novara. . 


O papa voltou-se contra Veneza e,: 
aliado à Espanha e a Milão, derrotou: 
os exércitos venezianos, na batalha de. 
Vicenza. Sobre as ações de Júlio II,. 
lembre-se a passagem de P. Villari (op. : 
cit., I, cap. XV), que as resume assim: | 
“Não libertara (o papa) a Itália dos | 
estrangeiros. Ao contrário, por obra! 
sua estava ela ocupada, pisada por ale- 
mães, espanhóis e suíços; 


| 
i 


mas tinha: 


expulso os franceses, frustrado o Con- | 


ciliábulo (de Pisa), reunido o concílio | 
lateranense, estendido e reforçado o: 
domínio temporal da Igreja, a cujas: 
armas dera reputação, feito de Roma o 


centro principal de negócios da Itália e 
do mundo. A esse ponto, caía doente e 


morria a 20 de fevereiro de “1513. 
“Digno de grande glória”, disse Guic-, 
ciardini, “se ao invés de ser papa, tives-. 
se sido príncipe secular” ... 


239 


La Palice (Senhor de), Jacques de Cha- 
bannes — Marechal de França que se- 
guiu Carlos VIII na conquista de Ná- 
poles e depois participou das 
expedições de Luís XII e de Francisco 
I contra a Itália. Morreu em combate 
na derrota de Pávia (1525). 


Leão X, Papa (Cardeal Giovanni de 
Medici) (1475-1521) — Voltando os 
Medici a Florença, o primeiro cuidado 
do cardeal foi reformar o governo, no 
sentido de voltar o estado de coisas 
existente sob Lorenzo, o Magnífico, 
isto é, sob a aparência das velhas insti- 
tuições republicanas, o governo era 
controlado pelos Medici, que se intitu- 
lavam patronos da república. Um 
contemporâneo diz: “Reduziu-se a ci- 
dade a não fazer senão a vontade do 
Cardeal de Medici”. À morte de Júlio 
IX, formou-se no conclave um partido 
dos cardeais novos para elevar o Car- 
deal de Medici ao papado. Adversário 
dos franceses, favorito do papa defun- 


to, liberal até a prodigalidade, letrado e 
de feitio diplomático, era um candi- 
dato já de antemão vencedor. Foi elei- 
to a 1.º de março de 1513 com o nome 

de Leão X. 


Liverotto da Fermo (Oliverotto Effre- 
ducci da Fermo) — Um dos que, sob a 
direção dos Orsini, conspiraram con- 
tra César Bórgia. Forçado pelas cir- 
cunstâncias a entrar em entendimentos 
com os conspiradores, Valentino não 
se vingou: imediatamente, mas, pouco 
depois, Oliverotto foi estrangulado em 
Sinigaglia (31 de dezembro de 1502). 


Lívio (Titus Livius) — Historiador ro- 


mano nascido em Pádua em 59 a.C. 


240 


Da sua monumental História Romana 
restam alguns livros completos e frag- 
mentos. Amigo de Augusto, que lhe 
confiou a educação de Cláudio. 


Luís XI — Rei de França 
(1461-1483). Iniciador da unidade na- 


cional francesa.: 


Luís XII — Rei de França. À morte de 
Carlos VIII (1498) extinguira-se O 
ramo primogênito dos Valois. Suce- 
deu-lhe no trono o Duque de Orleans 
com o nome de Luís XII. A casa de 
Orleans, pelas suas ligações com os 
Visconti, tinha pretensões ao ducado 
de Milão, e isso foi pretexto para que 
Luís XII continuasse a política de Car- 
los VIII, de conquista da Itália. Subin- 
do ao trono, Luís repudiou a irmã de 
Carlos VIII para casar com a rainha 
viúva Ana de Bretanha. A anulação do 
casamento com aquela foi conseguida 
de Alexande VI, Bórgia, em troca do 
apoio da França à conquista da Roma- 
nha pelo papa, que fez ainda cardeal 
ao arcebispo de Rouen, conselheiro do 
rei. Luís XII aliou-se, em 1499, a Ve- 


neza para a conquista do ducado de. 


Milão, que deveria ser repartido entre 
ambos. A França mandou contra Lu- 
dovico, o Mouro (Sforza), que gover- 
nava Milão, um grande exército, sob o 
comando de Gian Giacomo Trivulzio, 
milanês, com que se apoderou de 
Milão, enquanto os venezianos ocupa- 
vam o resto dos domínios do ducado. 
Ludovico refugiou-se na Alemanha, 
donde voltou à frente de um exército 
de suíços e alemães, reentrando em 
Milão em 1500, com o apoio da popu- 
lação descontente com o governo de 
Trivulzio. Mas, traído pelos suíços, na 
batalha de Novara, contra os france- 


ÍNDICE DOS NOMES CITADOS 


ses, no mesmo ano, o “Mouro” foi cap- 
turado e enviado para a França, onde 
morreu, dez anos depois. Luís XII 
impôs a Milão e as outras cidades 
pesados tributos de guerra, e prometeu 
a Florença auxílios para a conquista 
de Pisa, que resistiu ao ataque. O rei 
rompeu com os florentinos, pois desva- 
neceram-se as suas esperanças de fazer 
com que a república pagasse uma 
parte das despesas do exército francês. 
Com os venezianos rompeu depois, 
entrando na Liga de Cambrai, organi- 
zada contra Veneza. Júlio II levantou- 
se contra o predomínio da França na 
Itália, depois de ter seguido no começo 
do seu papado a política dos Bórgia, 
simpática aos fránceses. Luis XII tenta - 
reunir um concílio (Conciliábulo de 
Pisa) que lhe dê licença de fazer guerra 
ao papa. (Ver os nomes Alexandre VI, 
César Bórgia e Júlio II.) Ao fim do seu 
reinado, porém, chegou-se ao papa, 
renunciando ao Conciliábulo de Pisa e 
submetendo a Igreja galicana ao conci- 
lio lateranense. Aliás, já Leão X suce- 
dera a Júlio II. Luís XII morreu, em 
1515, aos 53 anos, pcuco depois de 
ter-se casado com Maria de Inglaterra, 
jovem de dezesseis anos. 


N 


Macrinus (217-218 d.C.) — Imperador 
romano. 


Marcus Aurelius (161-180 d.C) — 


Imperador romano. 


Marranos — Os mouros e judeus, que 
passavam ao cristianismo para evitar a 
perseguição, eram assim chamados na 
Espanha. 


Maximiliano I — Imperador da Áus- 
tria (1493-1519). Filho de Frederico 


ÍNDICE DOS NOMES CITADOS 


HI. Rival das casas reinantes da Espa- 
nha. Genro de Carlos, o Temerário, 
disputou à coroa de França a sucessão 
deste ao ducado de Borgonha. É do seu 
reinado que data a ascendência da: 
casa de Habsburgo na Europa. A Ale- 


manha era então “não tanto um impé-:. 


rio como um agregado de pequenos, 
Estados governados por soberanos que 
não viviam em paz, uns com os outros, 
nem se aliavam contra os inimigos 
comuns, e eram presididos nominal- 
mente por um imperador, o qual tinha; 
diminuta autoridade legal e nem podia: 
exercer de fato a pouca que tinha”, 
(Bryce, The Holy Roman Empire, New, 
York, 1886). Era Maximiliano o mais; 
poderoso príncipe que se assentou no. 
trono germânico desde Frederico II. 
Arquiduque da Áustria, conde do 
Tirol, duque da Estíria e da Caríntia, 
senhor feudal da Suábia, da Suíça e da 
. Alsácia, era poderoso por isso e não 
por ser titular do Sacro Império Roma- 
no-Germânico, 


estranho sistema de, 


doutrinas, parte religiosas, parte políti- 
cas, o qual se tornara obsoleto. Quan-, 


do Maximiliano se preparava para ir a 
Roma coroar-se, esperando assim res- 
taurar a autoridade e dignidade impe- 
riais, Os franceses (Carlos VIII) invadi- 
ram a Itália, pondo em xeque os 
projetos de Maximiliano. A 27 de abril 


de 1507, o imperador convocou em, 


Constança a Dieta dos Príncipes e. 


fez-lhes sentir a necessidade de travar- 
se uma luta decisiva pela posse da 
Itália. eo e 


Maximinus, Julius Verus (225-228 
d.C.) — Imperador romano. À morte 


de Alexandre Severo, inaugura-se a- 


anarquia militar, personificada pelo 


trácio Maximino, que nem se deu ao 


241 


trabalho de ir a Roma pedir ao Senado 
a sua confirmação. Toda a Itália ade- 
riu à insurreição começada na África. 
Embora assassinado Maximino pelos 
seus próprios soldados, não pôde ser 
assegurada a vitória da unidade do 
império. 


Medici — Família que dominou em 
Florença desde o último quartel do sé- 
culo XIV. Viveram contempora- 
neamente com Maquiavel e são referi- 
dos no Príncipe os três filhos de 
Lorenzo, o Magnífico, dos quais dizia 
o pai que o primeiro (Piero) era louco, 
o segundo (Giovanni) esperto e o ter- 
ceiro (Giuliano) bom. 


Medici, Piero de — Sucedeu ao “Mag- 
nífico” no governo de Florença (1492). 
Tirano odioso, cuja conduta covarde 
por ocasião da invasão dos franceses 
lhe valeu o desprezo unânime dos 
florentinos. Morreu afogado na passa- 
gem do Garigliano (1503). 


Medici, Giovanni de — Ver Leão X, 
Papa. 


Medici, Giuliano de — Depois da elei- 
ção de Leão X, Giuliano foi feito capi- 
tão e gonfaloneiro da Igreja, sendo 
recebido em Roma com grandes festas. 
Tornou-se pelo seu casamento Duque 
de Nemours e aliou-se, desde então, ao 
governo de Florença. “Dado aos pra- 


zeres, além da medida, e por isso fisi- 


camente enfraquecido, era de índole 
fantástica, que lhe fazia perder tempo 
na investigação do futuro; não lhe fal- 
tavam, porém, vagas €, às vezes, gran- 
des ambições, e nem impulsos genero- 
sos” (P. Villari, op. cit., cap. XVI. 


242 


Recusou o ducado de Urbino, ofere- 
cido pelo iifmão papa. Terminado o 
“Príncipe, Maquiavel pensou em dedi- 
cá-lo a Giuliano, mas hesitou em fazê- 
lo, até que sobreveio a morte deste 
(1516), e endereçou então a Lorenzo a 
carta escrita a Giuliano. 


Medici, Lorenzo de (1492-1519) — 
Filho de Piero e sobrinho dos prece- 
dentes. Sucessor do Duque de Urbino, 
desapossado por Leão X, que conse- 
guiu depois o casamento de Lorenzo 
com Madalena de Latour d'Auvergne, 
da casa real de França (1518). A via- 
gem nupcial de Lorenzo revestiu-se 
dum fausto que recordava a viagem de 
César Bórgia à França. Dócil instru- 
mento do papa, que pensava instituir 
um Estado para Lorenzo, formado de 
Módema e Parma. O breve governo de 
Lorenzo em Florença encheu de espe- 
ranças a cidade, mas, doente e cansa- 
do, foi para Roma, onde morreu, pou- 
cos dias depois do nascimento de uma 
filha, a qual foi depois rainha de Fran- 
ça (Catarina de Medici). 


Metauro — Rio da Umbria, lança-se 
no Adriático em Fano. 


Michele (Dom) da Coregla — 
Homem de confiança de César Bórgia. 
A seu mando, matou o Duque de Bis- 
ceglia, seu cunhado, e o Duque de 
Gandia, seu irmão, e assaltou os apo- 
sentos de Alexandre VI, agonizante, 
para saqueá-los. Depois da queda dos 
Bórgia, foi para Florença, onde chegou 
a comandar a milícia. Assassinado em 
1508. 


Nábis (205-192 a.C) — Tirano de 
Esparta. 


ÍNDICE DOS NOMES CITADOS 


Nomentanos — De Nomentum, cida- 
de da Itália, sobre o Allia. 


Orsini, Niccolo, Conde de Pitigliano 
(1442-1510) — Comandante das for- 
ças de Veneza, derrotado na batalha de 
Vailá (Agnadello).. 


Orsini — Nome de uma das duas mais 
poderosas famílias de Roma. As lutas 
dos Orsini com os Colonna foram uti- 
lizadas pelos Bórgia em proveito do ' 
seu próprio poderio. Os Orsini quise- 
ram fazer frente aos planos de domina- 
ção de César Bórgia, e foram os princi- 
pais instigadores da conspiração de La 
Magione. Faziam parte da liga contra 
Valentino o Cardeal Orsini, o Duque 
de Gravina, Paolo e Frangiotto, todos 
membros da família. O cardeal, prisio- 
neiro no Castelo de Santo Ângelo, foi 
envenenado a mando do papa; Valen- 
tino atraiu os outros a Sinigaglia, onde 
os mandou estrangular. 


Pesaro (Senhor de) — Giovanni di 
Costanzo Sforza, primeiro marido de 
Lucrécia Bórgia. 


Pescennius Niger — Proclamado im- 
perador pelas legiões romanas, em 
Antioquia, foi derrotado em Nicéia por 
Septimio Severo e executado (195 
dC). 


Petrucci, Pandolfo — Senhor de Siena, 
depois de ter mandado assassinar o 
sogro Niccolô Borghese. Em 1503, en- 
trou em luta com Valentino, sendo por 
este expulso de Siena, mas reposto 
logo depois com o apoio de Luís KII. 


ÍNDICE DOS NOMES CITADOS 


Piombino (Senhor de) — Jacópo degli 
Appiani, que fugiu à aproximiáção das 


forças de Valentino, as quais ocupa- 


ram a cidade (1501). 


Pirro (277 a.C.) = Rei do Epiro. Con- | 


Í 
quistou a Sicília por pouco teripo. | 
| 
| 


Quíron — Segurido a mitologiã grega, | 
centauro preceptor de Hérculês e de: 


Aquiles. 


Ramiro de Orco 
César Bórgia, foi poí este último feitô 


mente com Giovanni Olivieri: 


governador da Romariha (1501), junta: 
| 


Riario da Savona, Cardeal Rafaelio -— | 


Conspirou contra Leão X, que o 
degradou e privou dos haáveres. 


Rimini (Senhor de) — Sigismundo 
Pandolfo Malatesta, condoitiere famo- 


so pela sua crueldade. Cómbateu O | 


Papa Pio II. 


Roberto de San Severino — Capitão 
das tropas de Veneza contra Ferrara, é 
das forças do papa contra Nápoles. 7 
Rohan — Antiga e ilustre casa a 
nobreza remontava aos primeiros se-. 
nhores da Bretanha. Os Rohan foram a: 
princípio viscondes, condes e, depois, ; 
no século XVII, tomaram o título de! 
duques. 


Roveredo — Cidade do Tirol, sobre o 
Adige, a vinte quilômetros de Trento. 


Rubertet (Senhor de) — À morte do 
Cardeal d'Amboise, substituiu-o no |; 
favor de Luís XII, de quem se tornou | 
primeiro ministro. 


— Mordorio de; 


243 
N 
Saneses — De Sannio, antiga Sam- 
nium, região da Itália central. 


Santa Croce (Iacopo di) — Protono- 
tário e partidário dos Orsini, preso 
com o Cardeal Orsini. Assassinado 
pelos Bórgia. . 


Savonarola, Fra Girolamo —— Nascido 
em Ferrara em 1452, chamado a Flo- 
rença em 1480, por Lorenzo de Medi- 


ci. Ao tempo da expulsão destes, orga- 


nizou a nova república florentina sobre 
bases democráticas. Em 1498, o parti- 
do dos Medici (os “Palleschi”) dirigiu 
o ataque contra o palácio do “Capi- 
tano del Popolo”, Obizzo degli Alido- 
si. Abandonado pelo povo, foi preso e 
executado. 


Serchio — Rio da Itália que deságua 
o Mediterrâneo a doze quilômetros de 
Pisa. 


S. Pietro ad Vincula — Igreja em 
Roma, dá qual Giuliano della Rovere 


(o futuró Júlio II) tomou o nome para 


O seu título de cardeal. 


Septimits Severus (193-211 d.C). De- 
posto o Imperador Pertinax, pela guar- 
da pretoriana, as legiões impuseram os 
seus tandidatos ao império: o exército 
do Réfo aclamou Claudius Albinus, o 
do Dãnúbio, Septimius Severus, e o do 
Orierite, Pescennius Niger. Septimius 
Severus chegou a Roma em primeiro 
lugar, dissolveu a guarda pretoriana e 
depois dirigiu-se para o Oriente, sitiou 
Bizâncio e, tendo tomado Antioquia, 
derrotou completamente a Pescennius 
Niger. Voltando depois ao Ocidente, 
desbaratou o exército dé Albinus, 


244 


numa grande batalha, perto de Lião, 
restabelecendo assim a unidade do 
império. Fundou a última dinastia ro- 
mana — a dos imperadores africanos. 


Sforza, Francesco — Filho do grande 
condottiere Muzio Attendolo Sforza 
da Cotignola, a quem sucedeu na che- 
fia dos “Sforzeschi”, facção militar 
oposta à dos “Bracceschi”. Casado 
com Bianca Maria, filha de Filipo 
Maria Visconti, duque de Milão, gran- 
jeou grande influência no ducado. À 
morte de Filipo, formaram-se três par- 
tidos em Milão: os adeptos do rei de 
Nápoles (Afonso); os de Francesco 
Sforza; e os partidários da constituição 
de uma cidade livre em Milão. Estes 
venceram a princípio, mas, depois da 
revolta de Pavia e Parma, os milaneses 
confiaram a Francesco Sforza a defesa 
-do Estado contra os venezianos, que já 
se tinham apoderado de Lodi e Piacen- 
za. Sforza derrotou os venezianos na 
batalha de Caravaggio (1448), ligan- 
do-se, porém. logo após, aos vencidos, 


contra Milão, onde entrou, como 
duque, em 1450. 
Sforza, Ludovico — Assassinado o 


duque de Milão, Galeazzo Maria Sfor- 
za (1476), o irmão Ludovico, Duque 
de Bari, usurpou o ducado ao sobrinho 
Giovan Galeazzo, menino de oito 
anos, de quem se fez tutor. O 
“Mouro”, como passou. à história, 
ficou senhor de fato de Milão, mas 
foi-lhe sempre negado geralmente o 
direito à investidura ducal. (Ver o 
nome Luis XII.) 


Sforza, Ascânio (Cardeal) — Irmão de, 


Ludovico, o Mouro, candidato ao 


ÍNDICE DOS NOMES CITADOS 


pontificado, vendeu os votos de que: 
dispunha aos Bórgia. Destronado o 
irmão pelos franceses, o Cardeal Asca- 
nio foge de Milão, mas, preso logo . 
depois, é mandado para a França. Vol- 
tou a Roma depois da morte de Ale- 
xandre VI. 


Soderini (Francesco, Cardeal) — 
Bispo de Volterra, enviado com Ma- 
quiavel a César Bórgia em Urbino 
(1502). Adversário de Leão X, aspirou 
ao papado na sucessão deste. 


Suábia — Região da Alemanha antiga, 
dominada pela casa dos Hohenstaufen, 
e depois pelos Habsburgo, estendia-se 
da Turíngia à Suíça, da Floresta Negra 
à Baviera. 


Teseu — Herói da mitologia grega a 
quem os atenienses atribuíram a funda- 
ção do seu Estado. 


Trivigiano (Trevigno) — Cidade da 
íria a oitenta e cinco quilômetros ao 
sul de Trieste. 


Tusculanos -—- De Tusculum, cidade 
do Lácio. 


Vaila (Batalha de ) — No dia 19 de 
maio de 1509, os venezianos foram 
desbaratados em Vaila (atual Agnadel- 
lo) pelos franceses, que ocuparam 
grande parte da Lombardia. | 


Valentino (Duque) — Ver César Bór- 
gia. 


Veliternos de Velitrae, cidade dos 
volscos no Lácio, modernamente Vel- 
letra. 


ÍNDICE DOS NOMES CITADOS 


Venafre, Antonio Giordano da 
(1459-1530) — Famoso jurista e pro- 
fessor na Universidade de Siena. Con- 
selheiro de Pandolfo Petrucci. 


Vicenza 
sobre o Bacchiglione, a setenta quiló- 
metros de Veneza. 


Vidame (Vice dominus) — Oficial 


Cidade da Lombardia 


encarregado de promover judicial ou ' 


militarmente .a defesa de uma igreja, € 


administrar a justiça civil em nome 


dos bispos. 


Visconti, Bernabô — Um dos três can- 
didatos do Arcebispo Giovanni Vis- 
conti que partilharam a sucessão do tio 
no governo de Milão (1534). É lendá- 
ria a figura de Bemnabo pela sua cruel- 
dade. Foi envenenado em 1585 pelo 
sobrinho Giovanni Galeazzo, que ob- 
teve do Imperador Venceslau o título 
de duque de Milão. 


Vitelli, Paolo — Condottiere que com- 


245 


bateu por Florença contra Pisa. Sus- 
peito de traição, foi executado em 
1499. 


Vitelli, Niccol6 — Expulso em 1474 
da Citta di Castello pelo Papa Xisto 
IV, voltou a dominar aí em 1482. 


Vitelli, Vitellozzo — Irmão de Paolo, 
senhor da Cittaã di Castello, serviu sob 
César Bórgia. Foi um dos conjurados 
de La Magione, contra aquele. Es- 
trangulado em Sinigaglia. 


Xenofonte — Autor da Ciropédia (A 
Educação de Ciro”). 


Xisto IV, Papa (Francesco della Rove- 
re 1414-1484) — Apoiou o ataque de 
Veneza a Ferrara. Depois dos êxitos 
militares daquela, o papa voltou-se 


: contra Veneza, fundando a Liga San- 


 tíssima, 


com Nápoles, Florença e 


“Milão. 


à 
Í 
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- Este livro integra a coleção 
OS PENSADORES — HIST ÓRIA DAS GRANDES IDÉIAS DO MUNDO OCIDENTAL 
Composto e impresso nas oficinas da 
Abril SA. Cultural e Industrial, caixa posa 23 2, São Paulo